Para onde vai o PSDB?

Raphael Martins

“Longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas, nasce o novo partido”. Não poderia ser mais distante o lema de fundação da realidade atual do PSDB. Com os olhos no Palácio do Planalto, uma crise existencial atinge o partido em momento que deveria ser de união para disputar as eleições de 2018. Os tucanos saíram fortes do pleito em 2016, com 14% mais prefeituras e como expoente do antipetismo que tomou parte do mundo político. Seus líderes sabem que nunca estiveram tão perto do desejo de voltar à Presidência, mas agora padecem por não conseguir criar unidade para nada. Não se sabe quem pode ser um nome forte para representar o “45”, nem se saem ou se ficam no governo, marcado por acusações de corrupção no mínimo equivalentes ao antecessor que tanto criticaram. Um passo em falso pode botar tudo a perder — então, por que não dar passo nenhum?

Nesta terça-feira, mais um episódio desta cruzada pode tirar o partido da inércia. Será quando a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal decidirá se aceita o pedido de prisão de Aécio Neves (PSDB-MG) feito pela Procuradoria-Geral da República. O senador foi grampeado pedindo 2 milhões de reais a Joesley Batista. Pode ser o primeiro tucano engaiolado pela Operação Lava-Jato. O presidente da legenda está afastado de sua posição dentro do tucanato e do Senado Federal, justamente pela proximidade suspeita das tais “benesses oficiais”. Há, em virtude, um pedido de cassação do mandato em curso. Fora isso, o mineiro está presente em cinco inquéritos vindos da delação de executivos da Odebrecht e é acusado pelos irmãos Batista, do grupo J&F, de pedir 80 milhões de reais em propinas à empresa. A considerar que sua irmã, Andrea Neves, foi mantida na prisão pela Primeira Turma na esteira das acusações de Aécio, o prognóstico é ruim. O que pode lhe salvar é a complexidade do cargo. Um senador só pode ser preso em flagrante. O Supremo, portanto, teria que dar nova interpretação à lei ou considerar o afastamento de Aécio como justificativa suficiente. Polêmica à vista.

E há “fatos novos”. Nesta sexta-feira, a defesa de Frederico Pacheco, primo de Aécio que recebeu dinheiro vivo de executivos da J&F, depositou 1,5 milhão de reais que seria parte do valor de 2 milhões de reais destinados a Aécio. Segundo o portal Jota, Pacheco deve implicar o primo tucano no caso. Em meio aos escândalos, o candidato à Presidência da República em 2014 e um dos principais articuladores no Congresso desde quando o objetivo do PSDB era o impeachment de Dilma Rousseff (PT) foi motivo de decepção para seu eleitorado. Dado o poder de Aécio dentro do partido, a moral de cada passo deste caso respinga no partido.

Ainda aproveitando o lema, o partido mostrou nesta semana estar longe do “pulsar das ruas” ao dar as mãos com o PMDB. O governo de Michel Temer é aprovado por 5% dos brasileiros, mas é visto no Congresso como forte ponte para um início de recuperação econômica. As reformas viraram a razão de existência do PSDB, por meio de que se pretende sair da recessão e trazer investimentos. Inviabilizar o governo sem um nome com a mesma força no Parlamento, na visão do alto tucanato, significa jurar de morte as reformas e adiar essa agenda. Acontece que propostas reformistas em ano eleitoral são o terror da vida de qualquer político.

Na última segunda-feira, em reunião da Executiva Nacional, ficou decidido que o PSDB ficaria oficialmente na base aliada do presidente Michel Temer. Havia correntes mais afoitas que sugeriram apoio irrestrito às reformas sem uma relação de “dependência” com Temer. A maioria, porém, escolheu ficar no governo. Confundiram ainda mais o eleitor ao dizer que, definição à parte, uma saída não estava descartada no futuro. Deu-se a condição de “surgimento de fatos novos” para a permanência. Deram a impressão que não são suficientes os fatos já revelados, que tanto constrangem o governo Temer perante a opinião pública.

A decisão foi demais até para filiados ilustres, como o jurista Miguel Reale Jr., autor do pedido de impeachment de Dilma. “O PSDB pode até ganhar apoio na Comissão de Ética do Senado para salvar o mandato de Aécio Neves, mas perdeu seu discurso. (…) O partido caiu em uma vala comum com essa forma canhestra de ser”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo. Os líderes tucanos fazem sua parte em apagar o fogo, mas ainda batem cabeça. O próprio presidente emérito do partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, protagoniza um vaivém de opiniões. Foi a favor e contra eleições diretas. Pediu a renúncia e “oportunidade de reflexão” para quem está no governo. Justificou, em nota ao jornal O Globo, que assim como a conjuntura política, sua percepção vem sofrendo “fortes abalos”. O presidenciável e governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, havia despistado sobre sua opinião à respeito da saída do governo — “Quem disse que sou contra sair do governo?”, disse à imprensa dias antes da reunião — para depois defender a permanência com Temer. João Doria, uma liderança nova no partido, aponta que é “melhor o ruim do que o péssimo”. “Isso faz parte da agenda do partido e não podemos jogar o país em uma aventura. Enquanto gerar estabilidade, terá apoio do PSDB, mas se gerar instabilidade, estaremos em outro campo”, diz a EXAME Hoje o líder do partido na Câmara dos Deputados, Ricardo Tripoli (PSDB-SP). “Quando tudo acabar, os eleitores perceberão que tomamos a decisão correta”.

