Pai da “pílula do câncer” defende liberação gratuita urgente

Nos últimos meses, o nome de Chierice repercutiu bem e mal na imprensa brasileira

São Paulo – Com quase meio século de trajetória profissional, o apogeu do professor aposentado Gilberto Chierice chegou com a transcendência de seu nome no auge de notícias divulgadas sobre a pílula que supostamente pode tratar o câncer, que gerou polêmica por não ter sido testada clinicamente.

Nos últimos meses, o nome de Chierice repercutiu bem e mal na imprensa brasileira. Ele foi chamado de charlatão por alguns oncologistas e pesquisadores, ao mesmo tempo que foi canonizado por pacientes de câncer que veem na pílula uma chance de sobrevida.

Em entrevista exclusiva à Agência Efe, Chierice revelou que não se importa com os “apelidos” e acredita na fosfoetanolamina como uma “solução” encontrada no corpo humano, além de ressaltar que “vai lutar por sua distribuição gratuita” nos postos do Sistema Único de Saúde, o SUS.

Aos 71 anos, Chierice carrega um currículo de mais de 400 trabalhos publicados e 80 orientações de pós-graduação, entre elas as pesquisas com a substância básica para a pílula chamada fosfoetanolamina.

A fosfoamina – como também é chamada – encontra-se na membrana plasmática celular e se penetrada no DNA do núcleo da célula cancerígena atinge um potencial de “impedir” o crescimento do tumor, pois funcionaria como uma barreira que protege o corpo contra a célula cancerígena.

Chierice começou a trabalhar com pesquisas sobre a substância com um objetivo diferente, que era descobrir uma fórmula para calcificação óssea, mas na bibliografia existente sobre a “fosfo”, ele percebeu que muitos a classificavam como molécula cancerígena, o que despertou a curiosidade do professor para investigá-la.

“A fosfoamina esta presente no organismo e é uma maneira dele se defender, ainda que muitos pesquisadores na década de 1930 tenham classificado como substância cancerígena e era totalmente ao contrário. A minha curiosidade de pesquisa me fez perceber que eu estava certo”, explicou o professor.

Como professor titular da USP desde 1976, o relacionamento de Chierice com a fosfoamina começou na década de 1980 nos laboratórios do Instituto de Química do campus de São Carlos e foi primeira descoberta foi perceber a forma de trabalhar com a substância para que ela pudesse ser testada em animais.

Essa maneira de lidar com a fosfo é o processo de sintetização, onde é possível neutralizar as moléculas “até deixá-la pura para poder produzir o pó que compõe a pílula azul e branca”, segundo Chierice.

“Eu desenvolvi um mecanismo de sintetização da fosfoamina há 17 anos; precisei estudar biologia molecular como um maluco para chegar no resultado e foi interessante, porque a gente percebeu que a ciência estava olhando o câncer com uma visão antípoda, já que descobri que a origem do câncer não é proteica, mas sim lipídica”, acrescentou à Efe.

O estudioso ressaltou que, do ponto de vista da biologia molecular, entender o câncer é pensá-lo como uma doença que ataca em células anaeróbicas, isto é, que não conseguem eliminar açúcar do organismo, e, nesse caso, qualquer tipo de câncer se desenvolve nesse tipo de ambiente celular.

“Com a fosfoamina, nós descobrimos um gatilho para que a célula cancerígena entre em apoptose, isto é, uma morte programada e, portanto, não se propague”, explicou.

Chierice conta que a pesquisa não teve nenhum custo para a USP durante os 25 anos, desde o início dos seus estudos até a parte prática desenvolvida no laboratório com uma equipe de técnicos e estudantes.

Ele garante, também, que nunca pediu dinheiro para fomento da pesquisa, e que doou todos os materiais para desenvolver a pílula, “até porque o processo é simples e barato”, o que fez alcançar, na epóca, uma produção diária de cerca de 300 cápsulas de fosfoetanolamina.

Para o pesquisador, naquele momento – meados da década de 1990 – ele tinha alcançado seu esplendor, porque teria encontrado uma solução contra o câncer. O segundo passo foi testar em células animais e verificar os resultados positivos da substância.

Atualmente, o custo estimado da pílula é de R$ 0,10, porque as substâncias químicas usadas são “muito baratas”, o que segundo Chierice facilita a continuidade da produção e a distribuição gratuita.

No entanto, testes clínicos não foram feitos e não é possível confirmar a ação da pílula contra o câncer, o que tem gerado discussões entre as instâncias governamentais, acadêmicas e médicas.

Para ser liberada no Brasil, a fosfoetanolamina sintética precisa passar por testes, que serão financiados nos próximos três anos pelo governo brasileiro através do Ministério de Ciência e Tecnologia, além de mil pacientes serem cobaias em São Paulo para ajudar acelerar os resultados.

Chierice é retórico em dizer que não concorda com os entraves para a liberação, porque segundo ele, durante a pesquisa de 25 anos cerca de 60 mil pessoas teriam usado a pílula e mostrado resultados positivos, chegando a ter relatos de cura da doença, inclusive de pacientes de hospitais de São Paulo.

O pesquisador reitera que possui documentos que comprovam os acordos feitos para o desenvolvimento da pesquisa com aprovação da USP, do Hospital de Jaú em um convênio que não foi para frente.

“Depois disso, o financiamento do uso da ‘fosfo’ em humanos declinou e eu continuei produzindo na USP e recebendo pedidos para entregar a pílula”, contou à Efe.

Com o anúncio do financiamento da pesquisa feito este mês pelo governo federal e estadual, Chierice espera que a substância seja liberada com rapidez.

“Defendo que seja liberada para que os pacientes tenham o direito de escolher que tratamento utilizar. E é preciso ser de graça, se não for, não é a verdadeira pílula contra o câncer”.

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