Os homens mais durões do futebol

Fotógrafo faz ensaio sobre "hooligans brasileiros", personagens temidos nos estádios

Há cinco anos, o fotógrafo Gabriel Uchida teve uma ideia: em vez de seguir a pauta da imprensa esportiva, que é a de retratar as estrelas em campo, resolveu procurar o lado mais humano do jogo, apontando sua câmera na direção dos torcedores. Nascia o FotoTorcida.com.br, um site de imagens que registra os rostos tristes, felizes e apavorados dos frequentadores das arquibancadas brasileiras. No momento, Uchida está trabalhando no ensaio fotográfico “The Hardest Men on Brazilian Football”, que será publicado na Inglaterra. Conversamos com ele sobre esse tema.

O tipo de torcedor que você buscou retratar representa a chamada “cultura de arquibancada” ou faz parte de um submundo, mais violento do que a realidade dos estádios?
Na verdade, “cultura de arquibancada” é um eufemismo. A ideia inicial era usar o hooliganismo como referência visual. A princípio, queria algo muito mais agressivo. Pensava até em acrescentar armas ao ensaio. Mas por causa do meu projeto com torcidas organizadas cheguei à conclusão de que poderia ser uma escolha um pouco irresponsável. Já estamos falando de um submundo muito polêmico e discriminado, provavelmente as fotos seriam mal interpretadas e causariam problemas para os torcedores e para mim.

Críticos podem dizer que, de alguma forma, esse tipo de foto pode glamourizar a violência. O que você acha disso?

As fotos não foram produzidas. Eu só chego e peço para esconderem o rosto com o que quiserem. Tudo é feito de maneira bem simples e em locais familiares dos torcedores: na rua onde moram, praça que frequentam, academia onde treinam. Estou apenas retratando uma realidade que a maioria dos jornalistas prefere tratar com preconceito do que investigar e entender. É fácil demonizar as torcidas dentro da sala com ar condicionado e só tratar o assunto de maneira superficial quando a notícia está quente. Estou há cinco anos estudando isso e acompanhando de muito perto não só durante os 90 minutos da partida mas também em viagens, preparação para as partidas etc. Afirmo com toda certeza: violento e criminoso é também rotular as torcidas de facções criminosas.

Qual foi o momento mais tenso que você já viveu em estádios?
Peñarol e Santos no Uruguai, final da Libertadores. Já bem animados, nos dividimos em três táxis para ir ao estádio. Seguimos cantando, gritando e balançando camisas e cachecóis no meio do trânsito de horário de pico. Obviamente, o motorista do táxi não gostou muito da ideia e sacou um revólver. O pessoal que estava comigo não entendia nada, então troquei algumas palavras com o uruguaio, todos rimos de nervoso e continuamos o trajeto. Ele seguiu até o Estádio Centenário com uma mão no volante e outra segurando o revólver no colo.

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