Atletas paralímpicos chegam a um Rio nada acessível

Não há calçadas, ou estão cheias de buracos; os semáforos não têm aviso sonoro; não há rampas, ou são inclinadas demais

Marco Aurélio Giglio luta com sua cadeira de rodas uma batalha no trânsito do Rio de Janeiro. Os buracos, as raízes e a falta de rampas nas calçadas da cidade-sede dos Jogos Paralímpicos dificultam sua mobilidade.

É uma corrida com obstáculos diária: Giglio, de 40, paraplégico há 21 anos após um acidente, não está entre os 4.300 atletas de 161 países que participarão a partir de quarta-feira (6) deste evento esportivo organizado pela primeira vez na América do Sul… mas teria garantido o pódio.

Com sua cadeira motorizada, faz o trajeto de 1 km sem necessidade de pegar um ônibus – o que evita a qualquer custo, porque, apesar de algumas adaptações do sistema de transporte público, ainda há muito o que fazer.

“Não me sinto seguro no ônibus”, disse à AFP.

O Rio de Janeiro tem uma “acessibilidade péssima”, afirma a superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD), Teresa Costa Amaral.

Os desafios são inumeráveis.

Não há calçadas, ou estão cheias de buracos; os semáforos não têm aviso sonoro; não há rampas, ou são tão inclinadas que obrigam a pessoa com deficiência a fazer uma força brutal para subi-las; as rampas dos ônibus não funcionam, ou o motorista não sabe operá-las; e ainda há táxis que evitam transportar pessoas com deficiência…

“Menos da metade da cidade foi ‘acessibilizada’, e o pouco que há não serve, porque não se pode fazer ‘acessibilidade’ pela metade”, declara Teresa.

Cerca de 6,2% dos mais de 200 milhões de brasileiros têm alguma deficiência, segundo números oficiais divulgados em 2015.

Sem condições

Berço do Paralimpismo, a Grã-Bretanha elevou o padrão nesse tipo de evento, organizando em sua capital Jogos recorde e sem falhas há quatro anos, que serviram de modelo.

“Nenhuma cidade-sede dos Jogos chegou ao evento completamente acessível, nem mesmo Londres. Acredito que o Rio de Janeiro melhorou bastante”, disse à AFP o presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), Andrew Parsons.

As melhorias no Rio, declara a especialista do IBDD, encontram-se apenas na modernização do sistema de Metrô, o qual transporta, porém, apenas 4% da população. Pelo menos 37% viajam de ônibus por essa extensa e caótica cidade tão bela quanto desigual.

E os “cadeirantes” não são os passageiros mais bem tratados no colapsado sistema de transportes.

Com os Jogos Paralímpicos, a dificuldade do transporte vai variar de acordo com a localização da instalação esportiva.

É possível chegar ao Parque Olímpico da Barra da Tijuca, que concentra a maioria das competições, pela nova linha de metrô e pelo BRT (ônibus articulados por vias exclusivas), o mais moderno sistema de transporte.

No caso do Estádio Olímpico Milton Santos (Engenhão), na Zona Norte, ou do Complexo de Deodoro, na Zona Oeste, é mais complicado, com o visitante tendo de recorrer ao antigo sistema de trens suburbanos “sem condições para pessoas com deficiência”, segundo Amaral.

A dificuldade persiste, porém, apesar de terem sido feitas várias obras nas estações olímpicas para melhorar precisamente o acesso.

Ao contrário dos Jogos Olímpicos, a prefeitura não decretará feriados, o que fará que os espectadores tenham de batalhar com o caótico trânsito carioca.

E não se espera pouca gente: já foram vendidos 1,5 milhão de ingressos, e a expectativa é que se esgote o milhão restante.

Giglio, que tem apenas movimento parcial nos braços, espera ir a um ou dois eventos paralímpicos. O táxi especial que normalmente pega não poderá chegar próximo das instalações esportivas e, por isso, o transporte público é sua única opção.

“Vamos ver como vai ser”, soltou, com um suspiro de resignação.

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