Quanto vale a vida de um animal selvagem?

É possível colocar um preço em um animal? A resposta para essa pergunta pode definir o destino de populações inteiras de animais selvagens na África

São Paulo – 50 mil dólares: foi este o valor pago pelo dentista americano Walter James Palmer para abater o famoso leão Cecil no Zimbábue.

A morte gerou manifestações de celebridades, revolta nas redes sociais e levou grandes companhias aéreas a proibirem o transporte de troféus de caça em seus aviões.

O Zimbábue e Walter divergem sobre a legalidade deste caso específico, mas ninguém nega que a indústria de “troféus” de animais selvagens é um negócio bem estabelecido e lucrativo em 11 países da África.

Pelo Wild Hunting Africa Safaris, por exemplo, você paga US$ 4.500 pela morte de um hipopótamo no Zimbábue. Já o pacote de 12 dias para caçar um leopardo pelo Namibia Hunting Safaris custa US$ 12.775 – se nenhum animal for abatido, US$ 5 mil são ressarcidos.

Mais de 100 mil animais selvagens morrem nas mãos destes caçadores todos os anos, o que inclui cerca de 600 leões, 640 elefantes, 3.800 búfalos e 800 leopardos, de acordo com um relatório da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) em 2009.

Defesa

Parte dos conservacionistas defende que a prática seja legal e regulada como forma de gerar incentivos e recursos para a preservação.

Entre eles estão a organização World Wildlife Fund (WWF) e o Endangered Wildlife Trust. A posição foi defendida em editorial no Huffington Post em 2011 por Luke Hunter, vice-presidente da Panthera, ONG de defesa de felinos:

“Ao instituir cotas conservadoras e aumentar o limite de idade para garantir que os leões mais velhos sejam os alvos, os piores efeitos da caça de leões podem ser mitigados (…) Até que encontremos mecanismos alternativos para gerar o dinheiro necessário para proteger a vida selvagem na África, a caça permanece um dos modelos mais convincentes para várias áreas.”

A ideia de que colocar um preço em um animal ajuda na sua preservação tem evidências. Populações locais e fazendas privadas passam a ter incentivos para que os animais estejam presentes: no Zimbábue, a regulação da prática dobrou a área sob preservação. 

Nigel Leader-Williams, da Universidade de Cambridge, concluiu que a legalização da caça limitada de rinocerontes brancos na África do Sul fez a população passar de 100 para 10 mil indivíduos.

Debate

Na África subsaariana, a área reservada para caça é maior do que a de parques nacionais, e um estudo de 2006 apontou que US$ 200 milhões são gerados pela atividade anualmente (os dados são inconclusivos). 

Recursos são sempre bem-vindos nestas regiões, muitas delas entre as mais pobres do globo, mas ninguém pode dizer com segurança para onde o dinheiro está de fato indo.

Um estudo de 2013 do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW) concluiu que menos de 3% da receita gerada pela caça de troféus chega de fato nas comunidades locais.

O setor da caça é responsável por apenas 1,8% do total da indústria de turismo em 9 países analisados, e nunca ultrapassa a marca de 0,27% do PIB nacional. O turismo fotográfico tradicional teria muito mais retorno.

“A sugestão de que a caça de troféus tem um papel significativo no desenvolvimento econômico africano é enganosa”, diz o economista Rod Campble, principal autor do estudo.

Ameaça

Desconsiderando nosso desconforto com a morte de animais por esporte (que, diga-se de passagem, não vale para os bilhões de animais abatidos para consumo), o desafio é criar uma regulação eficiente para garantir a sustentabilidade das populações – humanas e animais.

No caso dos leões, fracassamos: a população caiu pela metade nas últimas três décadas e hoje restam apenas cerca de 30 mil indivíduos.

A caça não é a maior responsável, mas tem seu papel: “nos últimos 25 anos, as maiores quedas em populações de leões ocorreram nas jurisdições com maior intensidade de ‘retiradas'”, diz outro estudo de 2009.

Abater um único leão macho pode ser destrutivo para toda uma geração. Com a morte de Cecil, “[o outro leão dominante da área] Jericó irá provavelmente matar todos os filhotes de Cecil para repassar às fêmeas a sua linhagem. É isto que fazem os leões”, diz a a agência do Zimbábue responsável pela administração dos parques (ZCTF).

Os maiores responsáveis pelos turistas dos safáris de caça (15 mil por ano), os Estados Unidos tem hoje uma carta na manga. Se reclassificarem o leão como um animal ameaçado, a importação deles como troféus para dentro do país será banida – e a caça pode se tornar um negócio insustentável. Como sempre, são os incentivos que contam.   

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