Johnson, da AAPOR: Por que as pesquisas erram

Raphael Martins

Se o resultado das eleições americanas foi tão surpreendente, existe culpado: os institutos de pesquisa. Algumas projeções chegaram a apontar 90% de chance de vitória para a democrata Hillary Clinton, quando, ao final da apuração, Trump superou com folga os 270 votos dos colegiados para se tornar presidente. O fracasso dos estatísticos tem feito especialistas do mundo inteiro se questionarem sobre o que pode ter dado tão errado nas projeções. Para o sociólogo Timothy Johnson, professor de Administração Pública da Universidade de Illinois e presidente da Associação Americana de Pesquisa de Opinião Pública (AAPOR), a teoria mais provável é a de que eleitores de Trump negam tanto o sistema que podem ter se recusado a participar das medições, tornando-se invisíveis. Em entrevista a EXAME Hoje, Johnson explicitou as principais brechas para falhas nas pesquisas eleitorais.

O resultado pegou os pesquisadores de surpresa tanto quanto os eleitores e espectadores do mundo inteiro?

Sim, sem dúvida. Minha expectativa era de que Hillary fosse ganhar com tranquilidade. Até as 21 horas de terça. Percebi que ela começou a ter dificuldade em vários dos estados onde esperávamos uma vitória fácil, especialmente na Virgínia. Quando notei que era quase impossível que ela se recuperasse e ganhasse nesses estados, caiu a ficha de que o resultado seria favorável a Donald Trump. De fato, muito surpreendente.

Algumas projeções, como a do jornal The New York Times, mostravam uma chance de vitória para Hillary de até 90%. Foram erros ou houve uma virada de última hora?

Essas projeções tiveram base em pesquisas que não mapearam bem o cenário. Por enquanto, só temos teorias do que pode ter acontecido. A AAPOR designou uma força-tarefa que está focada em entender esse fenômeno. É um trabalho de pesquisa que vai se estender até o começo do ano que vem, até que tenhamos um diagnóstico completo da situação e suas razões. Cada pesquisa usa diferentes metodologias e avalia diferentes parcelas da população com diferentes abordagens e tipos de entrevista — algumas são por telefone, outras são questionários de internet, etc. Até mesmo a ordem de perguntas podem influenciar o resultado. Todos os métodos usados apontavam uma vitória de Hillary — e isso deixou todos confiantes da correção das pesquisas. Por enquanto, entendemos que houve um viés sistemático em todas elas que permitiu que deixassem escapar a vitória de Trump.

Que tipo de erros podem ter acontecido?

A amostra de entrevistados em relação ao número de eleitores é pequena. Em todos os institutos, há uma preocupação de conseguir refletir nas pesquisas o perfil de quem sai de casa para votar. Se o grupo escolhido remonta bem o perfil do eleitor, a preocupação diminui. Mas ficou claro que houve grande diferença. Com minha experiência de 30 anos na área de pesquisa, minha hipótese para explicar esse descompasso é de que a parcela do eleitorado que tem um sentimento antigovernista muito forte é menos propensas a participar das pesquisas, porque desconfiam da credibilidade e acreditam em uma associação delas com as instituições. E, nessa eleição, essa parcela da população americana está muito mais ligada às ideias de Donald Trump. Assim, as pesquisas não conseguiram acessar uma grande quantidade de eleitores que o republicano tinha. Eles não colaboraram da mesma forma que os eleitores de Hillary e, assim, passaram despercebidos em todos os métodos de pesquisa.

Que outras teorias são aceitáveis?

