[Ideias VIP] Ana Canosa: empatia é quase amor

Como abrir o canal para ouvir - de verdade - sua parceira?

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 (Pianofuzz/Reprodução)

Eu não tenho dúvida de que a chave para criar intimidade em uma relação está na capacidade de sermos empáticos, de nos colocarmos no lugar do outro. E isso não significa simplesmente ouvir alguém.

Ser empático é, antes de tudo, compreender emoções e sentimentos alheios, mesmo que eles sejam diferentes dos seus. Já que o mais difícil para se manter em uma relação amorosa é o desejo, talvez a chave esteja também na prática da empatheia, palavra grega que significa paixão.

Parece simples, mas não é. Somos afeitos a decifrar movimentos e expressões a partir de nosso código pessoal e, pior, julgar os outros a partir de nossas convicções e experiências.

Além disso, formamos crenças a nosso respeito e sobre os outros. Você pode ter entendido, em algum momento de sua relação amorosa, que sua companheira é muito sensível, muito frágil, fria etc. E é possível que sua percepção sobre ela realmente faça sentido.

No entanto, muitas vezes deixamos de lado o desenvolvimento das pessoas, os esforços que empregam para fazer diferente, as mudanças no comportamento – e ficamos repetidamente fazendo uma leitura “viciada” de suas atitudes e ideias.

Crenças permeiam também nossa visão sobre o coletivo, como, por exemplo, a de que todas as mulheres falam muito, ou de que os assuntos femininos são chatos, que as mulheres não têm tanto desejo sexual e assim por diante. Quanto há de verdade universal nesses slogans de gênero, idade, raça, credo ou partido político?

Para treinar empatia é preciso adquirir o pacote premium e não só assistir ao conteúdo gratuito. Não é entrar em uma conversa aguardando a brecha para mostrar-se incrível, muito inteligente, experiente, cool, colocando a luz sobre você. É ter um prazer investigativo sobre a vida da outra pessoa, ser curioso e abandonar arrogâncias.

Não dá para escutar alguém buscando seu erro, sua falha, sua contradição só para munir-se de argumentos para contra-atacar, provando que aquilo tudo é mais do mesmo. Menos ainda propor uma escuta ou vivência que, lá no íntimo, diz, secretamente: “Quanta bobagem. Vou deixar falar ou vou fazer para ela ficar contentinha e parar de encher o meu saco”.

Sim, eu sei que sua companheira pode envolver-se com temáticas desinteressantes para você, dramatizar alguns conflitos ou ser prática demais a ponto de não dar importância para outros assuntos (normalmente os seus).

Praticar empatia não é concordar com os outros ou achar tudo interessante, mas abrir um canal de comunicação mais livre e verdadeiro, tentando compreender, mais do que o outro pensa, o que ele sente. Sim, isso dá trabalho, envolve desconstrução.

Procure, ao seu redor, pessoas empáticas. Aquelas com quem você tem facilidade para se abrir, ou simplesmente se sente confortável a seu lado, sem precisar ficar “pisando em ovos”, ou tenso, se avaliando em demasia para não desagradar. O que elas fazem para que você tenha essa sensação de serem amigos, mesmo que essa relação seja tão recente?

Às vezes basta um “pois é, foda isso!”; noutras, um abraço apertado. E, se ainda tem dúvidas, aqui vai: quando você leva um chá para uma mulher que está deitada com cólica, você está sendo empático com a sua dor física. Quando vai junto levar a mãe dela ao cinema, você está sendo empático com os afetos dela.

Se aceitar um vibrador na relação sexual de vocês porque ela gosta de ter esses “dois pênis” à disposição, você está, tipo assim, promovendo uma empatia sexual.

Ana Canosa é psicóloga clínica, terapeuta e educadora sexual e acha que em certos momentos da vida nos identificamos com algum dito popular

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