O fracasso eleitoral da Rede

A Rede Sustentabilidade chamou a atenção nesta semana ao divulgar o balanço de seu desempenho nas eleições municipais de 2016. Entre os 5.570 municípios do Brasil, a legenda capitaneada pela presidenciável Marina Silva ocupará a cadeira de prefeito em apenas cinco deles. Foram 154 candidaturas lançadas, o que resulta em um sofrível aproveitamento de 3,2% — o PT, em comparação, conseguiu eleger 25% dos seus candidatos. O fracasso também ocorreu no legislativo. Dos 3.449 postulantes a vereador lançados, apenas 180 se elegeram.

As cidades já conquistadas, assim como os nomes eleitos, são de pouco expressividade no cenário nacional. Os cinco vencedores foram Prado, na cidade de Lençóis Paulistas (SP); Dr. Adriano, em Cabo Frio (RJ); Sandro de Juca, em Brejões (BA); Ricardinho, em Livramento de Nossa Senhora (BA); Fábio Lago Sul, em Seabra (BA). Ainda disputam o segundo turno Audifax, em Serra (ES), Aliel Machado, em Ponta Grossa (PR), e Clécio, em Macapá (AP), única capital possível.

O gosto amargo de decepção é acentuado pela expectativa que se criou em cima do partido, dada a popularidade de seu principal cabo eleitoral. Marina teve 19,6 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2010. No pleito de 2014, ela saltou para 22,1 milhões. Agora, em 2016, em que a chefe pouco apareceu, os candidatos da Rede, para todos os cargos, acumularam somente 1,7 milhão de votos válidos. O principal nome do partido que foi às urnas, o deputado federal Alessandro Molon para o posto de prefeito do Rio de Janeiro, amargou 1,43% do eleitorado (43.426 votos), um mirrado oitavo lugar.

“Nesse episódio ainda estamos avaliando [o que deu errado]. Nós tínhamos dois vereadores, foi uma das cidades que a Marina esteve mais presente, mas nos parece que houve uma busca do voto útil contra o PMDB do Rio, virando para o Marcelo Freixo”, diz o porta-voz do partido Zé Gustavo, em entrevista a EXAME Hoje. “No geral, estamos felizes com o resultado final. Temos conteúdos muito bons, mas precisamos alcançar mais pessoas com propostas viáveis. Queremos um viés à frente, pensando novas formas na sociedade”.

O conceito de nova política é o mesmo da fundação do partido, que ganhou seu registro oficial no TSE em setembro de 2015. Mas o resultado das urnas mostra que o discurso ainda não colou. Em certos casos, até desagradou. Também nesta semana, logo após o pleito, um grupo de oito dissidentes enviou carta aberta ao partido, explicando sua desfiliação.

O ponto central foi o “vazio de posicionamento” do partido em questões centrais do país e uma espécie de submissão do diretório central às posições de Marina. A mudança de diretriz durante o impeachment foi mais um momento agudo, quando a líder que defendia a manutenção de Dilma Rousseff passou a defender novas eleições. A direção nacional da legenda  acompanhou a opinião de Marina sem um debate maior.

“A Marina não é um caudilho, mas há um despreparo e despolitização da direção nacional. O espaço para políticos tradicionais se tornou muito franqueado, nos tornando algo sem identidade nenhuma. Houve uma ocupação dos espaços de decisão do partido por membros da velha política”, afirma em entrevista a EXAME Hoje Marcos Rolim, ex-integrante da Rede e um dos signatários da carta de saída.

Um exemplo dessa nova ocupação de espaços foi a filiação de Sanchotene Felici, ex-PSDB, indicado para concorrer  à prefeitura de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Em sua trajetória política, Felici ficou marcado pela concessão à iniciativa privada do sistema de distribuição de água da cidade de Uruguaiana, em 2008, à empresa Foz do Brasil, do grupo Odebrecht. Felici também foi um apoiador da senadora Ana Amélia (PP) — que atuou na linha de frente pelo impeachment de Dilma Rousseff —, fazendo com que membros da Rede o considerem “profundamente conservador”.

A diretoria nacional do partido acusa os dissidentes de golpistas, mas, ao mesmo tempo, afirma que pretende se reformular. Apesar de defender que as escolhas de coligação foram feitas de forma estudada, com embasamento programático e com candidatos de histórico ilibado, assumem que vão recompor a executiva de estados que foram impactados pela deserção de lideranças, como o Rio de Janeiro e o próprio Rio Grande do Sul. A Rede também promete realizar uma autocrítica: é preciso aprofundar posicionamentos em questões sensíveis da política nacional, com mais clareza sobre seu viés ideológico. Afinal, abraçar o mundo deu errado.

Bate-cabeça

Para cientistas políticos consultados por EXAME Hoje, esse bate-cabeça entre as lideranças é o que faz o partido não deslanchar. Mesmo com o momento de desgaste da classe política, só será possível surfar como o “representante da nova política” com uma linha programática mais sólida, em que o eleitor possa confiar.

Para Fernando Schüler, cientista político e professor do Insper, Marina Silva não soube se consolidar desde a criação do partido como uma liderança política. Para ele, houve uma falta de articulação para que ficasse mais clara que a Rede evoluiu para um partido político, não apenas um movimento social.

“Falta aspiração de poder e visão clara de mundo. Nem sobre um tema tão forte e de posicionamento claro como o impeachment a Rede teve uma visão unificada. Fora isso há um sistema de alianças difuso, posição dúbia sobre muitos assuntos da conjuntura”, afirma Schüler.

Para o especialista, as eleições deixaram clara a necessidade de o político demonstrar seus pensamentos de forma clara, bancando suas ações. “Um exemplo é o João Doria, que mostrou personalidade política, que fala abertamente em privatizações, se apresenta como empresário de sucesso. Certos mitos caíram por terra nessas eleições, principalmente para quem conseguiu expressar o desejo modernizante”, diz.

De acordo com David Fleischer, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), a Rede enfrenta um problema de conceito. O fracasso nas urnas é resultado de uma falta de “raízes municipais”.

“A melhor comparação é com o PSD do Gilberto Kassab. Nas eleições de 2012, o partido elegeu 494 prefeitos, porque políticos profissionais entraram nos quadros do partido. A Rede não tem essas raízes e parece um bando de amadores. Foram 150 candidatos sem força para fazer campanha”, diz o professor.

O conceito da Rede, que a priori refuta a “velha política”, deve encontrar dificuldades. Tantas quanto foram enfrentadas pelo PSOL, que teve origem em um grupo de dissidentes do PT, em 2004. Segundo Fleischer, não recrutar prefeitos e vereadores que já ocupavam o cargo é um modelo fadado ao fracasso. “Tudo organizado com muito idealismo é difícil crescer. O PSOL surgiu como dissidência do PT, mas também não tinha bases municipais. Custou muito para se organizar, mas começou a recrutar alguns desses nomes para as eleições de agora, quando conseguiram melhores resultados”, diz.

Se Fleischer estiver certo, só há uma saída para que a Rede consiga eleger um prefeito em uma grande capital: trocar a “sonhática”de Marina pela pragmática da política.

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