Economia criativa é a chave para solucionar problemas complexos

O inglês John Newbigin, presidente da agência Creative England, fala sobre a importância do compartilhamento de conhecimento para aumentar a produtividade

Empresário cultural com experiência em cinema, televisão, mídia digital e artes, o inglês John Newbigin, presidente da agência Creative England, ajuda a desenvolver a economia criativa no Reino Unido. 

Em passagem pelo Brasil a convite do Knowledge Exchange Sessions (KES), plataforma de conteúdo de inovação baseada em criatividade, tecnologia e comportamento, ele conversou com VOCÊ S/A sobre os desafios dessa indústria nascente (e pulsante) no mundo e no Brasil e sobre a importância do compartilhamento de conhecimento para aumentar a produtividade e a eficiência das empresas e dos profissionais. 

Para ele, é crucial que as pessoas aprendam a dividir suas ideias, sem medo. Só assim encontrarão soluções inovadoras para problemas complexos.  Leia a entrevista a seguir.

O que é economia criativa?

O conceito está mudando. Começamos a abordar esse assunto há 15 anos identificando setores mais óbvios, como música, arquitetura e moda. Mas, desenvolvendo políticas nessas áreas, percebemos que não se pode defini-la facilmente. Há trabalhos na indústria criativa que não são criativos e trabalhos criativos no resto da economia. 

Por exemplo?

O varejo não costuma ser apontado como um setor de economia criativa, mas pode empregar designers e marqueteiros. O governo da Indonésia acredita que a gastronomia deveria ser incluída como parte da economia criativa. É óbvio que deveria, não? A definição está mudando e áreas que tradicionalmente chamamos de economia criativa agora começam a colonizar outros setores da economia. A arte e o videogame estão oferecendo soluções para as pessoas gerenciarem a saúde e a educação. 

De que maneira as áreas mais tradicionais podem se beneficiar da economia criativa? 

Uma grande lição da economia criativa é a generosidade e a humildade, pois a essência desse mercado é partilhar conhecimento e aprender com os outros. O ensinamento poderia ser: mantenha a mente aberta para encontrar, com a sua rede, uma maneira melhor de fazer o que você faz. 

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Um dos argumentos para as empresas e pessoas não colaborarem é a questão da propriedade intelectual. Como lidar com isso?

As pessoas pensam que propriedade intelectual é algo a que se agarra e não se compartilha jamais. Mas, quanto mais generoso você é para dividir o conhecimento, mais resultados você tem. Eu estive em um centro de pesquisa de alta tecnologia no norte da Inglaterra e encontrei grandes empresas de aviação como Boeing, Airbus e British Aerospace trabalhando juntas em projetos. 

Ainda são competidores fervorosos, mas ainda assim colaboram. Eles dizem que a tecnologia está tão sofisticada hoje em dia que precisam compartilhar a propriedade intelectual para conseguir alcançar respostas e soluções efetivas. Mesmo na engenharia tradicional, as pessoas já estão entendendo que, algumas vezes, a melhor política em relação à propriedade intelectual é ser generoso. 

Quais são as suas percepções em relação à economia criativa em desenvolvimento no Brasil?

As boas soluções precisam nascer na cultura e no local em que os problemas estão inseridos. Não dá para apenas importar respostas. Uma vantagem do Brasil é a diversidade, poucas populações são assim. Outro ponto importante é saber que os maiores problemas costumam produzir as melhores soluções. Por isso, muita gente nos Estados Unidos e na Europa olha com muito interesse para São Paulo e Rio de Janeiro para ver o que vocês estão fazendo para resolver questões complexas de cidades grandes. Sem dinheiro é preciso ter muita criatividade.

 

Como será o futuro desse setor?

Uma das grandes mudanças no mercado de trabalho será a substituição de pessoas por robôs. Em alguns lugares, já vemos caixas de banco e de mercados substituídas por máquinas. O Google já tem carros sem motorista. Um estudo americano diz que, nos próximos 20 anos, 47% dos profissionais poderão ser substituídos por robôs – que são muito mais baratos, trabalham noite e dia, não fazem greve, não pedem aumento, não cometem muitos erros.

Mas isso é bom ou ruim para a economia criativa? 

As únicas áreas em que não é possível substituir humanos por robôs são as que exigem criatividade e inteligência social. Há muitas mudanças radicais por vir, tão grandes quanto as que surgiram no fim do século 19, com a construção de ferrovias e a invenção de automóveis. Isso vai atingir nossa sociedade como um todo – e grandes novos problemas precisarão ser resolvidos. 

As soluções apenas aparecerão por meio do pensamento criativo. Mas a indústria criativa não é a resposta para tudo, é apenas parte da resposta. O principal ponto é que quanto mais usamos a nossa criatividade, mais criativos ficamos. Não é como o petróleo, que quanto mais você usa, menos tem. Toda a espécie humana precisa pensar nisso e aceitar o fracasso como uma forma de aprendizado, e não como um desastre. Esse é um dos aspectos fundamentais da economia criativa. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição 217 da revista Você S/A com o título “Criar e resolver”

Você S/A | Edição 217 | Agosto de 2016 

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