A crise e o seu bolso

Entenda de que maneira a crise política pode afetar os seus investimentos

Incerteza. Essa sem dúvida é a palavra do ano. Após a abertura, no Senado, do processo de impeachment contra a presidente afastada Dilma Rousseff no dia 12 de maio e a posse do presidente interino Michel Temer no dia 13, ainda aguardamos cenas dos próximos capítulos. Toda essa efervescência política, claro, se reflete na economia que vem derretendo nos últimos meses. O PIB brasileiro, por exemplo, recuou 3,8% em 2015 em relação ao ano anterior, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – o pior resultado desde a retração de 4,3% ocorrida em 1990. 

Tudo isso assusta e reacende um fantasma do passado: o confisco da poupança em 1990, justamente o ano em que houve a maior desaceleração do PIB. Mas os tempos são outros e os ventos, mais favoráveis. “Apesar de a crise política ter uma magnitude maior que nos anos 1990, neste momento o Brasil encontra-se numa condição econômica e institucional mais privilegiada do que antes”, afirma Mário Amigo, professor de finanças da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), de São Paulo. “Não dá para comparar as épocas, pois os anos 1990 foram de hiperinflação, com IPCA a mais de 1 000% ao ano, muito diferente da inflação atual”, diz Richard Rytenband, economista especialista em investimentos, de São Paulo (SP). 

O que não dá para negar é que a crise política traz instabilidade aos ativos financeiros. O resultado é uma maior volatilidade nas aplicações, principalmente entre os que possuem mais liquidez – ou seja, são facilmente negociados –, como dólar e ações de empresas na Bolsa. 

Diante do cenário, é preciso ter cautela. “As pessoas devem se preservar, em vez de buscar ganhar dinheiro”, diz Amerson Magalhães, sócio-diretor da Easynvest Título Corretora, de São Paulo. Mas garimpar oportunidades também deve fazer parte do radar do investidor. “O que você está plantando na crise?”, questiona Richard. A fase da colheita tende a ser mais farta para quem não se contaminar pelo pessimismo. VOCÊ S/A consultou um time de analistas, economistas e consultores em finanças pessoais para entender como todo esse cenário afeta suas economias.

Poupança

Queridinha dos brasileiros, a caderneta de poupança é uma das aplicações que mais têm sofrido com a deterioração da economia brasileira, que trouxe consigo, dentre outros fatores, a elevação na Selic, a taxa básica de juros – hoje em 14,25%. 

“A correção da poupança não acompanha o aumento da Selic e, com isso, perde em rentabilidade para investimentos que seguem a taxa básica, como fundos de renda fixa, CDBs e títulos do Tesouro Direto”, diz Erasmo Vieira, consultor financeiro da Planilhar, de Belo Horizonte. 

Na prática, ao optar por deixar suas economias na poupança, você perde poder aquisitivo, visto que a inflação oficial (IPCA) supera o rendimento da caderneta. “O retorno real (descontado a inflação) acaba sendo negativo”, diz Richard Rytenband. Mesmo as velhas vantagens como segurança, facilidade e isenção de Imposto de Renda não trazem de volta o brilho dessa aplicação tão popular.

Tesouro Direto

Unânimes entre consultores e economistas, os títulos públicos disponibilizados na plataforma do Tesouro Direto têm sido a aposta mais segura para o aplicador. Embora as taxas dos papéis flutuem diariamente ao sabor das oscilações de mercado, acompanhando a instabilidade política, ainda é possível encontrar um refúgio nos títulos da dívida pública, cujo risco do investimento é um dos menores dentre as principais aplicações financeiras. 

“É uma excelente opção, pois não acredito em calote do governo”, afirma Erasmo. Em época de nervosismo, a cautela tende a um ser antídoto valioso. A recomendação é incrementar a cesta de investimentos com papéis como o Tesouro Selic, atrelado à variação da taxa básica de juros. Para projetos de médio ou longo prazo, como compra de um imóvel ou reserva para aposentadoria, o Tesouro Direto também pode ser um bom ingrediente. 

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Bolsa e dólar

A turbulência política e econômica afeta diretamente a Bolsa. “O mercado de ações sofre e empresas que dependem do cenário nacional têm resultados mais fracos”, diz Roberto Indech, analista da Rico Corretora, de São Paulo. 

Para investir em ações ou em dólar, é preciso ter estômago para digerir a volatilidade, influenciada por novidades na cena política. “A aplicação nesses ativos pode resultar em ganhos extraordinários ou perdas catastróficas”, diz Mário. 

O momento é de cuidado e pouco recomendável para a pessoa que não tiver familiaridade com tais investimentos. Mas, embora as perspectivas não sejam positivas, dá para garimpar oportunidades. “Papéis de boas empresas estão com valores de mercado abaixo do que deveriam valer, por exemplo”, diz Richard. 

LCI e LCA

Nos últimos anos houve uma corrida para comprar as chamadas letras de crédito imobiliário (LCI) e do agronegócio (LCA). A crise só tornou esses papéis ainda mais saborosos para o investidor pessoa física, que conta com as vantagens da poupança (isenção de Imposto de Renda e cobertura do FGC) e, de quebra, abocanha rendimento maior que o da caderneta ou ainda superior ao retorno de alguns CDBs. 

Mesmo assim, há risco de crédito, ou seja, de a instituição que está remunerando o investimento não conseguir honrar com o compromisso. “Deve-se observar a saúde financeira do emissor”, diz Mário Amigo, da Fipecafi. Pesquise sobre a instituição e como o mercado enxerga o risco de crédito daquele emissor. “Não basta se guiar apenas pelo retorno”, diz Richard Rytenband. 

CDB e fundo de renda fixa

Com o retorno real negativo da poupança, fundos de renda fixa e CDB (Certificado de Depósito Bancário) tendem a ser melhores opções. No caso do CDB, cuja rentabilidade é atrelada ao CDI – taxa pela qual os bancos fazem empréstimos entre si – a aplicação oferece a mesma segurança que a poupança, pois conta com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) até o limite de 250 000 reais por instituição financeira. 

“É uma excelente opção para o dinheiro não ficar parado e ainda pode ser usado como reserva de emergência, no caso de CDBs com liquidez diária”, afirma Erasmo, consultor da Planilhar. 

Especialistas indicam procurar CDBs de bancos médios ou pequenos, cujo rendimento costuma ser maior do que os de grandes bancos. Dá para investir diretamente nessas instituições ou por meio de corretoras e distribuidoras, que oferecem o produto. 

Os fundos também são alternativas interessantes, desde que tenham competitividade em relação a outras aplicações de renda fixa. “Os investidores devem observar a taxa de administração, que, se for muito alta, pode prejudicar a rentabilidade”, diz Erasmo. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição 213 da revista Você S/A e pode conter informações desatualizadas

Você S/A | Edição 213 | Abril de 2016 

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