O papelão da Polícia Federal

Isabel Seta e Raphael Martins

A diferença que 48 horas podem fazer. Na última sexta-feira, a maior operação da história da Polícia Federal (PF) revelou um esquema criminoso entre processadores de carne e agentes públicos para driblar a fiscalização e fraudar alimentos. Uma das empresas, afirmou a PF, chegava a colocar papelão nos alimentos. Dois dias depois, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, convocou uma entrevista para dizer que os agentes da PF haviam chegado a conclusões com pontos de “idiotice” e que a operação havia criado uma narrativa com “fantasias” por desconhecimento dos processos de produção de alimentos.

“Ficou combinado que de hoje em diante o Ministério e a PF vão trabalhar juntos e os técnicos do Ministério vão dar amparo técnico às investigações”, disse o ministro. Entre uma declaração e outra, uma corrida para chegar aos detalhes da operação deixou muitas dúvidas no ar e uma certeza: o papelão, no caso, foi da Polícia Federal mesmo.

“A percepção geral é de que a PF fez o papel dela, mas houve barulho excessivo em cima do que foi divulgado. A perícia técnica de fiscais do Ministério da Agricultura pode dar informações precisas sobre níveis de substâncias inadequados e  presença de salmonela”, diz Renata Amaral, diretora de Comércio Internacional da consultoria Barral M Jorge (vale dizer que a participação de técnicos do ministério no esquema de corrupção impediu a parceria). “O que é certo é que a situação prejudica a imagem do país e a abertura de mercados, que pode levar 10 anos de muita troca de informação entre governos e o setor privado”, diz Amaral.

Em evento na Câmara Americana de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham), o presidente Michel Temer manteve a postura adotada pelo governo desde sexta-feira – de tentar minimizar o efeito sistêmico do escândalo. O presidente ressaltou os processos de fiscalização “rigorosíssimos” pelos quais passam os frigoríficos brasileiros, reafirmou que os 33 funcionários do Ministério da Agricultura serão devidamente investigados e que “apenas” 21 dos 4.837 frigoríficos brasileiros, precisarão ser inspecionados. O episódio, segundo Temer, “não pode comprometer todo o sistema que nós montamos ao longo dos anos”.

Em nota a EXAME Hoje, a Polícia Federal afirma que vai esperar o balanço das apreensões para divulgar mais informações. “Até a conclusão da análise do material apreendido, não vamos mais promover entrevistas sobre o assunto. Aguardamos ainda a entrega pela Coordenação da Operação de um balanço ainda que parcial do cumprimento dos mais de 300 mandados judiciais”, diz o texto.

Segundo o site O Antagonista, um integrante da Operação Carne Fraca disse que há indícios de que frigoríficos pagavam propina mensalmente a fiscais. “Eles não sabem o que ainda temos. Logo o negócio vai crescer muito”.

O fato é que muitos das descobertas da PF, e a forma cataclísmica como a operação foi divulgada, têm sido alvo de intenso escrutínio. “Há uma falsa preocupação das empresas com a sociedade”, afirmou na sexta-feira o delegado Maurício Moscardi Grillo, responsável pela operação. Um exemplo é o Ácido ascórbico,  uma das substâncias usadas para mascarar carnes impróprias, é mais conhecido como “vitamina C”. A substância é comumente usado pela indústria para estabilizar a cor rosada em embutidos. Ao contrário do entendimento geral passado na coletiva de imprensa da sexta-feira, não é cancerígeno e é permitido pela legislação brasileira em “quantidade suficiente” no processamento de embutidos.

“É um aditivo permitido, necessário e desejado no processamento de embutidos em geral. É um antioxidante usado mundialmente, que favorece a manutenção dessa cor rosada do embutido cru e cozido”, afirma o professor Marco Antonio Trindade do departamento de engenharia de alimentos da USP de Pirassununga. O frigorífico Peccin é o único acusado pela investigação de utilizar “ingredientes químicos” para “maquiar” o aspecto ruim de carnes estragadas.

Um dos despachos da PF fala na “maquiagem de carnes estragadas com a substância cancerígena ácido ascórbico”. O termo aparece duas vezes no relatório. Porém, na sexta-feira 17, o delegado responsável pela investigação, Maurício Moscardi Grillo, disse que “eles usavam ácido sórbico e outras substâncias na carne para maquiar essa imagem ruim. Inclusive cancerígenas”. Em outro documento da PF, o inquérito que deu origem às decisões judiciais, também se lê que a empresa utilizava ácido sórbico para “maquiar” as carnes.

