Caveiras no MMA

Os soldados do Bope querem competir profissionalmente nos octógonos. Para isso, montaram uma equipe que treina com alguns dos melhores lutadores do país. Nós entramos lá para conferir

“Treinamento duro, combate fácil”

São 9h da manhã de uma segunda-feira. Dia de folga do cabo André Félix. Mesmo assim – ou apesar disso –, ele levantou cedo e deve, ao menos nas próximas três horas, suar como um louco em um duro treinamento de wrestling, a luta olímpica. O cabo Félix é um dos 400 homens do Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro (Bope). Na tropa de elite da PM fluminense, dia de descanso é uma mera convenção, como faz supor a frase acima, escrita em uma das paredes do quartel, no bairro das Laranjeiras. Em pelo menos uma das folgas do turno, todos os soldados são obrigados a fazer exercícios para o preparo físico. Nesses dias, o cabo treina MMA.

O Bope tem, desde o meio do ano passado, uma equipe de competição de artes marciais mistas composta por dez soldados, que levam a sério o esporte. Eles praticam várias modalidades de luta com atletas profissionais como José Aldo, campeão mundial dos pesos-penas do UFC, na academia Upper, no bairro do Flamengo, pelo menos três vezes por semana. Isso quando não estão a serviço da polícia. Nos demais dias, a rotina militar inclui, além de educação física, mais treinos de MMA e de defesa pessoal no quartel.

O cabo Félix tem cinco lutas de MMA profissionais em seu cartel (duas vitórias, três derrotas). Ele é faixa preta de kickboxing, muay thai e luta livre e marrom no jiu-jítsu. Treina desde os 13 anos (tem 36 hoje) e era professor de academia e fuzileiro naval antes de entrar para o Bope, em 2000. Casado, pai de um filho e “grávido” de outro, foi aluno de Rodrigo “Minotauro” na Team Nogueira e, assim que entrou para o batalhão especial, começou a dar aulas de defesa pessoal para os soldados do Bope. “Peguei técnicas de treinamento do MMA e levei para o quartel”, diz. “Assim, passei a dar instrução de artes marciais mistas lá.” Um tatame foi instalado com a doação de R$ 7 mil de Minotauro. O local foi batizado de “Dojô Irmãos Nogueira”. Até então, a intenção não era competir. André Félix é especialista em combate urbano e o MMA é útil para o trabalho da polícia. “Usamos as artes marciais para fazer, por exemplo, imobilizações e conduções para efetuar prisões e também atuar em casos em que há reféns e temos de tomar a arma dos sequestradores.”

A primeira competição em que soldados da corporação participaram aconteceu apenas no ano passado. Sua inspiração veio de duas lutas organizadas pelo UFC (o maior evento de MMA do mundo), em 2008 e 2011, o UFC: Fight for the Troops, nos Estados Unidos. As competições, que aconteceram em bases militares americanas, tinham como intenção arrecadar recursos para uma organização chamada Intrepid Fallen Heroes Fund, que apoia militares e veteranos severamente machucados em combate, além de famílias de militares mortos em serviço.

Um brasileiro, treinador de MMA e organizador de um evento profissional cha­mado Shooto (que já está em sua 28ª edição), estava lá ano passado e voltou pensando em fazer algo parecido no Brasil. Era Dedé Pederneiras, líder da equipe fluminense Nova União e empresário de José Aldo, entre outros. O tenente-coronel René Alonso, comandante do Bope, tomou conhecimento do Fight for the Troops e comprou a ideia. “Fui até o batalhão conversar com ele, que me falou dessa vontade de fazer um evento de luta na corporação”, lembra Dedé. Assim, tomava forma o Shooto 25 – Lutando pelo Bope, que aconteceu no próprio quartel das Laranjeiras em 25 de agosto do ano passado, dias antes do UFC Rio 1.

Dessezeis pessoas lutaram no Shooto 25 – entre elas, dois soldados tiveram a oportunidade de subir no ringue. Para os militares não fazerem feio, o cabo Félix criou a equipe de MMA de competição e os treinos com os lutadores profissionais começaram. O soldado Cristiano Gonçalves, o primeiro a lutar na noite de 25 de agosto, finalizou com um mata-leão o argentino Guillermo Alejandro. E o cabo Félix “Mau Mau” também finalizou o hermano Juan Pablo Córdoba com um estrangulamento chamado katagatame.

