Baunilha caríssima causa problemas para Madagascar

O preço do grão utilizado para dar sabor a todo tipo de produtos mais do que triplicou nos últimos doze meses

O mercado da baunilha está caro.

O preço do grão utilizado para dar sabor a todo tipo de produtos, de sorvetes e chocolates até refrigerantes e doces, mais do que triplicou nos últimos doze meses porque a produção recuou e a qualidade foi afetada.

Isso deveria ter sido uma bênção para o maior produtor mundial, Madagascar, país no litoral sudeste da África. Em vez disso, o governo está impondo medidas para melhorar a oferta e a qualidade no intuito de proteger a participação no mercado.

Em uma época em que a Nestlé e a Whole Foods Market estão empregando mais sabores naturais nos alimentos, a demanda por baunilha está crescendo, particularmente nos países em desenvolvimento.

Porém uma depressão prolongada dos preços provocou uma diminuição das safras globais. E em Madagascar, fornecedor de metade dos grãos do mundo, os agricultores tomaram atalhos para acelerar o processo utilizado para criar as qualidades aromáticas apreciadas pelos consumidores.

“A marca da baunilha de Madagascar no mercado internacional está ameaçada”, disse o ministro do Comércio, Henri Rabesahala, em entrevista por telefone.

Declínio

Em anos recentes, após uma década de preços baixos da baunilha, a produção caiu em lugares como a China, a Indonésia e Uganda, porque os agricultores passaram para outras safras e os estoques diminuíram, mostram dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

Madagascar continuou sendo um produtor de baixo custo porque a colheita e a conservação da baunilha, duas atividades com uso intensivo de mão de obra, continuaram sendo em grande parte rentáveis já que os trabalhadores recebem US$1,50 por dia, em comparação com US$10 em outros países, segundo a Cook Flavoring, uma processadora americana que compra de vários países.

Quando os preços melhoraram, os agricultores em Madagascar começaram a colher mais vagens antes do normal e a empacotá-las em contêineres selados a vácuo em vez de tratá-las e secá-las.

Em parte foi para evitar furtos, mas também para aproveitar o rali. A embalagem deu flexibilidade aos atacadistas para esperar que os preços aumentassem à medida que a oferta global diminuía. Mas como os grãos estavam muito verdes, não tinham desenvolvido completamente o composto – a vanilina – responsável por todo o sabor e o aroma. Era quase como colher prematuramente uvas para vinho.

Com uma menor colheita de Madagascar no ano passado e menos grãos de boa qualidade, os preços dispararam nos EUA, o maior comprador do mundo, onde o sorvete de baunilha continua sendo o sabor mais popular.

A baunilha mais exclusiva é vendida a US$ 250 por quilo – se você conseguir achá-la – em comparação com US$ 80 um ano antes e US$ 20 em 2012, segundo a Cook Flavoring, que obtém 80 por cento de seus suprimentos de Madagascar. Até mesmo os grãos de menor qualidade são vendidos a US$ 210, em comparação com US$ 60 um ano atrás.

Protestos

Empresas de laticínio e padarias estão reclamando contra os aumentos e algumas estão trocando os extratos e pós de baunilha pura por alternativas mais baratas, como sintéticos, e produtos misturados com grãos de menor qualidade ou feitos com ingredientes naturais que imitam o sabor da baunilha, disse Josephine Lochhead, presidente da Cook Flavoring, fundada pelo avô dela em 1918.

É possível que os preços não se mantenham altos. Como o rali está no quarto ano consecutivo, mais produção está chegando e Madagascar colherá neste ano uma safra maior que a do ano anterior, em conformidade com o ciclo bienal da planta, disse Lochhead. Em 2002, os preços caíram de mais de US$ 500 para US$ 15 em uns poucos meses, quando ficou claro que a oferta estava aumentando, disse ela.

A Plataforma Nacional de Baunilha, órgão do governo e da indústria criado em dezembro, está preparando um lista de cerca de 100.000 produtores, coletores e exportadores, e se prepara para assegurar a qualidade da safra quando atingir o mercado mundial no final deste ano.

“Levamos isto muito a sério”, disse Rabesahala. “Não estamos brincando. Não queremos pôr em perigo a próxima campanha”.

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