Balança comercial: recorde para se celebrar?

Thais Folego

A balança comercial teve o maior superávit de sua história em 2016 ao atingir 47,7 bilhões de dólares, resultado de 185,2 bilhões de dólares de exportações e 137,5 bilhões de dólares de importações. À primeira vista os resultados parecem bons, mas não são. Isso porque ela vem apresentando superávit (uma boa notícia) por razões ruins: as importações despencaram. É como uma pessoa doente que perde peso devido à enfermidade: emagrecer é bom, mas não por este motivo.

“As nossas exportações vem perdendo força desde 2011, por conta da forte queda dos preços de exportação. As importações, por sua vez, mostraram quedas expressivas em resposta ao recrudescimento da recessão econômica nos últimos dois anos”, afirma a economista do Bradesco, Andréa Bastos Damico, em relatório recente.

Em 2017, o saldo positivo das exportações e importações do país deve ser novamente polpudo, mas, desta vez, por razões mais animadoras. Para este ano, a expectativa de economistas é que a balança comercial apresente um superávit parecido ou ainda maior que o do ano passado, mas com um aumento tanto das compras como das vendas para o exterior.

A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) projeta para 2017 exportações de 197,4 bilhões de dólares, um aumento de 6,5% em relação a 2016, e importações de 145,7 bilhões de dólares, aumento de 5,9%, resultando em um superávit de 51,6 bilhões de dólares – que, se confirmado, será um novo recorde histórico. “Contar com saldos comerciais tão robustos tem suas vantagens, principalmente no que diz respeito ao fluxo cambial, pois, de forma direta, acaba gerando mais divisas para o país”, diz Damico, do Bradesco. O departamento de pesquisas econômicas do banco estima um superávit comercial de 50 bilhões de dólares em 2017.

Mais importante do que o superávit, como 2017 pode deixar claro, é aumentar a corrente de comércio, como os economistas chamam a soma das exportações com as importações. “O que gera atividade econômica é a corrente de comércio, e não o superávit comercial”, destaca a AEB. Após cinco anos em queda, a corrente de comércio projetada pela associação é de 343 bilhões de dólares em 2017, equivalente a um aumento de 6,3% sobre 2016. Bruno Lavieri, economista da 4E Consultoria, avalia que em termos absolutos a corrente de comércio vai voltar a crescer nos próximos anos, mas em ritmo bastante lento.

Os fatores que afetam a corrente

O Bradesco observa que, no ano passado, a queda de importações foi generalizada em todas as categorias: em bens intermediários, acompanhando a retração da indústria; em bens de capital, reagindo à queda do investimento; e em bens de consumo, em resposta à retração do consumo das famílias. O mercado estima que a economia tenha recuado 3,49% em 2016. Para este ano, os economistas projetam um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,5%, segundo o Boletim Focus do Banco Central.

A demanda interna deve continuar fraca, devido à continuidade da queda do consumo das famílias e do aumento do desemprego. Dessa forma, a lenta recuperação deve vir do estímulo ao investimento. E o ciclo de queda da taxa básica de juros pode ajudar nessa seara. O mercado espera que a Selic caia dos atuais 13% para algo próximo de 10%. Lavieri, da consultoria 4E, estima que o crescimento das importações será impulsionado pelo aumento de preços, após dois anos de forte queda, com pequeno crescimento do volume importado.

O desempenho da economia mundial também será decisivo. Enquanto os Estados Unidos mostram sinais mais fortes de recuperação, a Europa ainda anda a passos lentos e a China deve manter o padrão de desaceleração de seu crescimento. “O cenário externo político é conturbado e o crescimento econômico ainda heterogênio”, diz Flavio Serrano, economista-sênior do banco de investimentos Haitong. Como nas importações, o efeito da alta dos preços deve ser maior do que o do aumento do volume para o resultado das exportações.

Após já ser destaque positivo nas exportações do ano passado, a Argentina pode se destacar novamente neste ano. “O crescimento previsto de 3,5% no PIB da Argentina, caso confirmado, vai aumentar as exportações brasileiras para aquele mercado”, afirma a AEB. Já exportar manufaturados para a União Europeia poderá ficar mais difícil após a desvalorização de cerca de 20% do euro frente ao dólar, o que torna nossas exportações ainda mais caras.

Um desafio evidente é o aumento do discurso protecionista mundo afora. Nos Estados Unidos, Donald Trump ganhou as eleições com uma agenda bastante nacionalista. Na Europa, Alemanha, França, Holanda e Itália realizam eleições este ano com candidatos com pautas semelhantes. Soma-se a isso, os impactos econômicos e comerciais ainda desconhecidos da saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, e o exemplo para outros países e blocos.

O presidente eleito dos EUA ameaçou recentemente companhias automotivas com a cobrança de tarifas de importação se abrirem novas fábricas no México para exportar veículos para os EUA. A automotiva Ford já anunciou o cancelamento dos planos de construir mais uma fábrica no México após ameaças de Trump. Para o Brasil, a AEB destaca que a aproximação entre Trump e Vladimir Putin, presidente da Rússia, vai afetar as exportações brasileiras compostas por itens idênticos aos produzidos pelos EUA.

O peso das commodities

Respondendo por 60% das exportações brasileiras, as commodities vão ser ainda mais importantes para a balança comercial do país. A equipe do Bradesco avalia que a melhora da economia mundial sustentará preços mais elevados das commodities, especialmente metálicas e petróleo. A AEB projeta um aumento de 32% na cotação do minério de ferro em 2017, 34% do petróleo e de 1,6% da soja em grão. A associação projeta que a soja em grão seja, pelo terceiro ano consecutivo, o produto líder de exportação brasileiro, com 21,7 bilhões de dólares, decorrente da pequena elevação da cotação e médio aumento da quantidade exportada.

O câmbio apresentou uma mudança de patamar significativa nos últimos dois anos, saindo do patamar de 2,30 reais, em 2014, para 3,50 reais por dólar, em 2016. Como o ciclo de comércio exterior é longo (as operações são contratadas meses antes de serem efetivadas), o efeito positivo da desvalorização do real nas exportações foi bastante forte no começo do ano passado.

A AEB estima que o câmbio oscile entre 3,20 reais e 3,50 reais neste ano, influenciado pela elevação dos juros nos Estados Unidos e pelo quadro político e econômico brasileiro. “Com este nível de taxa cambial, seu impacto sobre a competitividade das exportações de manufaturados em geral será limitado e/ou inexistente, com a América do Sul devendo continuar a ser o principal mercado para produtos manufaturados brasileiros”, diz a associação.

As previsões estão no ar. Falta, claro, o ano ajudar.

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