A verdade é que é uma conjunção de fatores, mas há outra teoria mais intangível que venho cogitando: as pesquisas também precisam contabilizar a intenção de votar, já que não há obrigatoriedade de participar da eleição. São feitas perguntas para saber a probabilidade de a pessoa realmente ir votar. Algumas são mais simples, outras remontam até o histórico de votação, questionam se o eleitor participou de primárias, etc. Todas também falharam. E os republicanos estavam muito mais animados com seu candidato, enquanto os democratas mostraram desânimo com Hillary. Analisando o perfil do eleitor, é perceptível que essa variável foi deixada de lado. O homem branco sem ensino superior é alguém que geralmente não vota e, por isso, pode ter sido desconsiderado – quando era um claro simpatizante de Trump. Ainda é difícil saber, mas é um assunto que certamente será estudado a fundo, pois é o primeiro erro em tais proporções desde a eleição de 1948, quando Harry Truman venceu por 114 votos no colégio eleitoral contra Thomas Dewey, após o jornal Chicago Tribune noticiar que ele perderia, com base em pesquisas. São várias hipóteses que tentaremos provar. Até acusação de invasão de hackers russos ao sistema de contagem de votos foi levantada por aqui, mas aí já é absurdo.

Há alguma estratégia eleitoral que pode ter de fato influenciado nos resultados de última hora, que não seriam percebidos pelas pesquisas?

O Wall Street Journal publicou um artigo em outubro que falava dessas possibilidades, citando que a campanha de Trump tinha uma equipe de persuasão especializada em detectar eleitores desanimados com Hillary e em abastecê-los com informações que pudessem dissuadi-lo de votar. Há também notícias de que, na extrema direita, grupos se organizaram para mentir para os pesquisadores. Alguns jornais reportam que Trump conquistou mais “swing voters” [eleitores sem preferência por partido] do que Hillary. Isso pode ter tido algum efeito, mas não acredito que de tamanho tão expressivo. Um ponto mais provável é o conceito do “eleitor envergonhado, que simplesmente não declarou para ninguém que tinha a intenção de votar em Trump, por conta das propostas e falas misóginas ou racistas.

A indústria de pesquisa morreu? Há como consertá-la?

Não. Em 1948, uma discussão existencial também tomou conta da indústria. Mas aquilo levou a uma revisão dos métodos mais básicos, trazendo formas mais eficazes de perseguir a precisão. Esses métodos nos serviram muito bem por décadas em diante. Agora, as mudanças na forma como as pessoas se comunicam trazem à tona a necessidade de reexaminar os métodos de fazer pesquisa, em especial entendendo como as pessoas usam a tecnologia para formar seu pensamento político. Há muito mais barreiras para conseguir informações objetivas. Não é um momento de morte, mas de excitação com o teste de novos métodos. Há espaço e necessidade de inovação. Se a pergunta fosse se os antigos métodos estão morrendo, diria que sim. Pesquisas por telefone, por exemplo, que muitos não têm mais em casa, será colocada de lado em prol de formas mais adequadas para os dias de hoje. O que mais me preocupa é o ceticismo da população em nos responder, que é um problema sem solução. Além da política, há uma negação da mídia. A erosão da participação cívica do americano é uma ameaça à democracia e à pesquisa.

Vivemos um momento de abundância de dados abertos. Não deveria ser mais fácil rastrear a opinião pública?

De fato, estamos nadando em dados. O que faz esse momento tão histórico é notar o quão errados estivemos nas pesquisas mesmo assim. Há uma infinidade muito maior de dados disponíveis em comparação a 1948, e erramos terrivelmente da mesma forma. Mas ficou claro que foi um erro de critério tão institucionalizado que todos foram pelo mesmo caminho. Se você não fizer as perguntas certas, não vai encontrar a resposta, por mais evidente que esteja. Isso vai nos forçar a estar sempre repensando se estamos fazendo certo. Estou esperançoso de que a quantidade de dados disponíveis permita criar um método matador para sanar os erros. E as teorias que indiquei são o caminho para chegar lá.

O que explica o fato de historiadores como Allan Lichtman acertarem o presidente a ser eleito há décadas, inclusive nestas eleições, e as pesquisas errarem tanto? 

(Risos) Então, não sei. Precisamos analisar a metodologia deles, que obviamente vem dando certo. Antes da eleição, ele manteve a opinião e foi amplamente criticado. Eu não estudei essa metodologia, mas prometo olhar com cuidado porque ele tem um enorme histórico de acertos, mesmo quando muitos erraram. Queria ter essa resposta, mas não tenho.

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