Como vivi a cobertura do impeachment de Dilma Rousseff

Para a maioria dos jornalistas que acompanharam o julgamento da petista, essa foi a principal semana de sua vida profissional. Veja os bastidores

Brasília – Mais de 100 horas de total dedicação à apuração, cerca de 6 litros de água e 8 xícaras de café por dia, dois tombos vergonhosos e alimentação desregrada para não perder nenhum lance do julgamento final. Isso poderia resumir os meus 7 dias na cobertura do desfecho do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Para a maioria dos jornalistas que acompanharam o julgamento da petista, essa foi a principal semana de sua vida profissional. Nos corredores, era possível ouvir frequentemente: “não quero ir embora”, “esse é um momento histórico”, entre outras frases que atribuíam a importância adequada ao que estávamos vivendo.

Foram centenas de degraus pelo caminho e arrancadas atrás de senadores que mais se assemelhavam aos testes ergométricos.

De aliados de Dilma, ouvia que a “virada histórica” estava prestes a acontecer. Da base governista, a percepção era de que o resultado da votação seria “uma goleada, um verdadeiro massacre”. Apurava daqui, apurava dali. A cada minuto, minha visão oscilava entre a salvação e a destituição da petista. As informações desencontradas transformavam a apuração em um verdadeiro quebra-cabeça que parecia não ter fim.

Em duas oportunidades, tive quedas inesquecíveis para mim e para os que puderam presenciar a cena. Ambas, no Túnel do Tempo do Senado, um dos lugares mais movimentados da Casa na última semana. Segundo colegas, tive sorte de não ter caído em cima de algum jornalista que estivesse em um link ao vivo.

Fica o alerta: não converse com fontes por WhatsApp em meio ao tumulto de pessoas e fios espalhados pelos corredores do Congresso. Pode ser fatal.

Alimentação saudável também foi coisa do passado. No comitê de imprensa do Senado, nos enchemos com coxinha, pão com mortadela, tortinhas de limão, bolo de chocolate e muitas outras guloseimas. Qualquer nutricionista que se deparasse com o cenário ficaria aterrorizado.

Um dos piores momentos do processo foi a chegada do senador Romário (PSB-RJ) ao plenário por volta de 1h30 de terça-feira. Ao chegar, o eterno “baixinho da seleção” decidiu se inscrever para falar. Depois de muitas horas de trabalho, ouvir que você está com cara de cansado soa a ofensa. Das graves. E não é que o ex-camisa 11 da seleção teve a coragem de me dizer isso. Mas óbvio que não quis dar entrevista.

Nos principais dias do julgamento, os jornalistas enfrentavam filas para ter acesso ao plenário. A luta para ir ao cafezinho e conseguir informações para emplacar uma notinha de bastidor também era acirrada.

No dia em que Dilma compareceu ao Congresso para responder às perguntas dos senadores e dos advogados, uma comitiva de ex-ministros do governo petista acompanhava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Eles ficaram na galeria do plenário.

A assessoria de imprensa do Senado disponibilizava cinco senhas para que tivéssemos acesso ao local. Podíamos ficar por até 30 minutos. A disputa era tanta que eu entrei na lista por volta das 9h da manhã e consegui subir apenas as 16h daquela segunda-feira.

Por outro lado, as participações de Magno Malta (PR-ES) sempre arrancavam risos intermináveis. O parlamentar, que também é cantor de pagode gospel, cantarolava músicas para expressar sua felicidade em se despedir definitivamente de Dilma.

O cansaço, porém, era compartilhado pelos parlamentares. Flagrei diversos bocejos e espreguiçadas de ambos os lados. Em um dado momento, a senadora Gleisi Hoffman (PT-PR) se levantou para fazer alongamento.

Ainda assim, eles não paravam. Não se entregaram ao descanso nem mesmo no domingo, dia em que não houve sessão no Congresso. Pela manhã, senadores da base governista se reuniram para afinar o discurso que fariam para inquirir Dilma no dia seguinte. Derramados pelo chão do Congresso, os jornalistas aguardavam o desfecho da reunião — que levou quase 2 horas para terminar.

Naquela mesma noite, aconteceu a reunião dos aliados de Dilma no prédio em que mora a senadora Lídice da Mata (PSB-BA). Instalados no térreo, fomos brindados com pães de parmesão, cream cheese, refrigerante e suco de uva. Não há um jornalista sequer que não goste de uma boa pauta acompanhado de uma comidinha gostosa.

Na ocasião, Gabriela Sofia, filha de Gleisi, ficou no térreo, fazendo passos de jazz. A garota de 10 anos não se intimidou com a presença dos fotógrafos e não economizou nos espacates.

Algo que me espantou foi a resistência do ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto imprensa e parlamentares demonstravam cansaço, Lewandowski parecia disposto a correr a maratona de Nova York. Em uma das noites de julgamento, ele dispensou o jantar e tomou apenas um chá de gengibre, informaram os assessores da Corte. Estarrecido, me perguntei diversas vezes: “Como ele consegue?”.

Após o resultado final, acreditei por alguns segundos que a novela teria chegado ao fim, que meus dias seriam mais tranquilos. Nada disso.
Logo após a votação, constatamos que líderes de partidos da base governista demonstravam insatisfação com o PMDB. Motivo: a maioria dos parlamentares do partido de Temer votou contra a inabilitação de Dilma para ocupar cargos públicos. Ou seja, em poucos minutos de governo efetivo, a base aliada — que até então se vendia como intacta — parecia desmoronar.

Para cobrir a posse de Temer com “visão privilegiada”, abrimos mão do almoço e esperamos sentados no chão do salão azul. A fila parecia infinita. O pior de tudo: a solenidade foi tão breve que nem discurso teve.

Após o impeachment, a abertura de recursos no STF para questionar o resultado do processo ou da segunda votação passou a pautar os jornalistas. Sem respostas e previsões certas, a única certeza que nos resta é que as noites mal dormidas ainda estão longe de acabar. Mas quer saber? Vale muito a pena.

* Marcelo Ribeiro é repórter de EXAME.com em Brasília (DF)

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