Neves, da Eurasia: Temer terá meses difíceis

Raphael Martins

A semana do Carnaval é a calmaria antes da tempestade. É assim que a maior consultoria de risco político do mundo, a Eurasia, inicia seu relatório semanal com as previsões para o Brasil. O texto destaca as turbulências pós-recesso ao governo Michel Temer: o depoimento de Marcelo Odebrecht, as consequências de um possível afastamento de Eliseu Padilha do governo — o nono ministro sob ameaça desde maio — e o retorno dos protestos de rua pedindo a saída de Temer e contra a corrupção.

O alerta final da consultoria é que Temer precisa rebolar para que nenhum dos eventos comprometa o calendário das reformas de ajuste fiscal, sua principal bandeira. “Uma paralisia no Congresso cria sensação de que Temer não é mais solução para a crise, mas continuação dela”, afirma João Augusto de Castro Neves, diretor de análise para Brasil da Eurasia. Em entrevista a EXAME Hoje, Neves detalha quais os próximos passos para o presidente domar o Congresso e afastar o risco de 20% de não terminar o mandato, seja por complicações na Operação Lava-Jato ou pelo processo de cassação aberto contra ele no Tribunal Superior Eleitoral.

Com os depoimentos de José Yunes, que foi assessor especial do gabinete de Temer, as delações da Odebrecht e reformas impopulares em tramitação no Congresso, o governo Michel Temer enfrenta seu momento mais delicado?

Esses episódios mostram uma volatilidade que continuará existindo. Notamos um sobe-desce. Em outubro, houve um otimismo com o governo Temer, quando parecia que tudo se resolveria no país. Depois, veio uma onda de pessimismo no fim do ano, com a suspensão do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que ameaçou a votação da PEC do teto. Agora, até semana passada, havia a volta de alguma onda de otimismo, em que tudo voltava a se encaixar, até que vieram as bombas. Ainda há muitas cascas de banana no caminho, que geram muito barulho. As reformas vêm caminhando e demos 70% de chance de aprovação à reforma da Previdência. Depois do passado recente do Brasil, essa é uma história positiva, mas não “linear”.

Há de se esperar mais problemas pela frente?

Os meses de março e abril serão difíceis. Haverá uma confluência de fatores de risco. O primeiro é a delação da Odebrecht, que mesmo que não se torne pública, sofre com a possibilidade de vazamentos. Avaliamos que as revelações não vão ferir Temer “de morte”, mas devem pegar assessores ao lado dele, com custo para o governo. O segundo é o processo no TSE. Muito provavelmente a relatoria pedirá a cassação da chapa, mas entendemos que o tribunal como um todo não vai votar a favor da cassação – ou vai moderar para que a punição não seja a perda de mandato. Mas isso gera preocupação no curto e médio prazo. Terceiro: num contexto de desemprego em alta e Lava-Jato alimentando o noticiário, não podemos descartar um ganho de corpo dos protestos. A reforma da Previdência também é um fator que alimenta as ruas.

Isoladamente, esses riscos podem ser contidos. Mas, se houver congruência, a percepção da crise fica mais aguda. Uma paralisia no Congresso cria sensação de que Temer não é mais solução para a crise, mas a continuação dela. Serão meses cruciais para avaliar a chance de queda do governo Temer, que hoje é de 20%. Depois desse período de turbulência, reavaliaremos o índice para baixo ou para cima.

A Eurasia trabalha com a hipótese de queda de Temer com base nos processos do Tribunal Superior Eleitoral?

A única situação de queda é via TSE. Por impeachment, é pouquíssimo provável. A base aliada é muito maior e mais sólida que a de Dilma. Entendemos que, mesmo que o relator peça a cassação, haverá favorecimento do presidente. O tribunal deve considerar um custo enorme alavancar a queda de Temer – mesmo que se trate de um presidente que sofre com a falta de legitimidade e popularidade. Cabe ao Congresso a tarefa de eleger o substituto, e o Congresso tem pouquíssima legitimidade e está no centro da ira popular com a política. Além disso, o processo é desgastante, envolvendo eleições sem regras claras estabelecidas. A incerteza no processo sucessório paralisaria a agenda de reformas por um tempo enorme e geraria reação do mercado. O TSE tem olho para esses aspectos também. Mas, novamente, são os acontecimentos dos próximos meses que vão definir a pressão sobre o tribunal para tomar essa decisão.

