As origens econômicas do olho gordo

Brasil favorece lado destrutivo da inveja, diz autor americano; para ele, acreditar em olho gordo pode ser uma resposta racional em sociedades desiguais

São Paulo – Você sabia que não é só o brasileiro que acredita em olho gordo?

Os espanhóis chamam de mal de ojo, os italianos de il malocchio, os romenos de deochi e os húngaros de togonosz szem.

Na Tunísia, 90% da população crê que a inveja alheia pode afetar o invejado com apenas um olhar. 42% da população na África subsaariana também compartilha da ideia.

Dos Estados Unidos, onde apenas 16% acreditam no “evil eye” (“olho do mal”), vem um estudo publicado no Journal of Economic Behavior & Organization e que tenta explicar as raízes econômicas desta superstição.

Boris Gershman, da American University em Washington DC, pegou dados sobre a superstição em 186 sociedades pré-industriais ao redor do mundo e encontrou alguns padrões.

Ele mostra que a crença no olho gordo é mais comum em sociedades desiguais e onde as manifestações de riqueza são mais visíveis e materiais.

A superstição seria um mecanismo de defesa cultural que leva as pessoas a esconderem sua riqueza do olhar dos outros quando eles representam efetivamente uma ameaça.

A inveja está presente em todas as sociedades: é que dependendo das condições, ela pode levar para manifestações econômicas positivas (trabalhar mais para alcançar o nível do seu vizinho) ou destrutivas (ataque e roubo a propriedade).

 Veja a entrevista concedida por Gershman para EXAME.com:

EXAME.com – O que favorece a crença no “olho gordo”?

Boris Gershman – Minha hipótese é que a crença no olho gordo emerge quando a inveja destrutiva representa uma ameaça. Neste ambiente, se proteger dessa ameaça – como sugere o olho gordo – se aproxima do que seria um comportamento racional e cuidadoso.

Desigualdade alta, direitos fracos de propriedade e contar com uma riqueza ao mesmo tempo visível e vulnerável: tudo isso dispara manifestações da inveja destrutiva e não construtiva.

A crença no “olho gordo” ajuda a evitar agressões e a manter os ativos seguros, já que motiva as pessoas a fugirem da inveja usando estratégias como subinvestimento e dissimulação de ativos.

EXAME.com – Mas afinal, é uma superstição útil ou destrutiva?

Gershman – É uma pergunta complicada: é os dois. O lado bom é que ajuda as pessoas a evitar a agressão dos outros motivada por inveja. Mas ele também desencoraja comportamentos produtivos como investir em novas técnicas agrícolas, promover projetos lucrativos e acumular riqueza. Estes são os custos sociais da superstição.

EXAME.com – O que te levou a estudar isso?

Gershman – Do lado pessoal, crescer na Rússia dos anos 90 me deixou bem familiar com a ideia de inveja destrutiva. Então fiquei surpreso ao descobrir que na economia tradicional, toda a literatura era sobre o lado de competição saudável com o vizinho. Foi uma motivação extra para pensar nos dois lados da inveja.

EXAME.com – O que dá pra dizer sobre as diferenças entre Rússia, Brasil e os Estados Unidos nessa questão?

Gershman – Nos EUA, uma minoria pequena acredita nisso, consistente com a ideia do país como “terra de oportunidades” com fortes direitos de propriedade e estado de direito.

Por outro lado, a combinação de fatores no Brasil e na Rússia favorece o lado destrutivo da inveja. Há instituições fracas de direito de propriedade, criminalidade alta e desigualdade de renda substancial. Isso faz com que o olho gordo tenha o papel nestas sociedades de guiar as pessoas a tomarem cuidado para não provocar a inveja dos outros.

Outro ponto importante sobre o Brasil é que muito provavelmente esta crença foi importada pelos europeus, apesar de ser possível que as comunidades locais tivessem crenças similares ainda antes. Mas de acordo com a minha tese, o olho gordo se espalhou e persistiu porque era de alguma forma útil no ambiente local. 

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