Quanto vale Congonhas?

Michele Loureiro

Em reunião com ministros da área econômica, nesta terça-feira, o presidente interino Michel Temer deu um prazo de 15 dias para que eles encontrem oportunidades de privatizações, parcerias e concessões em suas pastas. O que falta são opções viáveis, e planos concretos. Segundo EXAME Hoje apurou, o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, é uma exceção.

Há pouco mais de uma semana, Temer falou que a privatização do aeroporto era uma possibilidade e seria analisada. Mas, em nota, o  Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil afirmou que o governo já está analisando a melhor forma de privatizar o aeroporto.

Inicialmente, a ideia do governo era vender quatros terminais neste ano – Fortaleza, Salvador, Porto Alegre e Florianópolis.  Agora, aparentemente, Congonhas também entrou na fila. O que estaria sendo definido é o molde do negócio. Duas possibilidades estão na lista: a venda do controle, mantendo a Infraero como sócia minoritária, ou uma gestão privada com controle acionário da estatal.

Congonhas é o segundo aeroporto mais movimentado do Brasil (atrás de Guarulhos) e um dos poucos que cresceu em 2015.  Além disso, recebe a rota aérea mais movimentada do mundo, a Ponte Aérea Rio-São Paulo. Mas sua privatização seria um bom negócio para o governo, os investidores e, principalmente, os passageiros?

Segundo um levantamento feito por analistas do setor aéreo a pedido de EXAME Hoje, o Aeroporto de Congonhas pode engordar menos o caixa do governo do que se poderia prever à primeira vista. Na conta de especialistas, renderia no mínimo 1,8 bilhão de reais. O aeroporto de Brasília, concedido em 2011 para a iniciativa privada, rendeu 4,5 bilhões. O problema, em Congonhas, é a falta de capacidade de expansão. Em Brasília, por exemplo, o consórcio Inframérica investiu 1,2 bilhão de reais para inaugurar dois píeres com 29 pontes de embarque – expandindo a capacidade de 16 milhões para 25 milhões de passageiros.

O negócio

Um raio-X de Congonhas mostra a grandeza do empreendimento: a cada dois minutos um avião pousa ou decola do local. Segundo dados da Infraero, diariamente são realizados 585 pousos e decolagens para 33 destinos diretos. Em 2015, 19,2 milhões de passageiros passaram pelo aeroporto, mais até do que a capacidade prevista de 17 milhões.

Neste ano, até o mês de maio, já foram 8 milhões de embarques e desembarques. Para dar conta do movimento, há 3.400 funcionários no aeroporto — entre empregados da Infraero, de outros órgãos públicos, terceirizados e colaboradores de empresas concessionárias que atuam no local. Além disso, o ele abriga 50 operações comerciais, como casa lotérica, Correios, lanchonetes, lojas de vestuário, drogaria e floricultura.

Na lista dos que enxergam com bons olhos a privatização de Congonhas, além do governo, está a Abear, associação que representa Gol, Tam, Azul e Avianca.  Em nota, a associação afirmou que “entende que a renovação e ampliação dos aeródromos públicos garante a qualidade da prestação dos serviços e o aumento da eficiência operacional”.

Ainda segundo a Abear, a “privatização seria uma forma de recuperar a defasagem dos investimentos em infraestrutura nos aeroportos, que foram muito menores do que a expansão do mercado consumidor na última década”. Segundo pesquisa do Ministério dos Transportes, Congonhas é apenas o 12o melhor aeroporto do Brasil, país conhecido por seus péssimos aeroportos.

As experiências verificadas em outras concessões são positivas, na avaliação do setor. Já foram concedidos à iniciativa privada seis aeroportos, responsáveis por 45% do fluxo de passageiros do país. Segundo as empresas que administram os aeroportos, o fluxo de passageiros nestes locais cresce em média o dobro da evolução registrada pelos terminais controlados pela estatal Infraero.

Crescer para onde?

Em Congonhas, as coisas são mais complicadas. A Agência Nacional de Aviação Civil já afirmou que não pretentede elevar o número de slots (horários para voos no local), que foi reduzido depois que o aeroporto foi cenário de dois acidentes trágicos envolvendo aviões da Tam, matando mais de 300 pessoas.

Para Felipe Queiroz, economista e analista independente do setor de aviação, não há muita margem de manobra para aumentar o número de voos, nem a estrutura física. “Congonhas não tem espaço físico para crescer, não há como se fazer um novo terminal, por exemplo”, diz.

Congonhas tem 1,6 milhão de metros quadrados fincados no bairro do Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo. Quando foi inaugurado, em 1936, a cidade tinha pouco mais de 1 milhão de habitantes, e a região não passava de uma vila, a Vila Congonhas. Hoje, o aeroportos está prensado entre grandes prédios residenciais e avenidas importantes, como a dos Bandeirantes, o que dificulta sua expansão física das áreas comuns do aeroporto e dos setores de carga.

Uma solução seria reaproveitar a estrutura existente, com novos quiosques e uma renegociação dos contratos de alugueis – em muitos aspectos um viajante costumas tem impressão que algumas áreas do aeroporto pararam nos anos 80. O aeroporto de Brasília tem 1,3 milhão de metros quadrados e área (menos que Congonhas) e 63 lojas (20% a mais).

Espaço para melhorias pontuais, portanto, não faltam. Os passageiros agradeceriam muito. A dúvida é se esse conjunto é suficiente para atrair investidores de peso. E para aliviar o caixa do governo.

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