“Missão dada, missão cumprida”

Os militares tomaram gosto pela coisa. O soldado Fernando Dias, 33 anos, na tropa de elite da PM há dois, pratica luta livre há sete. “Primeiro foi porque eu gostava e por causa dos valores das artes marciais”, diz. “Depois, virou ferramenta de trabalho para o cumprimento da nossa missão na corporação. E então veio o Shooto e essa realidade do MMA e de competir no esporte para a minha vida.” Fernando lutou na edição posterior do evento, em outubro de 2011, contra Hélio Abicassiz. Venceu por desistência do adversário no terceiro round. Até agora, as três lutas profissionais disputadas por membros do Bope foram vencidas. “É nosso lema, né? Missão dada, missão cumprida”, diz Fernando.

O soldado acredita que a equipe de MMA da tropa de elite tem um objetivo maior do que simplesmente procurar a vitória. “Por onde o Bope passa, deixa um legado de valores muito grande. Trabalhamos também o resgate cultural com a pacificação de comunidades. E, nas competições, nós ficamos muito próximos da população.” Ele lembra ainda que os soldados não são lutadores 24 horas por dia. “É um esforço à parte. Por mais que tenhamos apoio do comando, também temos nossas obrigações de policiais e a corporação precisa de nós. Há muitas missões a serem feitas no estado do Rio de Janeiro todos os dias.”

Se por um lado eles não podem treinar como lutadores de verdade, por outro, o fato de serem do Batalhão de Operações Policiais Especiais lhes traz uma grande vantagem nos ringues ou octógonos. “O preparo físico deles é fantástico, mas o que mais impressiona é a frieza. Eles podem estar em uma situação horrível no treino que permanecem calmos o tempo todo”, diz Dedé Pederneiras. Pudera. Quem assistiu ao filme Tropa de Elite (ou seja, todo mundo) viu o tipo de treinamento que os caveiras têm quando pretendem entrar na corporação. Inteligência emocional é o que não falta aos sujeitos. “Quando somos colocados à prova, temos controle emocional. Subimos no ringue preparados para tudo. Mesmo porque sabemos que lá nós podemos errar. No combate urbano não temos essa opção”, diz o soldado Fernando.

Os treinos na Upper são rigorosos. Como companheiros, os dez soldados do Bope têm nomes como Renan Barão e Ronny Markes (lutadores do UFC), Ronnys Torres (ex- UFC), além, claro, do campeão mundial José Aldo. A intenção dos soldados-lutadores é disputar campeonatos profissionais nacionais – e, quem sabe?, até no exterior.

Os policiais encaixam sua folga em um dos treinos específicos de lutas da Nova União (a equipe da Upper) para prepararem-se para isso. As segundas, quartas e sextas pela manhã são dedicadas ao wrestling. À tarde, os treinos são de jiu-jítsu ou submission (espécie de jiu-jítsu sem quimono). À noite, de muay thai ou boxe. Terças e quintas pela manhã são dias de boxe e, à tarde, MMA. No sábado, para relaxar, um “circuito escadaria” ou “circuito ladeira” – exatamente isso que o nome sugere: os malucos, digo, atletas, sobem e descem por 40 minutos a escadaria em frente ao Fluminense FC ou a ladeira do morro do Pasmado, em Botafogo.

O soldado Farias, pronto para uma missão no Bope: ele ainda espera a chance de estrear no octógono

O soldado Farias, pronto para uma missão no Bope: ele ainda espera a chance de estrear no octógono (/)

“Vá e vença”

No batalhão, os treinos de lutas são complementados com musculação. A academia foi montada pela produção do filme O Incrível Hulk. O longa americano foi rodado na favela pacificada vizinha ao Bope, e a equipe guardava os equipamentos todos no quartel. Como retribuição, a corporação ganhou a academia.

O soldado Vitor Farias, que faz parte da equipe de competição de MMA, está sentado no pulley, aparelho que trabalha os músculos das costas, enquanto diz que espera sua oportunidade de estrear em um campeonato. Aos 31 anos, ele treina muay thai desde os 17 e atribui à disciplina e ao preparo que a prática trouxe para ele grande parte da responsabilidade por ter conseguido entrar na tropa. “Quando entrei para o Bope, continuei meus treinos. E o Félix me chamou para a equipe.”

