Jolie Bordeaux

Lillian Vidigal provou rótulo após rótulo na região que produz o melhor vinho do mundo. E voltou para contar

bordeaux

As garrafas de Château Ducru-Beaucaillou são etiquetadas com uma ilustração do palácio que as nomeia, em laranja e dourado. Vendo-as, sempre imaginei que a construção seria suntuosa. Mas, chegando ao lugar, tive a estranha sensação de mergulhar no rótulo. Efeito de uma degustação de vinho já ocorrida naquela manhã, dirão vocês? Talvez. Durante uma semana, meus dias correram com uma visita matutina e outra vespertina a nove châteaux da mais tradicional região produtora de vinhos do planeta: Bordeaux. Um lugar que é sinônimo de grandes rótulos desde o século 8. O ritmo, a quantidade de informação — e de álcool — não eram mesmo para amadores.

O Château Ducru-Beaucaillou é um dos únicos palácios que visitamos que ainda servem de residência ao proprietário, Bruno Borie, e sua família. Fomos recebidos na porta pelo mâitre de chai, que coordena a produção, e por um dos enólogos que afinam o vinho. A imponência da construção original produz tanto impacto quanto as geniais adições arquitetônicas feitas recentemente: para armazenar os barris sem alterar a paisagem, foi construída uma enorme “sala secreta”. Só quando se chega perto — e no ângulo certo — é que se vê, por baixo de um tapete de gramado, uma entrada de concreto de linhas ultramodernas contrastando com a arquitetura clássica do palácio.

Subterrânea, a sala preserva as condições ideais de temperatura e umidade o ano todo, sem precisar de ar-condicionado. Nosso grupo, formado por 11 amigos, atravessou em silêncio de deslumbre o longo tapete vermelho estendido entre os barris de carvalho francês virgem, onde descansavam, à luz de candelabros, os 3 mil hectolitros da última colheita. Na parede do fundo, um legítimo Kandinsky em tons neon e a passagem para a sala de degustação, com outras peças do acervo de arte moderna do château.

Provamos a bebida em torno de um balcão minimalista, feito de resina branca, com jatos de água simétricos e cuspideira embutida. Experimentamos em primeiríssima mão a safra 2010, recém-engarrafada. “Robert Parker (o mais temido e influente de todos os críticos) bebeu o vinho nesta semana. Ainda nem sabemos a pontuação que ele lhe atribuiu, mas é um vinho grandioso”, disse o mâitre. Concordamos. Alguns dias depois, saiu a nota de Parker: 98 pontos (o máximo é 100). Nos sentimos ainda mais privilegiados.

Nessa região plana e verde, entrecortada pelo mítico Rio Gironde, que a cada curva tempera a terra com seus vapores únicos, Napoleão III ordenou, em 1855, que os rótulos fossem classificados pelos principais comerciantes de vinhos. Eles catalogaram a produção em cinco faixas, de acordo com a reputação do château e a qualidade da bebida obtida. Desde então, quatro vinhedos se mantêm como os Premier Crus Classés: Lafite Rothschild, Latour, Margaux e Haut- Brion. A única alteração nessa tradicional classificação promoveu, em 1973, o Château Mouton Rothschild de Deuxiéme Cru (segundo) a Premier (primeiro). Entre os 87 vinhos considerados na classificação de 1855, 60 são tintos do Médoc e 26 são brancos de Sauternes, onde as brumas matinais favorecem a proliferação do fungo Botrytis cinerea, que adocica as uvas de forma inigualável. Apenas um, o Haut-Brion, fica em Graves, entre as duas áreas, um pouco mais distante do rio, ainda em Bordeaux.

