Índia está faminta por carvão — custe o que custar

Queima de combustível fóssil para geração de energia sai caro para a saúde das pessoas e do clima, mas país está insaciável e busca autossuficiência

São Paulo – Mesmo diante de pressões ambientais crescentes, a Índia não dá sinais de que seu apetite por energia “suja” esteja mudando. Pelo contrário. Em 2015, quando a demanda global por carvão sofria uma retração recorde, o consumo na Índia crescia e, segundo a Associação Mundial de Carvão (WCA), o país deve tornar-se o maior propulsor dessa fonte nos próximos 25 anos, com um crescimento esperado de 4% ao ano.

Atualmente, a Índia é o segundo país mais dependente de carvão no mundo, atrás apenas da China. Assim como ocorreu no vizinho, a expansão desse combustível na Índia está atrelada ao desenvolvimento urbano, à necessidade de universalizar o acesso à energia elétrica e, também, ao crescimento do parque industrial. Mas nada disso sai de graça.

As emissões indianas de gases de efeito estufa — vilões do aquecimento global — aumentaram 29% entre 2007 e 2012. O dado é de um novo relatório da GHG Platform India, a primeira estimativa independente de emissões feita para o país asiático, lançada na última sexta-feira (15) por uma coalizão de seis organizações da sociedade civil daquele país.

A plataforma é baseada no SEEG, o Sistema de Estimativa de Emissões de GEE criado pelo Observatório do Clima, rede brasileira de organizações não governamentais, que produz estimativas anuais das emissões brasileiras desde 2013. 

De acordo com o estudo, as emissões na Índia aumentaram de 1,93 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2007 para 2,49 bilhões de toneladas em 2012. Os últimos dados oficiais, submetidos às Nações Unidas no Relatório de Atualização Bienal da Índia (BUR), referem-se a 2010. A diferença entre os dados da plataforma da sociedade civil e os do BUR para esse ano é de 2%.

Não é de espantar que o maior crescimento (33,8%) foi observado no setor de energia, principalmente devido à queima de carvão para geração de eletricidade. Neste setor, as emissões dos transportes cresceram 40%, para 230 milhões de toneladas, mas estes valores são pequenos frente à geração pública de energia elétrica (916,3 milhões de toneladas, um crescimento de 36%).

Além de contribuir para o aquecimento global, as emissões de partículas finas de poluição geradas pelas usinas a carvão custam caro para a saúde das pessoas, para os cofres públicos e a diginidade humana (é notória a exploração de mão de obra infantil nas minas).  

Um estudo de 2013 associou a dependência do carvão na Índia a 20 milhões de novos casos de asma e problemas cardíacos por ano, além de mais de 100 mil mortes prematuras (10 mil só de crianças com menos de 5 anos de idade), gerando uma crise socioambiental que custa cerca de 4,6 bilhões de dólares para o sistema de saúde indiano. Um problema que deve se agravar.

A demanda indiana por eletricidade deverá crescer 3,8 vezes entre 2016 e 2040. E apesar dos investimentos previstos para as energias renováveis,  a Índia continuará a depender fortemente das centrais elétricas a carvão para atender à crescente demanda, pelos cálculos da Bloomberg New Energy Finance (BNEF), o que deve triplicar as emissões anuais pelo setor de energia do país até 2040.

E se restam dúvidas sobre o “apetite” indiano por carvão, elas caem por terra diante do intuito do país de reabrir a mineração comercial de carvão para empresas privadas pela primeira vez em quatro décadas, a fim de dobrar sua produção de carvão local para 1,5 bilhão de toneladas por ano até 2020 e atingir a autossuficiência.

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