O PT divulgou na quarta-feira (1) uma carta que pede a candidatura de Lula à presidência para devolver a “dignidade” aos brasileiros, em clara referência às reformas. O discurso da oposição será esse? Essa narrativa convence o eleitorado?

O pleito de 2018 tende a ser um cenário mais fragmentado e competitivo, com mais candidaturas. Será mais parecido com 1989 do que com as eleições polarizadas mais recentes. Nesse contexto, não podemos descartar ninguém. O discurso da esquerda de criticar o governo atual e voltar ao estilo de antes do “Lulinha Paz e Amor” tem pouca ressonância eleitoral. Há uma insatisfação com a classe política que se deve muito à corrupção e à má-gestão da economia. Há um desejo geral por eficiência, por abertura e investimentos, seja de onde vier. O discurso tradicional e nacionalista da esquerda não ganha eleição agora. O único cenário em que pode dar certo é com o total fracasso do governo Temer, com nenhuma reforma sendo aprovada e a economia sem se recuperar. A esperança do PT seria moderar o discurso e voltar ao centro, que não parece ser o caso. Ciro Gomes (PDT-CE), como vem se apresentando, se aproxima do discurso mais raivoso, que também não é interessante. A presença de Fernando Haddad (PT-SP) seria interessante. Uma chapa dele com um Ciro mais moderado seria uma experiência mais promissora.

A Eurasia afirma que é questão de tempo até que Eliseu Padilha deixe o governo. Este seria o nono ministro a deixar o governo. Quais as consequências? Como fica a força do governo para manter a agenda com tantas trocas?

São fatos que atrapalham. O segredo é se livrar dessas peças, como o Padilha, de uma forma que custe o mínimo possível. Um exemplo: a votação do teto de gastos estava engatilhada, mas por pouco Jorge Viana (PT-AC) não assumiu o Senado quando houve a tentativa de afastamento de Renan. Lentamente, Temer vem se livrando das pessoas no núcleo do governo, e isso aumenta a dependência nas lideranças do Congresso. Ele conseguiu eleger Eunício Oliveira (PMDB-CE) e Rodrigo Maia (DEM-RJ), que lhe são simpáticos. A solução foi afastar a articulação de dentro do Planalto para o Congresso. É mais complicado, mas as lideranças do Legislativo estão alinhadas ao programa de Temer.

O jornal Folha de S. Paulo fez um levantamento com deputados e a maioria dos que compõem a comissão especial da reforma da Previdência discorda de pontos fundamentais como a idade mínima. O que a Eurasia espera da capacidade de Temer de manter o texto original?

O governo mirou mais alto e mandou um texto mais duro, esperando negociação no Congresso. Acreditamos que a reforma passa, mas não exatamente do jeito que está. O cerne e as principais medidas ficam, mas haverá redução em alguns pontos – a idade mínima é um deles. O resultado da pesquisa não é surpreendente. Esse é o início do processo de negociação, em que os parlamentares têm que valorizar o passe. Ao final, o governo vai ter saldo positivo, com reforma razoavelmente robusta.

O quanto marcar posição nas reformas agora valerá para 2018? As dissidências no Congresso visam viabilidade eleitoral?

A reforma da Previdência bate de forma mais concreta no bolso do eleitor, então o trabalho é em duas frentes. A primeira: os deputados querem fazer parte de um programa vencedor. A segunda: há um limite de tempo para aprovação dessas reformas, que é 2017. Se entrar em 2018, a chance de mais diluição ou reprovação aumenta muito, por conta das eleições. Há uma corrida para que haja um reflexo bom na economia até o ano que vem. Cada deputado fará o seu jogo – e ninguém vai “vender” barato esse apoio. Por enquanto, ficar na sombra do governo é mais vantagem que ficar na sombra da oposição, pelo acesso a recursos e posições. É uma grande negociação, que finalmente começou.

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