No Château Margaux, esperamos pela jovem enóloga que nos acompanharia em uma saleta cheia de objetos pessoais da proprietária, Corinne Mentzelopoulos. A casa é mais elegante e tradicional do que suntuosa, embora seu desenho também mereça estampar o rótulo discreto das garrafas. Quando chegou, ela nos levou a uma marcenaria artesanal. “Aqui fazemos nossos próprios barris, para ter o controle da

qualidade. Cada barril só é usado uma vez, assim a interação entre o suco fermentado e o carvalho garante um vinho elegantemente amadeirado.” Nos sentimos em casa durante a degustação da safra 2007, depois de passear pelos vinhedos, pelos tambores de fermentação e pela adega de maturação dos barris. Como em todas as degustações, havia cuspideiras à disposição. Alguns usam, outros não. Ao ver uma das moças do grupo em dúvida, ela se adiantou: “Em uma semana de degustação, como a de vocês, ou se engole, arriscando uma dor de estômago passageira, ou se cospe e a consciência vai doer para sempre”. De todos os vinhos espetaculares que provamos, esse foi o que mais me agradou, justamente pelo equilíbrio e pela elegância.

Decidi que minha consciência não doeria e segui firme rumo ao château Pape Clément. O lugar, com seus sete séculos de história, impressiona. Ali, uma enóloga com carinha de estagiária e segurança de gente grande mostrou os detalhes do vinhedo, como a estufa de cristal e ferro em estilo art déco construída por Gustave Eiffel, que descansa ao lado de uma oliveira milenar. O jardim que circunda o belo castelo é todo recortado à francesa. A adega, o ápice da visita, um dia já abrigou a igreja na qual o papa Clemente morava e celebrava missas. Através dos vitrais com personagens bíblicos, a luz entra suave, colorindo os barris que repousam na nave central, sob a bênção do trono papal, ainda lá, e ao som bem baixinho de música sacra. O enólogo-chefe, um sósia de Harry Potter, nos mostrou as esteiras onde as uvas são selecionadas e os tonéis nos quais passam por fermentação lenta. “Respeitamos a fruta, seu tempo e sua natureza. Ela nos dá em troca um vinho autêntico”, vaticinou.

Nossa viagem culminou com a visita ao Premier Cru Château Lafite. Sem muita modéstia, o enólogo que veio nos receber, ainda do lado de fora, apontou um trecho elevado do vinhedo: “Apresento a vocês as uvas mais mimadas do mundo. Ficam aqui olhando o Rio Gironde passar, sob a proteção das flechas de Rothschild”, disse. Lafite significa, no dialeto local da época, pequena montanha. O segredo do terroir mais valorizado do mundo está justamente nessa angulação da terra, que recebe incidência ideal do sol e permite drenagem eficaz das chuvas por entre as camadas de cascalho e argila, formando videiras de raízes profundas, com cachos de uvas perfeitas. Já as cinco flechas cruzadas de Rothschild compõem o emblema da poderosa família de proprietários e representam a união e a força dos cinco irmãos suíços que deram origem ao negócio, ainda no século 16.

Nosso guia pegou uma pedra de cascalho do chão e a olhou fixamente contra o sol, fechando um olho. “Essas pedrinhas valem mais que diamante”, disse. Não há como negar. A garrafa mais cara do mundo nasceu aqui. Malcolm Forbes pagou, em 1985, nada menos que 156 mil dólares por uma garrafa de 1787 personalizada com as iniciais do então presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson. Os chineses, alucinados por Lafite, hoje compram 80% da produção futura, pagando quanto for necessário em leilões que acontecem antes mesmo de o vinho ser engarrafado. Só não compram tudo por determinação dos próprios Rothschild, que zelam para que outros mortais possam experimentar um pouco de cada safra. Claro que isso eleva o preço a patamares obscenos. Pois eu vim, vi e bebi.

Entramos no château por galerias de pedra repletas de barris. Atravessamos um corredor escuro que guarda garrafas empoeiradas de safras históricas, algumas com mais de 200 anos, protegidas por grades de ferro chumbadas nas paredes de pedra. Finalmente, cheguei ao famoso salão redondo, com as tais cinco flechas numa enorme placa de bronze. Centenas de barris tão mimados quanto as videiras Lafite amadurecem ali, em círculo. Duas garrafas da safra 1995 esperavam já abertas, respirando. Respiramos fundo também antes de brindar com nosso anfitrião, que pediu que ouvíssemos atentamente o tim-tim de cada taça: “Com este som, o vinho alcança nossos cinco sentidos.” Um Lafite realmente merece ser sentido com todos os órgãos, inclusive os ouvidos e o bolso.

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