Arthur Virgílio (PSDB): Manaus perto do osso

Leo Branco, de Manaus 

O atual prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), é candidato à reeleição, mas paira a dúvida se ele irá concluir o mandato se for eleito. O boato é que, em 2018, o prefeito disputará o cargo de governador do Amazonas, deixando a prefeitura sob os cuidados do escolhido para vice em sua chapa, Marcos Rotta, do PMDB. O candidato é líder nas pesquisas e conta com 32% das intenções de voto dos manauaras. Formado em diplomacia pelo Instituto Rio Branco, Arthur Virgílio Neto já foi ministro durante o governo Fernando Henrique Cardoso, senador, deputado federal e prefeito de Manaus, em 1989. Em entrevista a EXAME Hoje, ele falou sobre a vocação da cidade para sediar grandes eventos, o impacto da crise econômica no Amazonas e as estratégias que adotou durante seu governo para lidar com a recessão.

Em pesquisa recente do Ibope, no topo das reclamações da população de Manaus está a precariedade do atendimento médico. Num segundo mandato, o que o senhor pretende fazer?

Na área da saúde, avançamos muito. Nossos postos têm cobertura para 60% da população – começamos o mandato com 23% e, se não fosse a crise econômica do país, estaríamos em 100%. Tradicionalmente, 30% da população em Manaus tinha plano de saúde. Com o desemprego, a saúde pública passou a receber mais pacientes, e essa migração comprometeu nossa capacidade de atingir a meta. Mas o que realmente deteriora nosso sistema é que, mesmo com maior demanda, o Estado do Amazonas fechou unidades de saúde por falta de recursos. O governador José Melo de Oliveira (Pros), bom, vou tentar fazer uma comparação feliz: o Albert Einstein é um pouco mais inteligente que ele. Os hospitais do estado estão num estado que parece que você chegou no Afeganistão. Parece que vai explodir uma bomba a qualquer momento ali dentro.

O senhor está sendo irônico com o governador ao compará-lo ao Albert Einstein…

Pensei que estava sendo irônico com o Einstein (risos). Aí fica aquela discussão medíocre sobre de quem deve ser a responsabilidade pelo atendimento em saúde. Eu não quero que o governo do estado assuma as unidades básicas da prefeitura e vice-versa, mas não dá para ficar assistindo ao fechamento de postos de saúde e clínicas do governo do estado sem fazer nada. Fui recentemente ao presidente Temer e expliquei que, num eventual segundo mandato, eu quero assumir a gestão das unidades que foram fechadas. Estamos discutindo qual será a contrapartida federal para a prefeitura assumir essas unidades. O presidente já me autorizou a conversar com o ministro Ricardo Barros, que foi meu vice-líder do governo na Câmara durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Temos nos planejado para executar isso num segundo mandato.

No primeiro mandato, o senhor reduziu o número de secretarias municipais, de 25 para 15. Pretende continuar reduzindo a máquina municipal?

Contando com as autarquias municipais, havia 41 órgãos quando assumi o mandato. A filosofia da administração foi a de enxugar para obter economias, o que nem é algo tão importante, o ganho de eficácia é bem maior. Há menos gestores coordenando mais pessoas – facilita a tomada de decisão.

O Brasil está passando por uma crise fiscal enorme. Como será um eventual segundo mandato diante dessas dificuldades?

A crise econômica abalou bastante a cidade de Manaus. Cerca de 80% do PIB da cidade vem do Polo Industrial de Manaus, que acaba empregando a cidade inteira, seja direta ou indiretamente. E as indústrias locais, dependentes do consumo no mercado interno, produziram menos e demitiram muita gente, o que afetou bastante a arrecadação de impostos. A nossa perspectiva é: se caiu a arrecadação, tem que cair as despesas de custeio. Chega um momento em que você fica no osso, e chegamos muito perto dele em Manaus. Tivemos que buscar fontes alternativas de receitas, como o pagamento de medidas compensatórias por parte de empresas. Fizemos muitas obras com o dinheiro dos outros, revitalizamos os parques municipais dessa maneira. Vamos ter que usar a criatividade num segundo mandato para cumprir nossas metas.

