A semana em que os medos de Temer viraram realidade; entenda

Avanço da cassação de Eduardo Cunha e denúncias da Operação Lava Jato que chegam ao seu nome: dois fatores que podem prejudicar governabilidade e permanência

São Paulo – No último domingo (12), o governo interino de Michel Temer (PMDB) completou um mês e EXAME.com organizou um resumo do que havia acontecido até então. Foi feito também um prognóstico das dificuldades que o presidente poderia enfrentar em seu futuro.

Em apenas uma semana, todo o previsto como fator agravante aconteceu.

Tanto a perda de poder de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como articulador oculto no Congresso, representada por sua derrota na última terça-feira (14) em processo de cassação no Conselho de Ética, como uma denúncia que alveja diretamente o presidente, que surgiu da delação do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, foram fatores apontados por especialistas como perigosos para sua permanência no poder.

Agora são três as consequências que assombram as noites de Temer. A mais pacata delas é a sinalização da presidente afastada Dilma Rousseff (PT) à possibilidade de convocar novas eleições se retornar ao Planalto, através de referendo. A possibilidade é remota, pois juristas afirmam que a medida é inconstitucional.

Além disso, cientistas políticos não creem no retorno da petista. O principal trunfo de Temer, de acordo com aqueles consultados por EXAME.com é a alternativa ruim para a economia (e para os próprios parlamentares perante a maior parte da opinião pública) que representa uma volta de Dilma. Dizem eles que até 2018, se confirmado o retorno, pode haver severa elevação da percepção de risco e afundar ainda mais o país em crise.

Deve, de fato, incomodar o presidente interino a perda de influência no Congresso. Com o afundamento da moral de Eduardo Cunha, ele tende a ser desprestigiado pelo governo e pode levar junto consigo o apoio de quase 150 parlamentares que tinha sobre seu comando.

A soma é fundamental para aprovar medidas de ajuste fiscal, cujas Propostas de Emenda Constitucional (PEC) dependem de 3/5 das Casas para aprovação. Caso Temer fracasse em aplicar as medidas que melhorem a economia, o segundo semestre do governo peemedebista pode se tornar insustentável, como foi o de Dilma à partir do início do segundo mandato, em 2015.

A Prospectiva Consultoria lançou estudo considerando as possibilidades do governo após uma eventual cassação. Para os especialistas, o perfil ideal para a sucessão de Cunha deve ser de um parlamentar sem grande expressão, mas com traquejo para articular as propostas e evitar paralisação.

Isso porque os grandes nomes não estão dispostos a ocupar o cargo por tão pouco tempo, até as próximas eleições, mas precisam de alguém que seja ágil nos despachos. Não interessa, por exemplo, alguém como Waldir Maranhão (PP-MA), que não foi legitimado por colegas.

“Não só a cassação, mas a própria substituição de Cunha gera um embate público pela sua vaga na presidência, fazendo com que o governo tenha que escolher um candidato e gerando conflito de interesse na base aliada”, afirma Thiago Vidal, coordenador do Núcleo de Análise Política da Prospectiva Consultoria. 

O perfil articulador de Temer, visto o sucesso no convencimento de deputados no processo de impeachment, promete conciliar uma indicação a uma manutenção do bom relacionamento com demais legendas. Mas uma vitória inesperada de um candidato pouco afinado ao Palácio do Planalto geraria desgaste inestimável à governabilidade. 

A Prospectiva ressalta também que o governo precisará intensificar as nomeações para cargos na administração pública e negociar postos na Mesa Diretora para deixar o relacionamento em alta. Para evitar problemas até as eleições em fevereiro próximo ou por quanto durar o processo de cassação de Eduardo Cunha, Temer precisa tocar uma agenda positiva para não decepcionar as expectativas políticas e de mercado que sua chegada ao poder causou.

Aí entra outro problema: o impacto da Lava Jato em sua imagem. Para especialistas que ponderaram sobre os desafios do futuro de Temer para EXAME.com, seria determinante que Temer mantivesse longe ataques diretos da operação.

Nesta quarta-feira (15), porém, foi tornada pública a delação premiada de Sérgio Machado, que o ataca diretamente. Temer teria negociado pessoalmente com o ex-presidente da Transpetro o repasse de R$ 1,5 milhão para a campanha do então peemedebista Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo.

Um presidente não pode ser julgado por atos estranhos ao mandato, o que conta a seu favor por estar imune a desgastes típicos a outros políticos, como seus parceiros de PMDB. Mas a Lava Jato sensibilizou a população brasileira na luta contra a corrupção.

A pressão popular e provável indisposição do Congresso — que pode não se sentir confortável com a aproximação do presidente — podem gerar dificuldades à permanência.

“A denúncia gera desgaste, mas vai abalar de fato o governo caso apareça uma prova concreta e incontestável, não apenas com base em delação, de que Temer recebeu propina. Isso afetaria a imagem definitivamente”, diz Vidal, da Prospectiva. “A grande descoberta da delação é o envolvimento da propina no funcionamento eleitoral de partidos inteiros, afastando a prática dos exemplos pontuais. Esse fator pesa bastante.”

Segundo a coluna Painel, do jornal Folha de S. Paulo, Temer lamentou que a denúncia tenha ofuscado o anúncio do Novo Plano Fiscal do governo, que limita gastos do poder público. Houve, segundo o jornal, uma “inversão de expectativas”.

A reação mostra o quanto o presidente precisa dessa legitimidade popular. Foi mais triste o fato de o noticiário ter virado a atenção para denúncias de Machado que a acusação em si.

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