“Robin Hood” quer tirar poder dos bancos e dar ao Estado

Frank Breitenbach quer desmontar o sistema financeiro, devolvendo o poder de criar dinheiro ao Estado

Frank Breitenbach gostaria de desmontar o sistema financeiro global enquanto está dentro dele. E depois montá-lo novamente, mas sem bolhas de crédito, crises e resgates de instituições em apuros.

Uma ideia antiga ganha força renovada na Europa, à medida que o populismo avança e aumentam as preocupações sobre a estabilidade das instituições financeiras: retirar dos bancos o poder de criar dinheiro e devolver esse poder ao Estado. Com exclusividade.

A proposta é considerada interessante até por insiders como Breitenbach. Ele atua em Frankfurt como vice-presidente da KfW IPEX, estatal que fornece financiamento para exportação, e também como integrante da Monetative, iniciativa que defende a volta do sistema conhecido na Alemanha como Vollgeld ou “dinheiro inteiro”.

“Há muita liquidez no mercado agora e a situação é mais ou menos a mesma que tínhamos logo antes da crise de 2008”, disse Breitenbach em entrevista em 12 de agosto, ressaltando que estava dando sua opinião pessoal e não a visão da KfW.

“Tenho a sensação de que outra crise financeira vai acontecer.”

A solução do Vollgeld seria dar aos bancos centrais controle completo sobre a oferta de dinheiro. Os bancos comerciais seriam obrigados a cobrir com depósitos 100 por cento de seus empréstimos – seja via poupança, capital próprio ou captação.

Ou seja, as instituições financeiras seriam proibidas de criar dinheiro do nada – tributo inerente ao modelo bancário de reserva parcial que predomina desde a Idade Média.

Para os defensores do Vollgeld, a mudança é necessária para impedir as ondas de crescimento acelerado do crédito que contribuíram para a última crise econômica – e provavelmente vão contribuir para a próxima.

Segundo esse raciocínio, os bancos centrais então conseguiriam garantir que a economia real tenha a liquidez necessária e não mais do que isso.

“A quantia de dinheiro que o banco central vai injetar no sistema deverá ser alinhada ao crescimento econômico”, disse Breitenbach. “É tarefa do banco central assumir o controle da quantia de dinheiro” no sistema, acrescentou.

Embora o Vollgeld tenha pouco apoio na Alemanha (segundo Breitenbach, sua organização tem cerca de 100 integrantes), a proposta ganha força em outros países.

Uma versão apresentada na Suíça obteve as 100.000 assinaturas necessárias para realização de um plebiscito sobre o assunto e espera-se que a votação ocorra em 2018.

Plano de Chicago

Essa votação aconteceria 85 anos após a primeira versão do Vollgeld ser ventilada como parte do chamado Plano de Chicago de reformas bancárias, elaborado por economistas dos EUA, como Irving Fisher, logo após a Grande Depressão.

Essas ideias nunca foram implementadas, mas o crescimento arrastado e a falta de avanço da prosperidade desde a crise financeira de 2008 renovaram o interesse nas mesmas.

A contraparte do Vollgeld no Reino Unido é o Positive Money, um grupo que também defende que o banco central financie os gastos públicos. Uma versão dessa proposta tem o apoio de Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, que faz oposição ao governo.

Adair Turner, que já foi presidente da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, e o ex-economista-chefe do Deutsche Bank Thomas Mayer discutem ideias parecidas.

Nada disso quer dizer que o Vollgeld estreará tão cedo. Além das preocupações em relação à estabilidade com a implementação de um novo sistema, não se sabe se o público europeu terá mais confiança nos bancos centrais do que nos bancos comerciais.

Na Alemanha, o Banco Central Europeu é visto com especial ceticismo.

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