De Leonidas@tricolor para Ceni@saopaulofc

Leônidas da Silva, primeiro gênio do Brasil em Copas, faria 100 anos em setembro. Como também foi o primeiro ídolo do São Paulo, imaginemos que e-mail ele escreveria ao atual líder do time

Leonidas

Caro Rogério Ceni:

Eu percebi que a coisa estava séria quando aquele menino do Cruzeiro marcou três gols em você, na nossa casa. Naquele dia, nós batemos o nosso recorde de derrotas seguidas. Sete jogos só apanhando. Alguns dos meus amigos do antigo Palestra Itália vieram até mim e perguntaram: “Quantos são os pecados capitais? Quantos são os mares do mundo? Quantas são as colinas de Roma?” Esses italianos sabem que gozação, para cima de mim, tem de ser sutil. Senão, nem os anjos me seguram. Até Hélio Gracie já sentiu o poder da minha bicicleta. Nunca mais veio com papo.

Se eu fiquei maluco quando batemos o recorde de derrotas, imagine o general Porfírio da Paz, autor do nosso hino. Ele propôs uma intervenção para tirar o presidente Juvenal Juvêncio, uma espécie de milícia sobrenatural com anjos, santos, demônios, o que for. Nem o mestre Telê Santana consegue acalmá-lo – porque ele próprio anda aflito, mais do que nos dias em que treinava cruzamento com o Cafu. Temos feito muitas reuniões aqui. Um dia, meu amigo Nelson Rodrigues participou de uma e deu a resposta. É o óbvio ululante. São sete pecados capitais, mas um deles é fortíssimo no Tricolor: a vaidade.

Ninguém é maior do que o São Paulo. Nem você, nem Juvenal, nem eu. Nossos feitos passam. O Time da Fé é eterno. Encontrei o São Paulo espremido pelas grandezas de Palestra e Corinthians, implorando para sobreviver. Fui contratado por um time que faliu, por uma equipe que dependeria de uma moeda cair em pé para ser campeão. E consegui. Levei o São Paulo ao primeiro título paulista após a refundação. Tal como fiz no Flamengo, clube em que fui ídolo e arregimentei os pobres, os negros, os discriminados para o conforto do coração rubro-negro, os meus gols de bicicleta, o meu passado de primeiro grande ídolo nacional, tiraram o time dos ambientes sisudos das elites paulistanas e o jogaram nos braços do povo humilde da antiga Piratininga. O São Paulo é grande também por minha causa.

Eu, igual a você, passei boa parte dos meus melhores anos me achando uma instituição. Eu fui grande nos times e na Seleção. É um chamado à realidade porque aprendi que a vaidade e a soberba são pó. E aprendi isso muito tempo antes de chegar aqui. Um homem mimado é um homem perdido. Nos meus anos gloriosos do Flamengo, eu me sentia intocável. Acabei deixando o time pela porta dos fundos, e parti para o frio de São Paulo. O Tricolor foi o choque de humildade que resgatou meu futebol. E isso foi bom. É fundamental se sentir frágil de vez em quando. Isso dá a medida das coisas e evita a loucura do poder. O grande Marcelo Portugal Gouvêa e eu lemos a entrevista do Ney Franco sobre você na internet – São Pedro faz questão de ter a internet mais rápida dos sete círculos celestiais. Ele não dá o braço a torcer, mas diz que entende, em partes, o Paulo Amaral. Criamos uma vaidade que, hoje, o futebol é incapaz de administrar. Você se tornou um eucalipto, meu goleiro. Na medida em que você cresce, nada mais nasce ao seu lado ou embaixo de você. As coisas secam.

Se ainda estivesse entre vocês, eu faria 100 anos em setembro de 2013. Nos meus melhores sonhos, desejei ver você usando seu prestígio para exigir o fim dos golpes e o início das eleições diretas para presidente do São Paulo. Mas a cada uma das suas declarações, meu coração fica apertado. Quero estar errado, mas não sinto em você a disposição para ser a força renovadora de que o time precisa.

Deixo um pedido: não deixe o São Paulo ser rebaixado no meu centenário. Não fique marcado como o ídolo que cobriu o meu ano de vergonhas. Se precisar sair do time, saia. Se precisar arrumar briga com alguém, arrume. A sua história, assim como a minha, está misturada à do São Paulo. A desonra pela presunção, eu aprendi, deixa marcas que nenhuma glória pode esconder. A saída pela porta dos fundos, hoje, poderia ser a entrada no panteão de glórias, para sempre. Com uma declaração contundente de que o São Paulo precisa de renovação – de métodos e de pessoas –, você sairia do gol para entrar na história. Ainda há tempo. Não muito. Mas há.

Com carinho e esperança, Leônidas.

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TRÊS PONTOS:

Leonidas1Gênio da Copa

Além de difundir o gol de bicicleta, Leônidas foi o primeiro artilheiro brasileiro de uma Copa do Mundo. No torneio de 1938, na França, marcou sete gols – um deles, descalço, nos 6 x 5 sobre a Polônia.

Untitled-2Craque-problema

Uma das contratações mais caras da época, Leônidas recebeu o apelido nada agradável de “bonde de 200 contos” ao chegar ao São Paulo em 1942. Ele teve uma saída conturbada do Flamengo, com problemas físicos e fama de difícil. O apelido morreu com seus gols e títulos, é claro.

Garoto-propaganda

Além do chocolate Diamante Negro, criado em sua homenagem, Leônidas foi marca de cigarros e goiabadas. Elegante e boa vida,  costumava pedir o melhor terno da época quando mudava de clube.

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