Rosso, do PSD: a disputa pela Câmara mudou

Raphael Martins, de Brasília

Passadas as votações da PEC do teto de gastos públicos, o clima na Câmara dos Deputados arrefeceu. Sem dependência dos deputados para pautas prioritárias do Palácio do Planalto, intensificam-se as articulações para decidir quem vai ocupar o lugar do presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a partir de fevereiro.

Um dos favoritos para ocupar a cadeira mais importante da Mesa Diretora é o deputado federal Rogério Rosso (PSD-DF), ex-governador do Distrito Federal e segundo colocado na última eleição na Câmara. Antigo aliado do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Rosso é um nome forte do centrão, grupo de 200 parlamentares de partidos pequenos e médios que o presidente Michel Temer deve atenção para aprovar ajustes.

Rosso, em entrevista a EXAME Hoje na liderança do partido, em Brasília, não admite com todas as palavras a pretensão ao posto — a ordem geral para os deputados governistas é manter o debate na surdina para tentar concentrar a atenção da imprensa apenas no ajuste fiscal —, mas deixou claro que quer o cargo se essa for também a vontade da base aliada. “Nossa palavra de ordem é procurar o maior consenso possível em prol da governabilidade”, diz. Veja abaixo os principais trechos da conversa.

As eleições para presidente da Câmara estão chegando. Ficou com vontade de assumir a cadeira na última eleição?

Na ocasião, eu resisti [em concorrer] até o final. Mas priorizei a vontade dos colegas da Casa. Um mandato tampão é sempre mais difícil de trazer o parlamento consigo. Fui governador em mandato reduzido como esse. É bem difícil. Então, vontade… Sabe vontade zero?

E agora? É uma eleição para valer.

Agora é diferente. Vamos ver.

Qual a diferença das eleições passadas para as de agora?

A eleição passada foi uma eleição atípica, de período final. Essa é a versão cheia, com composição da Mesa Diretora, comissões e áreas da Casa. O governo agora conseguiu compor uma grande base que precisa estar unida neste momento de transição e ajuste. Tanto que o ideal era que tivéssemos um único deputado como candidato. Caso não seja possível, que tenhamos o menor número porque o que está em jogo é a governabilidade do país. A depender do seu perfil, [o presidente da Câmara] será o condutor das reformas ou indutor do caos.

O que já foi conversado sobre isso até o momento?

Realizei um almoço na minha casa, com vários líderes, um encontro grande. O que tenho defendido com os partidos do centro e com o PSDB é que este não é o momento de se pensar em eleição. Houve uma antecipação do assunto, o que é natural, mas não podemos ter nenhum movimento que atrapalhe a votação da PEC do teto de gastos e dos assuntos finais do ajuste no fim do ano. Então nossa palavra de ordem é procurar o maior consenso possível em prol da governabilidade.

O senhor sedia esse almoço como candidato?

Preciso manter a coerência e minha linha de pensamento. A ideia é tentar unir. Sempre fazemos encontros, mas dessa vez será não para lançar candidaturas e, sim, procurar um consenso. Com desprendimento.

Mas na época da cassação, o senhor era visto como aliado de Cunha. Pode-se dizer que sim?

É muito errado achar que um líder ou um partido tem que ser oponente ao presidente da Casa. Ele tinha uma liderança incontestável nos três primeiros trimestres de 2015, onde PSDB, PMDB, PRB, PR e, inclusive, partidos da situação prestigiavam a liderança de Eduardo Cunha. Não se trata de apoio à pessoa, mas ao presidente da Câmara dos Deputados.

Pergunto porque a atuação do PSD foi ambígua nos últimos dois anos. Como foi a lógica de atuação tanto na cassação como no impeachment de Dilma Rousseff, eventos que marcaram a agenda do Congresso no período?

O PSD não ficou com Eduardo Cunha na eleição da Mesa. Apoiamos Arlindo Chinaglia. Mas com o tempo adquirimos uma relação institucional com o presidente eleito. Relação política e importante no pleno desempenho das atividades da nossa bancada. No caso Cunha, todos os deputados do meu partido votaram pela cassação. Ou eu deixava de ser líder ou acompanhava meus companheiros. No caso do impeachment, meu perfil conciliatório me colocou como relator da comissão especial de impeachment. Todos os partidos votaram em mim para o posto. Procurei com humildade fazer esse papel com cautela constitucional e tomando decisões respaldadas pela Constituição, pela jurisprudência e pela legislação. São momentos distintos, mas que tentamos manter coerência técnica nas decisões.

O PSD e o senhor estiveram ao lado do governo Dilma em seu início. Hoje, o senhor se declara um fiel aliado de Michel Temer. Houve pulada de muro?

O presidente Temer é, acima de tudo, um parlamentar. Boa parte de sua vida pública foi no Legislativo, com três presidências da Casa. Ele tem como natural um estilo de diálogo. Dilma, não. Cada um tem seu estilo. No futebol, um é atacante; outro, defensor. Ela não tinha essa vocação de diálogo. Nem é obrigada a ter, mas essa conversa foi muito ausente. Temer está diariamente com vários parlamentares e lideranças políticas, de diferentes bancadas. Então, ele está muito próximo do que acontece aqui. Não estão contando as coisas para ele. Está interagindo diretamente. Segundo, sou aliado do presidente Temer porque o conheço há muitos anos. Fui governador de Brasília pelo PMDB. Sei de sua seriedade e competência. E sei exatamente o que ele pensa daqui para frente. Sei que não está pensando em reeleição. Sabe que o legado que pode deixar são as reformas e está focado nisso. Isso nos estimula demais a defender as propostas e a acreditar que o Brasil vai mudar.

Sobre a reforma política, vem chegando a PEC 36/2016, que termina com as coligações em eleições proporcionais e instaura uma cláusula de desempenho. Sendo de um partido médio que pode sair prejudicado, o que acha da proposta?

Acho difícil sair cláusula de desempenho [que limita a atuação de partidos que não tiverem mínimo de votos no Legislativo]. Haverá muita resistência dos pequenos e médios. Temos que enfrentar uma reforma política séria. Votamos o fim da reeleição para cargos no poder Executivo. Está no Senado, que não apreciou. Perdemos no plenário o fim do voto obrigatório. Vamos voltar com esse assunto para qualificar o parlamento? Financiamento de campanha. É financiamento público que a gente quer? Grana do meu e seu imposto? Acho que a porta está aberta para negociar diversas propostas, fatiando cada uma em uma discussão diferente. Menos a cláusula.

Se o senhor for presidente bloqueará a cláusula?

Muito pelo contrário, presidente é o condutor das reformas junto com o Parlamento. O que entra, tem que colocar no plenário.

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