A Garota Dinamarquesa é drama baseado em livro de ficção

A Garota Dinamarquesa é um filme conservador do ponto de vista estético, mas o assunto da transgeneridade faz com que a obra valha a pena

São Paulo – Pode-se prever que, em nosso tempo, um filme como A Garota Dinamarquesa vá sempre desagradar alguns setores da sociedade.

Seja o dos moralistas de sempre, que, em pleno século 21 não aceitam mudanças de comportamento, seja o de grupos que se sentem mal representados na obra.

Não há o que fazer, mesmo porque tanto o filme como o livro no qual se baseia se apresentam como obras de ficção, gozando de relativa autonomia em relação à “verdade histórica” dos fatos narrados e dos personagens descritos.

Deixando-se de lado essas questões e olhando-se apenas para o filme, conclui-se que ele tem méritos. É elegante e terno ao colocar a trajetória dos personagens sob uma aura romântica.

Às vezes, é verdade, até meio adocicada. Refere-se a uma época em que a tolerância social em relação a questões de gênero parecia muito menor do que na nossa.

De modo que, quando Einar Wegener decide fazer a sua transição completa para Lili Elbe, enfrenta muitas dificuldades e incompreensões. Esbarra também numa fase em que a medicina, nesta e em outras áreas, se encontra bem menos desenvolvida do que hoje.

Neste ponto, A Garota Dinamarquesa é até mesmo convencional e previsível ao relatar o caso clássico do indivíduo contra a mentalidade da sociedade da sua época.

Mas, por repetido que seja esse esquema, sempre o acompanhamos com interesse.

Primeiro, porque de fato pioneiros em qualquer área sempre sofrem ao lutar contra forças obstinadas em impedir mudanças.

Segundo, porque o cinema nos leva sempre a simpatizar e nos identificar com aquele que luta solitário contra uma estrutura muito mais forte e poderosa do que ele.

Gostamos dos perdedores e ninguém, em são consciência, ama o vencedor de sempre, o estado conservador das coisas. Mesmo porque, com suas derrotas, os perdedores contribuem para mudar o mundo e, por isso, à luz da história, são os verdadeiros vencedores.

Mas há outro ponto bastante interessante em A Garota Dinamarquesa – a relação de Gerda com Einar e, depois, com Lili. Nesse ponto a história toma outro peso e outra direção.

Se Lili precisa lutar com incompreensões fora de casa, terá em Gerda uma figura solidária, apesar do inusitado do casamento que se transmuda para amizade e parceria.

Um fato que se tende a pensar como bastante raro, ainda mais levando em conta a época em que se deu, a Europa dos anos 1920 e 1930. Mas aí talvez haja um preconceito da nossa parte, achar que a humanidade progride em linha reta e as sociedades caminham sempre para uma maior abertura.

Se é verdade que a questão de gênero hoje é vista com mais naturalidade, não se pode esquecer que na Europa dos anos 1920 as ideias de Freud e de outros pensadores da sexualidade já estavam consolidadas e divulgadas.

A própria medicina se havia sensibilizado para atuar de forma menos rígida, tanto assim que Lili encontra um médico disposto a ajudá-la. No século passado, talvez apenas a década de 1960 possa rivalizar com a de 1920 em termos de ideias ousadas.

Há também o relacionamento artístico entre Gerda e Lili. Einar, antes de se tornar Lili, era um pintor de paisagens. Gerda pintava figuras humanas. Ambos lutavam para se afirmar no mercado das artes.

Quando Gerda passa a pintar Lili, sua carreira decola. Encontra no ex-marido, agora transformado em Lili, sua modelo preferencial e exclusiva. As telas passam a vender, ela expõe em Paris e outras capitais, enfim percorrendo os caminhos de uma trajetória artística vitoriosa.

Nesse ponto, o filme atinge seu maior interesse, no aproveitamento artístico de uma imagem feminina construída, como a de Lili a partir de Einar. Como se a obra, na verdade, não fosse de Gerda, que apenas a registra, mas de Lili, ao construir-se a si própria. Nesse ponto, é impossível não se lembrar de Simone de Beauvoir – “Ninguém nasce mulher – torna-se mulher.”

Dito isso, é preciso notar que, se fala em um processo de liberação pessoal, A Garota Dinamarquesa é um filme conservador do ponto de vista estético. Quer dizer, entra, em sua linguagem cinematográfica, em contradição com seu tema.

A maneira como é construído o leva a uma atenuação do conflito que está em sua gênese. E a falta de radicalidade não condiz com o temperamento corajoso de seus protagonistas.

Não é ruim. Mas, ao contrário de Lili, que ousou e enfrentou barreiras para se reencontrar, o filme que descreve essa luta se conforma à norma e ao bom comportamento. 

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