SP tem alívio com fim da seca, mas riscos persistem

Região perdeu a chance de se preparar para futuras secas, deixando de conter o consumo e melhorando a eficiência do sistema

São Paulo – Os níveis de água do principal reservatório de São Paulo mais do que dobraram desde que o El Niño pôs fim a uma seca de dois anos, mas setores industriais e ativistas alertam que novos episódios de falta d’água podem ser só uma questão de tempo.

As chuvas em quantidade suficiente desde o final do ano passado eliminaram os temores de um racionamento iminente, mas empresas e ativistas dizem que a região mais populosa do Brasil perdeu uma oportunidade de blindar a população de futuras secas deixando de conter o consumo e melhorar a eficiência do sistema.

A seca épica causou pânico na maior cidade sul-americana. O impacto na produção das indústrias e fazendas ameaçou uma economia já fragilizada, e os moradores que estocaram água da chuva estimularam um surto de dengue e possivelmente de Zika, duas doenças transmitidas por mosquitos.

A Sabesp está extraindo água de outros reservatórios e mantendo a pressão das tubulações baixa de manhã, o que deixa alguns moradores com as torneiras secas. A estatal também cogita impostos mais altos para a indústria como forma de financiar investimentos em infraestrutura.

Mas o setor industrial, que consome 30 por cento da água de São Paulo, está recorrendo a poços particulares, reciclando água e capturando água da chuva para evitar depender da rede, de acordo com Anicia Pio, chefe do departamento ambiental da Fiesp.

“A indústria trabalha com o médio e o longo prazo… não acreditamos que as ações (da Sabesp) sejam suficientes para se obter a segurança hídrica”, disse. “Isso é cíclico. Aconteceu em 2004, aconteceu em 2014. Não temos uma bola de cristal para saber quando pode acontecer de novo”.

A companhia industrial química Rhodia, controlada pela belga Solvay, foi forçada a deter o trabalho em algumas fábricas em 2014 devido ao nível baixo dos rios. O racionamento no interior do Estado obrigou a JBS, maior processadora de carne bovina do mundo, a colocar 800 funcionários em licença.

As chuvas trouxeram alívio no final de 2015, e a água do sistema Cantareira, que é o maior reservatório de São Paulo e abastece quase 6 milhões de pessoas, ficou acima do nível de bombeamento pela primeira vez em um ano e meio. Assim, a Sabesp não precisa mais recorrer a volume morto para suprir o coração comercial da América do Sul.

As restrições à irrigação foram suspensas em novembro, e safras recordes de cana-de-açúcar e de café estão previstas para este ano.

Como choveu acima da média em janeiro, os níveis da Cantareira mais que duplicaram – de 20 por cento no dia 1o de dezembro passado para 48,6 por cento nesta quinta-feira.

SECAS MAIS PROVÁVEIS Mas o Estado que representa um terço da economia brasileira continua vulnerável a uma nova crise por causa de vários fatores. O racionamento de água ou de energia é visto como um risco de longo prazo em um país que depende sobretudo de hidrelétricas para a geração de energia.

São Paulo foi criticada por especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) por perder 31 por cento de sua água tratada devido a vazamentos e roubos.

A Sabesp afirmou que as 34 medidas que adotou durante a crise, da melhoria na capacidade de bombeamento à adição de novos rios para o suprimento, ajudaram São Paulo a escapar do racionamento.

Agora, especialistas do clima afirmam que secas e outros eventos climáticos extremos são mais prováveis por causa da mudança climática, da poluição e do desmatamento das florestas tropicais.

“Precisamos nos preparar para situações mais drásticas”, disse Samuel Barreto, gerente de estratégia de água do grupo The Nature Conservancy, em São Paulo. “Temos que aprender a usar a água de forma mais racional, inteligente.”

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