Projeto identifica marcas da ditadura na periferia

O projeto pretende identificar como se dá a continuidade das políticas de violação dos direitos humanos nas periferias

São Paulo – A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, o grupo Margens Clínicas – que oferece atendimento psicológico a familiares e vítimas de violência policial – e o Instituto de Estudos da Religião lançaram na noite dessa terça-feira (5) o núcleo Clínica do Testemunho nas Margens, um projeto que pretende identificar e tratar as marcas psicológicas deixadas pela ditadura militar em regiões de periferia de municípios brasileiros.

Na capital paulista, o projeto vai trabalhar prioritariamente nos bairros de Perus, no noroeste, e Heliópolis, na zona sul, escolhidos por terem sido locais com histórico de resistência e luta social contra a ditadura.

Um grupo de psicólogos e agentes treinados vai ouvir as pessoas com danos psicológicos impostos pelo regime de exceção entre os anos de 1946 e 1988.

“O encontro da memória com o elemento democrático nos ajuda a reconstruir as tessituras esgarçadas, os projetos de vida que foram arrebentados, permitir que a voz faça com que as pessoas se recoloquem”, destacou o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão.

Lançado no Centro Educacional Unificado (Ceu), em Perus, o projeto pretende ainda identificar como se dá a continuidade das políticas de violação dos direitos humanos nas periferias.

“Esse projeto em Perus e Heliópolis é histórico porque vai acolher a narrativa desses tantos e tantos familiares, desses tantos afetados direta ou indiretamente pela violência do estado ditatorial. É um esforço de ‘desnormalizar’ a violência de Estado nas periferias”, disse Fábio Franco, da Coordenação Direito à Memória e Verdade, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos da prefeitura de São Paulo.

A Comissão de Anistia destaca que o relatório final da Comissão Nacional da Verdade atestou que a violência de Estado não cessou com o fim da ditadura.

Segundo a comissão, dados do Sistema de Informação de Mortalidade do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que esse tipo de violência é um problema de saúde pública, principalmente entre jovens de populações economicamente vulneráveis.

“A violência de Estado continua. A gente pensa que a ditadura acabou, ela acabou de uma forma, mas continua quando nós, principalmente nas periferias, ainda não conseguimos ter acesso a muitos dos direitos que pessoas que moram em bairros privilegiados já têm”, disse Jéssica Moreira, da Comunidade Cultural Quilombaque, e do Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus.

Segundo a Comissão de Anistia, este ano cinco núcleos de apoio psicológico serão instalados nas periferias de quatro capitais brasileiras.

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