Crise política de 2013 é tema de livro de escritor americano

Com protagonista nova-iorquina, romance de diplomata escritor se passa em São Paulo na época das manifestações de 2013

livro feast days

 (Montagem/VIP/Reprodução)

A esposa de um executivo de banco se muda com ele de Nova York para São Paulo.

Enquanto ele trabalha, ela leva uma vida ociosa e privilegiada.

E começa a mudar radicalmente, com as manifestações de 2013 na cidade contribuindo para deixar tudo mais turbulento.

Essa é a trama de Feast Days, segundo romance do diplomata americano Ian MacKenzie, recém-lançado nos Estados Unidos e objeto de crítica positiva do jornal The New York Times.

Não há previsão de edição brasileira ainda.

MacKenzie, 36 anos, nasceu em Boston e se formou em literatura americana e inglesa em Harvard, antes de partir para a carreira diplomática.

Essa função o levou a morar por dois anos na Etiópia e, depois, em São Paulo, entre 2013 e 2015.

Atualmente reside em Washington. Ele falou à VIP por e-mail de sua experiência aqui e do livro.

 

Ian-MacKenzie.jpg

 (Ian Mackenzie/Reprodução)

 

Como você concluiu que o que viu em São Paulo daria um livro?

Não saí dos Estados Unidos com a intenção de escrever um romance sobre São Paulo ou o Brasil.

Porém, fiquei impressionado com o estilo de vida urbana, a imensidão e a diversidade.

Uma cidade assim, cheia de vida, complexidade, histórias e vários tipos de pessoas, inspira a todos.

 

A protagonista Emma morava em Nova York. Muitos paulistanos gostam de dizer que São Paulo é a Nova York brasileira. Qual é a comparação entre as duas cidades na visão de um americano?

Eu diria que os paulistanos não são os únicos que pensam assim.

Eu também acho que São Paulo é a Nova York brasileira.

Apesar das muitas diferenças, acho as duas bem similares. São Paulo me lembra muito a Nova York dos anos 70.

Hoje destaca-se por sua cena artística muito vigorosa, dinâmica, flutuante e imprevisível.

 

Já morou em Nova York?

Morei no Brooklyn de 2004 a 2009.

 

Emma começa com uma vida típica de classe alta para depois se engajar em causas. Você constatou essa transformação em algum estrangeiro na cidade?

Emma não foi baseada numa pessoa específica.

Todas as personagens foram construídas a partir das qualidades que observei nas pessoas em geral e nas minhas próprias experiências como expatriado vivendo na cidade.

Minha ideia foi atrelar as transformações pelas quais a personagem passa àquelas ocorridas na cena política do país em 2013: a passagem de um movimento da periferia para o centro, da classe média para a classe alta, da questão da tarifa de ônibus para as grandes questões.

 

junho 2013

 (Pinterest/Reprodução)

 

Qual sua visão pessoal sobre as manifestações de 2013?

Para mim, foram muito parecidas com o movimento Occupy que ocorreu nos Estados Unidos em 2011.

Nas duas, um setor da população estava insatisfeito com o sistema e decidiu ir às ruas protestar.

O que me chamou atenção nas manifestações de 2013 é que inicialmente tinha-se a impressão de que os protestos iriam trazer mudanças drásticas ao sistema político brasileiro.

Tiveram um impacto na política brasileira, mas ainda é muito cedo para saber quais serão as repercussões em longo prazo.

 

Desigualdades, violência urbana e outros problemas poderiam render um texto pesado, muito sério. Mas você alivia a tensão com diálogos ágeis e menções rápidas a coisas como a tomada de três pinos ou a antena na Avenida Paulista. É difícil ter humor e leveza num quadro como o do Brasil atual?

Não só difícil, como necessário.

Acho que humor e leveza são ingredientes indispensáveis na literatura, especialmente na que trata de assuntos pesados.

Na vida, não há uma separação entre gravidade e leveza. Elas existem lado a lado, se misturam.

 

SP

 (Flickr/Reprodução)

 

Qual a principal dificuldade que você sentiu como estrangeiro morando em São Paulo?

Acho que um estrangeiro deve abordar um novo país com mente aberta, humildade e modéstia.

Para mim, um estrangeiro não deve pensar que o novo país onde está vivendo é estranho ou difícil.

Ele deve se esforçar ao máximo para se adaptar.

É impossível viver em um novo país sem se deparar com coisas com as quais você não está acostumado.

Em vez de ter uma reação negativa, tento tirar proveito e as transformo em momentos de descoberta.

 

O livro teve uma resenha elogiosa no New York Times. O que achou?

Muito bom!

É legal encontrar uma resenha do meu romance no jornal que é, ao mesmo tempo, o mais famoso dos Estados Unidos e o meu favorito.

A única coisa que me surpreendeu foi que o crítico reduziu a narradora ao problema do privilégio, e não notou que ela mesma percebe o quão absurda é a sua própria situação.

 

Crise política de 2013

 (Wikimedia/Reprodução)

Há previsão de uma edição brasileira de Feast Days?

No momento, não, mas espero que haja uma oportunidade no futuro.

 

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