Para as alas mais rebeldes, a bandeira reformista por si só não é suficiente. Ainda que Alckmin tenha trabalhado para manter o PMDB por perto, a Executiva do estado de São Paulo foi uma das mais duras nas críticas. Em artigo no jornal Folha de S. Paulo, o deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa Cauê Macris defendeu abertamente a entrega de cargos no governo e apoio pontual às pautas de reforma. No Congresso, os “cabeças-pretas” (como ficou conhecida a ala jovem do partido) na Câmara dos Deputados e um punhado de Senadores concordam. “É evidente que o motivo é garantir uma aliança com o PMDB na eleição. Usamos da velha política de novo”, diz um parlamentar tucano a EXAME Hoje. “Tudo o que não precisávamos era repetir o que fez o PT, que não aproveitou o momento e elegeu uma presidente de legenda que diz que o partido não fez nada de errado”.

Para quem visa a eleição, o PMDB é um baita negócio. A capilaridade do partido é imensa. São 1.050 prefeituras, a maior bancada da Câmara, com 64 deputados federais, 22 senadores e sete governadores. Essa força se explica, primeiro, pela origem do partido, sucessor do MDB, que fazia oposição ao regime militar. Dali, saíram como dissonantes uma porção dos partidos que hoje compõem o Congresso. Segundo, por sua multiplicidade de caciques. Ao contrário do PT, centrado fortemente na figura de Luiz Inácio Lula da Silva, o PMDB tem grandes forças regionais, que articulam de forma intensa em pequenos núcleos, quase sempre ligado à tradição política das famílias. É o caso de Romero Jucá em Roraima, de Renan Calheiros em Alagoas, e José Sarney no Maranhão. Em circunstâncias como esta, quando um polo peemedebista perde força, os outros se mantêm estáveis. Um exemplo clássico do momento é o PMDB do Rio, que perdeu força nas eleições de 2016 e deixou a Prefeitura da capital, ou da família Sarney, que deixou o governo do estado. Nem por isso o partido está mais fraco. O PT, por outro lado, sofreu muito em todo o país, devido ao desgaste de Lula, sua figura central. Como lado negativo, por vezes a Executiva Nacional não consegue compor com força as decisões da legenda em âmbito nacional. Em 2014, para definir o apoio ou não à reeleição de Dilma Rousseff, cerca de 40% da unidade nacional votou pela quebra da aliança. Meses depois, a disputa do governo petista com Eduardo Cunha (PMDB-RJ) pela Presidência da Câmara ficou marcada na história como o primeiro passo para a queda da presidente.

O resultado desse poder amplo é que nenhum presidente da República governou sem o PMDB desde a redemocratização. Foi ao perder o apoio do partido que Dilma Rousseff acumulou desembarques de sua base aliada, culminando no impeachment. Por isso, o PSDB procura se afastar em “bons termos”. É uma eterna relação de custo alto e benefício incerto para o partido, mas, no limite, corre o risco de não passar para o segundo turno de 2018 se os partidos da base do governo não chegarem a um acordo, pois haveria alta fragmentação de votos entre os três grandes partidos: PT, PSDB e PMDB. “O PSDB está tão envolvido quanto o PMDB nos escândalos e deve ser cauteloso nas críticas que direciona ao presidente, pois não está em uma situação muito diferente e precisará do PMDB para manter a governabilidade”, diz Wagner Parente, diretor da consultoria política Barral M Jorge.

Líderes negam que esta seja a motivação. Em entrevista nesta sexta-feira ao jornal O Estado de S. Paulo, o governador Geraldo Alckmin disse que “para pensar em eleição, (…) a solução seria sair, porque a popularidade está muito ruim, mas [O PSDB] fez isso porque entendeu que, neste momento, sair do governo prejudicaria ainda mais o Brasil, que está começando a se recuperar”. A EXAME Hoje o líder do partido no Senado, Paulo Bauer (PSDB-SC), diz que o partido não faz “negócio”. “É uma ‘história’ que se criou. Não são os líderes, não são os governadores. Não tem nexo”. O senador calcula que 80% dos deputados e senadores refutam o apoio condicionado. “Se não estamos no governo, nem apoiando essas reformas, estaríamos na oposição com o PT”.

Há, portanto, duas certezas para eleitor do partido. A qualquer momento, tudo pode mudar e unir-se ao PT sob qualquer circunstância está fora de questão. Quanto ao resto, a estratégia é ignorar o antigo ditado e ver o que acontece — ao menos por enquanto.

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