Participar de competições esportivas não é novidade no Bope. Soldados da corporação já disputaram campeonatos de atletismo, judô e até rugby – em 2008, este esporte chegou a ser incluído na rotina dos treinamentos do batalhão sob consultoria da Associação Brasileira de Rugby. Ano que vem, a tropa pretende ter representantes em competições de paraquedismo.

No MMA, pelo menos por enquanto, os soldados estão se dando bem. E têm capacidade para conseguir ainda mais vitórias. Palavra de quem entende: “Eles certamente têm condições de participar de outros eventos nacionais de MMA e, futuramente, até de eventos internacionais”, diz o experiente Dedé Pederneiras. O lutador profissional Ronnys Torres endossa a opinião do mestre. “O trabalho dos caras exige disciplina, fé e determinação. E eles esbanjam isso nos treinos”, diz. Marlon Sandro, que disputou o Bellator no último dia 9 de março, também concorda. “Eles viraram mesmo atletas de nossa equipe.”

Os soldados seguem à espera de convites para campeonatos nacionais – e até, sonhar não custa, para uma edição do UFC Fight for the Troops Brasil. Sonho que talvez não esteja assim tão distante. “Interessante saber que eles têm uma equipe de competição”, disse Dana White, presidente do UFC. “Vou pensar na possibilidade de um Fight for the Troops aqui. Conheço o Bope e sou fascinado pela forma como essa corporação trabalha.”

Por enquanto, os soldados do capitão René já têm uma competição marcada: outra edição do Shooto que deve acontecer em agosto novamente no quartel-general do batalhão. Dia 25 de agosto, data do compromisso, lembremos: é dia do soldado. E caveira que é caveira só pensa em uma coisa: ir e vencer.

Um soldado no UFC

Um dos momentos mais marcantes das entradas dos lutadores em eventos do UFC foi protagonizado por Paulo Thiago.
O brasiliense de 31 anos também é um caveira. Embora não pertença ao Bope do Rio de Janeiro, é soldado do irmão menos famoso, o Batalhão de Operações Especiais do Distrito Federal. No UFC Rio 1, em agosto de 2011, Paulo Thiago entrou ao som da música Tropa de Elite, do Tihuana. As 16 mil pessoas presentes cantaram junto. O caveira chegou aonde os soldados-lutadores do Bope carioca – sem contar os atletas de MMA do mundo inteiro – mais almejam. Soldado desde 2003, fez o Curso de Operações especiais, que credencia a entrada para a tropa de elite, em 2004. Ele luta judô desde os 5 anos. Fez depois tae kwon do, jiu-jítsu e boxe, até migrar para o MMA, em 2005. Foi contratado pelo UFC quatro anos depois – já fez nove lutas pela organização e deve fazer a décima em 14 de abril, na Suécia. “Sempre tive apoio do meu comando no Bope para lutar”, diz Paulo. “Mas ainda hoje concilio os treinos com meu trabalho de policial militar.”

Lutas nos morros
Desde 2008, a favela Tavares Bastos, localizada atrás do quartel do Bope no Rio de Janeiro, tem um projeto social de artes marciais. Idealizado pelo cabo André Félix, ele acontece no tatame do batalhão todas as noites e beneficia 250 pessoas com aulas de jiu-jítsu e muay thai.  E não foi apenas o Bope que adotou as artes marciais como forma de integrar moradores de comunidades carentes no Rio. Diversas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) dos morros cariocas mantêm programas parecidos. Até agora são dez, mas o governo do Rio quer que todas as 44 favelas pacificadas até o fim do ano tenham um. “Temos 600 crianças lutando caratê, quase 400 no jiu-jítsu e mais 150 fazendo muay thai e kickboxing”, diz o sargento Hernani Lopes, coordenador-geral de artes marciais da Secretaria de Esportes. O próprio Paulo Thiago, do Bope de Brasília, virou padrinho de uma das unidades, a do morro do Borel. “Para participar, a criança tem que estar matriculada na escola e ter bom rendimento”, diz o sargento. Os projetos das UPPs já renderam, em 2010, cinco campeões brasileiros e quatro sul-americanos.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s