Assim como ácido ascórbico, o sórbico não é cancerígeno e consta na lista de aditivos aprovados pela Anvisa, a agência de vigilância sanitária. Segundo a regulamentação do órgão, o ácido sórbico é um conservante e pode ser usado na dosagem 0,02 por 100 gramas de carne. Ele é comumente utilizado pela indústria de alimentos não só na carne, mas também em pães, queijos e vinhos por ser um potente inibidor de mofo, leveduras e bolor. A PF fez a perícia de produtos apenas da Peccin, em que constatou a “maquiagem” de carnes estragadas. Não foi divulgado, no entanto, a quantidade de ácido sórbico encontrada. Também não foram feitos esclarecimentos sobre quais substâncias cancerígenas teriam sido encontradas.

Em outro dos áudios interceptados pela PF, os executivos Idair e Nair Piccin discutem a utilização de carne de cabeça de porco na linguiça. Segundo Marco Antônio Trindade, professor do departamento de engenharia de alimentos da USP de Pirassununga, o uso da carne de cabeça de porco abatido sob inspeção sanitária pode ser usado em qualquer produto de carne cozida. “É um produto de valor nutricional adequado, mas como passa por uma manipulação maior, tem essa recomendação de utilização mais específica, produto de carne cozida, como mortadela. Não faz mal”, afirma o professor. Como a linguiça é um embutido fresco, o uso de carne de cabeça de porco em seu processamento não é permitido. Não fica claro pelo inquérito se o carregamento de 2.000 quilos de carne de cabeça de porco foi de fato utilizado na fabricação da linguiça pela Peccin.

Em outra leva de áudios interceptados, o diretor da BRF para o Centro-Oeste, André Baldissera, conversa com outro interlocutor sobre um carregamento de carnes do frigorífico da empresa em Mineiros (GO) que foi barrado em um porto da Itália por conter indícios de Salmonella, gênero de bactérias que pode causar infecções. Segundo o relatório da PF, as autoridades sanitárias europeias teriam identificado traços de uma das espécies da bactéria em ao menos quatro contêineres da BRF. A legislação europeia proíbe duas variações da Salmonella em produtos in natura, a Salmonella enteriditis e a Salmonella typhimurium. Em nota, a BRF afirmou que foi encontrado o tipo Salmonella Saintpaul em seus contêineres “e, portanto, não justificaria a proibição de entrada na Itália”.

Sobre o episódio do papelão, a BRF afirma que “houve um grande mal entendido” na interpretação do áudio. “O funcionário estava se referindo às embalagens do produto e não ao seu conteúdo. Quando ele diz ‘dentro do CMS’, está se referindo à área onde o CMS é armazenado. Isso fica ainda mais claro quando ele diz que vai ver se consegue “colocar EM papelão”, ou seja, embalar o produto EM papelão”, diz nota da empresa.

As consequências

Em 2016, o Brasil exportou 13,7 bilhões de dólares em carnes. O país é o maior exportador de carne bovina do mundo e o segundo de frango, atrás dos Estados Unidos. Segundo estimativas da Associação de Comércio Exterior do Brasil, a média anual de exportação de carnes no Brasil deve cair ao menos 20% com as notícias, seja por suspensões nas importações de países clientes do Brasil ou em descontos dados nos valores de tabela, para manter mercados firmados.

As primeiras sanções começaram a chegar. A Comissão Europeia afirmou nesta segunda-feira que a União Europeia não permitirá que as empresas investigadas pela operação tenham produtos importados pelo bloco. O Ministério da Agricultura sul-coreano também anunciou que o país vai intensificar a fiscalização da carne de frango importada do Brasil e banir temporariamente as vendas de produtos da BRF após o escândalo. Chile e China anunciaram suspensões temporárias aos produtos brasileiros. O número pode aumentar, pois, nos últimos 60 dias, foram 33 os países ou blocos que receberam carnes pelas empresas envolvidas no esquema, incluindo Japão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Kuwait.

“O problema da operação foi vender a imagem de um país sem controle. O que houve foi um desvio de conduta, um problema de corrupção embalado como crise sanitária”, afirma José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil. Os próximos dias vão mostrar se os importadores de carne brasileira continuam confiando mais nas investigações, ou na contraofensiva do governo e das empresas.

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