E qual a saída para a crise?

Uma delas são as exportações, que continuam não sendo muito boas. O ministro José Serra, do Itamaraty, deve vir a Manaus no fim do ano para um grande evento com ênfase nas exportações, junto à Superintendência da Zona Franca de Manaus. Temos um câmbio favorável, mas tenho muito cuidado com relação a esse assunto. O câmbio pode quebrar um galho para ajudar nas exportações num determinado momento, mas não numa vida inteira. Tem que procurar ganhos de produtividade, com políticas de inovação tecnológica, de formação de mão de obra, de ciência e tecnologia. Agora, veja, o PIB brasileiro caiu 8% em dois anos, mas não foi uma queda uniforme. O Mato Grosso e o Pará não estão em crise. São dois estados com pauta de exportações muito bem definidas, calcadas em mineração e agronegócio. Isso é até cruel com quem está em crise, porque a média não denuncia os problemas graves de quem está no fundo do poço, como o Amazonas, que depende do mercado interno. Enquanto em alguns estados já existe um esboço de recuperação na arrecadação, aqui ela continua caindo.

Além da crise econômica, há a crise política. Como o senhor avalia o desempenho do PSDB? O partido tem três presidenciáveis para 2018 (Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves), mas dois deles, Serra e Aécio, foram citados na operação Lava-Jato. Como o partido chegará a 2018?

O Serra não serve pra desonesto. Nem o Aécio, que tem uma tradição familiar na política muito bonita. Espero que ambos tenham condições de se defender e apresentar suas justificativas. Mas acho que agora não é o momento de pensar em candidaturas. O PSDB deve sair fortalecido das eleições municipais, e deve avaliar bem o quadro sem a necessidade de dizer que vai ter um candidato à presidência. É verdade que o partido nunca deixou de lançar candidatos, mas a gente tem que olhar sobretudo para 2017, ver como vai se comportar o país no ano que vem e a partir daí decidir o que fazer em 2018.

Como está sendo fazer campanha política nessas novas regras eleitorais, que impedem doações de empresas e limitam os gastos por candidatura?Engraçado, o pessoal pratica corrupção e eu não posso recorrer a empresas para me ajudar a financiar campanha. Considero uma balela essa história de financiamento público, ele não resolveria todos os problemas de corrupção porque a corrupção pode ocorrer dentro do Estado. Sou a favor de financiamento privado com regras duras, fiscalização grande em cima de caixa 2 e não ficar numa espécie de jogo do faz de conta, que tem sido a marca da política brasileira até agora. Essa reforma sintetiza muito daquilo que eu não defendo. Hoje em dia você chega para um amigo e pede contribuição para sua campanha, parece que você entrou na casa dele pela janela, que é um ladrão. Mais uma vez fizeram uma meia-sola,  que vai ter que ser reformada daqui a alguns anos. Talvez dê tempo de reformar isso antes de 2018, se Temer dedicar seu governo a fazer reformas.

Como o senhor vê o legado de grandes eventos esportivos como Copa e Olimpíadas para Manaus? A Arena da Amazônia é viável?

Foi feito um estudo pelo governo do estado amazonense que diz que a privatização da Arena da Amazônia seria um bom negócio se envolvesse o centro de convenções, que fica ao lado do estádio, e o sambódromo. O problema é vencer o tabu político que é falar em privatização. A arena tem se movimentado melhor do que os mais pessimistas poderiam supor, abrigando jogos da seleção e de times nacionais, mas teria que ser um espaço multiuso. Se estivesse em mãos privadas, duvido que grandes nomes pop mundiais, como um Paul McCartney ou um Elton John já não teriam tocado aqui. As pessoas do mundo inteiro têm necessidade, acho que até íntima e intelectual, de vir à Amazônia ao menos uma vez na vida. 

O senhor é candidato ao governo do Amazonas em 2018?

Primeiro preciso ganhar a eleição agora.

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