As aceleradoras de impacto social

Conheça os negócios que se dedicam a investir em empreendedores com alto potencial, mas invisíveis aos olhos do mercado convencional

Enxergar chances de crescimento onde os demais veem problemas é um comportamento padrão entre os empresários de sucesso. Alguns deles aplicam essa máxima para transformar desafios sociais brasileiros em negócios prósperos. “A pobreza não está relacionada somente à renda, mas também à falta de oportunidades”, afirma Priscila Martins, gerente de relações institucionais da Artemisia, organização sem fins lucrativos que apoia negócios voltados à população de baixa renda e que provoquem impacto socioambiental positivo. “Acreditamos que os negócios são um arranjo transformador para vencer a desigualdade no país.”

Segundo Priscila, nos últimos seis anos, a Artemisia já articulou investimentos de 90 milhões de reais, causando impacto na vida de 30 milhões de pessoas. “Ao dar chances a quem normalmente não recebe, aumentamos o poder de escolha de populações marginalizadas, que passam a solucionar seus desafios por meio do empreendedorismo.”

Acelerada pela Artemisia em 2007, a ANIP (Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia) é uma iniciativa da produtora cultural A Banca. “Procuramos parceiros para investir em empreendedores nascidos e criados na periferia e que normalmente não participam do ecossistema de desenvolvimento, mas que têm competência e criatividade para isso”, afirma Marcelo Rocha, o DJ Bola, presidente-fundador da A Banca e um dos idealizadores da ANIP.

Em maio de 2017, a ANIP realizou seu primeiro fórum para selecionar 51 negócios com potencial para crescer. Dessas iniciativas, cinco foram convidadas a integrar o programa de aceleração, que durou quatro meses. “Fizemos uma conexão estratégica entre empreendedores e mentores experientes”, afirma o idealizador. Ao final, os participantes receberam 20 mil reais de investimento para alavancar o negócio.

 

Mais diversidade

Em 2016, quando estava em busca de conhecimentos estratégicos para melhorar as vendas de seu e-commerce, Maitê Lourenço começou a participar de eventos de inovação e tecnologia e também percebeu que o ecossistema do desenvolvimento é excludente. “Eu era a única pessoa negra naqueles ambientes, frequentados majoritariamente por homens brancos”, diz ela. “Vi que a melhor oportunidade era permitir que outras pessoas também tivessem chances.” Maitê criou a Black Rocks, aceleradora voltada para empreendedores negros. “Embora 51% dos empreendedores brasileiros sejam negros, esse público é invisível para as aceleradoras convencionais e para os investidores”, afirma. “Mas temos no nosso DNA a experiência do empreendedorismo, porque faz parte da história da população negra superar a própria dor com criatividade. Não é exatamente assim que nascem as startups?”

Além de mapear empresas com base tecnológica que tenham potencial para crescer, a Black Rocks oferece mentorias com profissionais que são referência no mercado e faz a ponte com empresas que desejam investir nesses negócios. “Já apoiamos 13 startups, mas nosso maior desafio é convencer novos parceiros empresariais de que esses empreendedores já estão inseridos no ecossistema da inovação e que podem crescer muito se tiverem investimentos”, diz Maitê.

Jovens e mulheres negras estão entre as prioridades da aceleradora Vale do Dendê, criada em 2016 pelo publicitário Paulo Rogério Nunes, a relações públicas Ítala Herta, o jornalista Rosenildo Ferreira e o administrador de empresas Hélio Santos para apoiar empreendedores de Salvador. “Estamos em uma das capitais mais criativas do mundo, mas essa expertise não é enxergada nem valorizada pelo restante do país”, afirma Ítala, diretora de operações. “E a produção de tecnologia em Salvador é ampla.”

Além de funcionar como aceleradora, a Vale do Dendê também atua como escola de inovação e consultoria, auxiliando a implementar projetos que ampliam a diversidade, tanto no poder público, quanto na iniciativa privada. “Para nós, impacto social verdadeiro é aquele que vem da base para a base, que enxerga a margem como potência e as vulnerabilidades comuns como incentivo para a inovação”, diz Ítala.

Em 2017, a Vale do Dendê realizou seu primeiro programa de aceleração, que recebeu 107 inscritos e teve 30 participantes na pré-aceleração. Atualmente, 10 negócios estão em fase de consultoria, facilitação e mentoria. Além do contato com investidores, a aceleradora também oferece serviços de apoio aos empreendedores, como assessoria de imprensa gratuita.

 

Mãe também empreende

Outro público que tem o potencial ignorado pelo mercado é o de mães, constatou a empresária Dani Junco. Após a gravidez, em 2015, ela viu como era difícil conciliar a maternidade e o trabalho. “Quando meu filho nasceu, fiz uma postagem em uma rede social desabafando sobre minha dificuldade e a resposta foi surpreendente”, conta. “Vi que muitas mulheres enfrentavam o mesmo drama. Comecei a realizar encontros e debates e percebi que elas queriam empreender, mas não sabiam como. Percebi, então, uma oportunidade de negócio.”

Em 2016, ela e outras três sócias com experiência na área de marketing criaram a B2Mamy, aceleradora de startups com foco em mães empreendedoras. Desde então, já conectaram 2 mil mães e aceleraram 50 empresas, movimentando 800 mil reais em negócios. “Temos uma plataforma online que promove networking e oferece cursos e mentorias gratuitas”, diz. “Mas nossa consultoria é cobrada, embora nossos valores sejam mais em conta do que os oferecidas pelo mercado.”

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