Países emergentes começam a reduzir US$ 5 tri em dívidas

A demanda por dólares entre os mutuários que precisam da moeda para pagar dívidas está contribuindo para os maiores fluxos de saída de capital em quase 30 anos

Os tomadores de empréstimos nos mercados emergentes começaram a lidar com uma montanha de US$ 5 trilhões em bonds e empréstimos denominados em dólares, diminuindo suas obrigações pela primeira vez em sete anos, uma medida que ameaça interromper um rali incipiente nas moedas de vários países, do Brasil à Malásia.

As empresas dos países em desenvolvimento pagaram US$ 38 bilhões em dívidas em dólares no trimestre passado, US$ 3 bilhões a mais do que tomaram emprestado durante o período, a primeira redução na emissão líquida desde 2008, segundo dados compilados pela Bloomberg.

A demanda por dólares entre os mutuários que precisam da moeda para pagar dívidas está contribuindo para os maiores fluxos de saída de capital em quase três décadas.

É possível que a sequência desenfreada de empréstimos, que levantou voo após a crise financeira global quando as taxas de juros despencaram, agora esteja sendo revertida à medida que o crescimento econômico desacelera, os preços das commodities caem e os credores exigem yields mais altos.

Embora as moedas de países em desenvolvimento estejam se recuperando das suas cotações mínimas recordes, os analistas consultados pela Bloomberg preveem que a tendência à depreciação voltará porque os pagamentos de dívidas em dólares estão acelerando.

“É um acontecimento enorme”, disse Stephen Jen, um dos fundadores do hedge fund SLJ Macro Partners LLP, com sede em Londres, e ex-economista do FMI, cuja previsão baixista sobre os mercados emergentes desde 2012 foi presciente. “Eles querem pagar seus empréstimos em dólares. Estamos em uma etapa inicial, há uma pressão bastante intensa sobre os mercados emergentes”.

Recuperação

Após caírem durante grande parte deste ano, os ativos dos mercados emergentes ganharam uma trégua nas últimas semanas, porque dados econômicos mais fracos do que o previsto alimentam a especulação de que o Federal Reserve (Fed) possa adiar seu primeiro aumento das taxas de juros desde 2006 para o ano que vem.

A rúpia da Indonésia liderou o rali, ganhando 8 por cento neste mês, seguida pelo avanço de 7 por cento do peso colombiano.

A maioria dos analistas se mantém baixista. As 23 principais moedas dos mercados emergentes se enfraquecerão frente ao dólar até o terceiro trimestre do ano que vem e o forint húngaro e o rublo russo declinarão mais de 10 por cento, segundo estrategistas consultados pela Bloomberg.

Os bancos estrangeiros vêm outorgando menos créditos aos países em desenvolvimento desde meados de 2013 e o montante de empréstimos de suas carteiras diminuiu em US$ 299 bilhões, para US$ 3,4 trilhões nos nove meses encerrados no dia 31 de março, segundo dados do Banco de Compensações Internacionais.

Empréstimos corporativos

No mercado de dívida corporativa, de US$ 1,4 trilhão, as vendas de bonds novos caíram para US$ 35 bilhões, seu valor mais baixo em quatro anos, no trimestre passado, na comparação de um pico de US$ 121 bilhões em junho de 2014, mostram dados compilados pela Bloomberg.

No Brasil, os resgates estão contribuindo para as saídas de capital. Pelo menos três bancos brasileiros pequenos e médios, dentre eles o Banco do Estado do Rio Grande do Sul SA e o Banco BMG SA, ofereceram recomprar seus bonds externos nos últimos trinta dias em meio a uma corrida para venda nos ativos de mercados em desenvolvimento.

O Institute of International Finance previu no dia 1º de outubro que cerca de US$ 540 bilhões sairão dos mercados emergentes neste ano, o primeiro fluxo líquido de saída de capital desde 1988.

O pagamento dos empréstimos tomados em dólares é mais do que um fenômeno passageiro, o que contribuirá para o enfraquecimento das moedas dos mercados emergentes frente à dos EUA, segundo Pierre Lapointe, diretor de estratégia global e pesquisa da Pavilion Global Markets Ltd. em Montreal.

A medição ampla do Fed do dólar frente aos principais sócios comerciais dos EUA teve um rali de 16 por cento desde meados de 2014 e atingiu seu maior valor em doze anos no mês passado.

“Prevemos que a temática de desalavancagem externa dos mercados emergentes continuará conosco durante muito tempo”, disse Lapointe em uma nota no dia 9 de outubro. “Historicamente, esse processo tende a durar muitos anos. Nesse contexto, nós provavelmente estamos na metade do caminho da atual tendência estrutural ascendente do dólar”.

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