O PSDB na encruzilhada

Carol Oliveira e Raphael Martins

Em meio ao quiproquó que se instalou na política brasileira, um partido em especial está sem rumo: o PSDB, maior partido da base aliada de Michel Temer. Os tucanos, evidentemente, torcem por Temer, pois uma melhora econômica criaria uma agenda positiva que poderia levar o partido ao Planalto em 2018. Mas a economia insiste em não decolar, o que força o partido a movimento erráticos.

O mais recente veio nesta quinta-feira, quando um de seus principais quadros, o deputado baiano Antonio Imbassahy, foi indicado para a Secretaria de Governo de Michel Temer. Era uma vitória. Duas semanas atrás, incomodado com a repercussão do caso Geddel Vieira Lima, o PSDB, engrossou as críticas ao governo. A indicação de Imbassahy era um afago ao partido no momento mais crítico do governo, envolto em polêmicas com o Congresso e com pautas decisivas para ser aprovadas.

O problema: pressionado, o governo voltou atrás e Imbassahy foi preterido na noite desta quinta. O motivo foi uma reação imediata dos 200 deputados do Centrão, que enxergaram na medida uma forma de favorecimento a Rodrigo Maia (DEM-RJ) na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Imbassahy era um nome forte para o cargo, e sua entrada na disputa aumentaria as chances de nomes do Centrão, como o deputado Rogério Rosso (PSD-DF). O Centrão ameaçou melar a reforma da Previdência e, na queda de braço, sobrou para os tucanos.

De acordo com Rogério Rosso (PSD-DF), a indicação de Imbassahy, divulgada pela imprensa, gerou uma “insegurança natural” no centrão, por sinalizar um apoio de Temer a Maia sem que os deputados fossem consultados ou avisados. “Se for a vontade da base aliada e do presidente, eu retiro minha candidatura. Não quero enfrentá-lo”, disse à reportagem de EXAME Hoje. Outro nome forte do centrão, Gilberto Nascimento (PSC-SP) disse que houve “desencontro”, mas a base está unida.

Como reagiu o PSDB? Com um conformismo de quem, no momento, não tem para onde correr. A intenção do partido é manter a aliança. “Neste caso, a crise é entre governo e centrão. Não tem a ver com a gente e cabe ao governo resolver”, afirma um parlamentar. “O que nos preocupa é a condução, que claramente não deu certo. Isso demonstra que o governo continua fragilizado desde a saída do Geddel. Isso precisa ser resolvido logo”.

A opinião vai em linha com um artigo do senador Aécio Neves (PSDB-MG), publicado na semana passada, que diz ser “preciso reconhecer que, ao lado de alguns avanços importantes, as dificuldades permanecem graves”. O discurso é uma defesa antecipada do partido a críticas quanto à condução política do governo. No campo das reformas econômicas, o partido está escanteado.

“A expectativa da cúpula do PSDB era uma retomada mais rápida, mas acredito que a impaciência é mais com os contratempos e desmandos no próprio governo. Ninguém esperava que um governo com alguém tão experiente pudesse cometer tantos erros. Esperava-se uma mínima estabilidade para a economia responder e a confiança dos empresários voltar”, afirma Wagner Parente, diretor da consultoria política Barral M Jorge.

Se no curto prazo as coisas vão mal, o futuro não deve ser mais fácil.

Nesta sexta-feira, as delações da Odebrecht jogaram uma luz sobre os tucanos. A manchete do jornal Folha de S.Paulo revela que o nome mais forte do partido para 2018, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), recebeu 2 milhões de reais de caixa 2 nas campanhas de 2010 e 2014. Os repasses em dinheiro vivo, segundo depoimento dos executivos da Odebrecht em São Paulo, chegaram aos cofres tucanos em espécie e foram repassados ao empresário Adhemar Ribeiro, irmão da primeira-dama, Lu Alckmin, e pelo atual secretário de Planejamento do governo paulista, Marcos Monteiro, homem de confiança do governador.

Soma-se as denúncias contra Alckmin a informação de que a campanha de José Serra à presidência da República em 2010 também foi irrigada pela Odebrecht, com 23 milhões de reais não declarados. Em março, o mesmo aconteceu com o presidente do partido, Aécio Neves, que foi citado em delação do ex-senador Delcídio do Amaral. Pesam suspeitas de irregularidades em um esquema de propinas semelhantes ao arquitetado na Petrobras, mas em Furnas, uma empresa subsidiária da Eletrobras.

O mineiro também foi citado por Sergio Machado, que o acusa de ter recebido ao menos 1 milhão em recursos ilícitos para a campanha a deputado federal em 1998, e o ex-deputado federal Pedro Corrêa. “Se a gente tiver que cravar hoje, o Alckmin seria o candidato do PSDB. Mas, com o caminhar da Lava-Jato e da agenda de Temer, o primeiro semestre do ano que vem vai ser decisivo” afirma Sérgio Praça, cientista político e professor da FGV/CPDOC.

Nessa disputa velada por 2018, o PSDB ainda tem um dilema chamado Henrique Meirelles, o ministro da Fazenda. Se Meirelles recuperar a economia, aumentam as chances tucanas no próximo ciclo. Mas aumentam também as chances de o próprio Meirelles decidir sair candidato por seu partido, o PSD. “O Meirelles é conservador e é provável que candidatos desse tipo se deem bem nas urnas. Mas não sei se a popularidade dele vai aumentar tanto assim se a economia for bem”, diz Praça, da FGV.

Por via das dúvidas, nos bastidores, o PSDB tenta esvaziar o poder de Meirelles — a pressão foi tão forte nos últimos dias que Temer precisou afirmar que ele está firme no cargo. Em linguagem política, isso quer dizer que está balançando, e muito. Outra opção, sempre na mesa, é a volta de Fernando Henrique Cardoso — num mandato tampão até 2018, ou até mesmo na próxima campanha . Em novembro, artigo de Xico Graziano, ex-chefe de gabinete no governo FHC, fazia ecoar o grito de “Volta, FHC”. Toda vez que é sondado a respeito o ex–presidente, 85 anos, despista dizendo ser necessária a renovação do partido. Hoje, mais do que nada, os tucanos precisam é de um bom analista.

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