Palestrantes: o que ensinam (e quanto ganham) os melhores do país

De como superar os percalços da vida até reflexões sobre a macroeconomia, batemos papo com cinco dos palestrantes mais requisitados e bem pagos do Brasil 

Palestrantes de sucesso

 (Zé Vicente/VIP)

O mítico passado do Velho Testamento, Salomão transmitia seus ensinamentos sobre a paz e a guerra, e é assim hoje, quando um palestrante gabaritado sobe ao palco para falar de problemas de emprego ou macroeconomia. Os discursos motivacionais estão em alta.

No plano operacional das empresas, a palavra do dia é “superação” – e a maior parte das mensagens dos grandes palestrantes do mercado está relacionada com ir além de onde você acha que pode, sempre estabelecendo metas. Também se fala muito sobre negociação, liderança, trabalho em equipe e capacidade de decisão.

O entendimento conjuntural é outra demanda nos níveis hierárquicos mais estratégicos, que apontam objetivos de desempenho e preparam os novos passos.

O mercado de palestras mantém-se como prioridade nos departamentos de RH e na área de comunicação interna das empresas, substituindo inclusive gastos com consultorias mais caras e complexas.

“Desde o ano passado as empresas estão aumentando seus investimentos em treinamento e as palestras ganham destaque”, diz Priscila David, diretora da Palavra, empresa de intermediacão de serviços de palestrantes.

“Funcionam como uma consultoria coletiva e permitem que você compartilhe o conhecimento rapidamente dentro das corporações.” O mercado já movimenta mais de 100 milhões de reais por ano no Brasil. No mundo todo, alcança estimados 12 bilhões de dólares.

A lista de palestrantes que disputam a atenção do público corporativo tem milhares de nomes e preços — 6 mil pessoas são registradas na associação do setor.

Eles se dividem em dois tipos: os que se sustentam em experiências vitoriosas e aqueles que baseiam seu discurso em estudo, teorias e análise de cenários.

Palestrantes do primeiro time cobram a partir de 30 mil reais para fazer eventos de uma hora para públicos de mais de 100 pessoas — mas os valores chegam até a casa dos seis dígitos. A sapiência tem seu preço.

Paulo Storani

Paulo Storani Preço médio da palestra: Não divulgado

Preço médio da palestra: Não divulgado (Zé Vicente/VIP)

O ex-subcomandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), hoje aos 53 anos, começou sua carreira de palestrante depois de prestar consultoria para o primeiro Tropa de Elite, de José Padilha, em 2007.

Com a preparadora de elenco Fátima Toledo, treinou 20 atores, durante três semanas, para aprender a se comportar como policiais em situações extremas e de alto risco. Ele foi também uma das inspirações para a composição do multifacetado Capitão Nascimento.

Essa experiência de transpor os desafios de um policial para o mundo da ficção, somada aos seus estudos acadêmicos, levou Storani ao universo das palestras.

“O filme despertou um interesse muito grande pelo modelo de alto desempenho do Bope”, diz. Depois que a segunda parte do longa foi lançada, Storani burilou sua principal palestra: Como Construir uma Tropa de Elite, que virou febre nos departamentos de vendas das empresas e nas áreas de gestão e estratégia.

Ele orienta os ouvintes a sair da posição de vítima e a se afirmar como predador. “Não basta apenas cumprir tabela e se pautar por um padrão mediano.”

Storani passou 17 anos na Polícia Militar do Rio de Janeiro, na qual atingiu o posto de capitão. Deixou o Bope em 1999 e passou a se dedicar ao ensino e à pesquisa de segurança pública.

Nas apresentações, trata de situações de violência, como a invasão do Complexo de Alemão, para falar de planejamento e gestão de risco. Faz cerca de 15 palestras por mês. É duro com seus ouvintes e quer tirá-los da zona de conforto. Propaga sentenças que se popularizaram em Tropa, como “missão dada é missão cumprida”, “vá e vença” e “pede para sair”.

Diz que o importante para quem enfrenta uma missão difícil é se comprometer, entender a situação, buscar informação e contar sempre com a força do trabalho em equipe. “Não basta apenas tentar sobreviver no emprego, é preciso sair da média.”

 

Felipe Mojave

Felipe Mojave Preço médio da palestra: R$ 35 mil

Preço médio da palestra: R$ 35 mil (Zé Vicente/VIP)

Nas vésperas da partida decisiva entre Palmeiras e Internacional, no Campeonato Brasileiro de futebol de 2016, o jogador de pôquer Felipe Mojave, 34 anos, deu uma palestra para o time e a comissão técnica alviverdes.

Depois da apresentação, todo o grupo participou de uma sessão de carteado que durou mais de quatro horas. Além de aliviar a tensão, a iniciativa tinha o objetivo de fazer a equipe treinar a mente, se preparar para fazer a coisa certa durante os 90 minutos do confronto e, claro, ganhar do Inter.

Nas apresentações para atletas, instituições ou para o mercado corporativo, Mojave trabalha por analogias. Procura comparar as situações do seu jogo com as vividas por um um gestor num momento crítico ou um grupo de trabalho, com prazos curtos.

Em abril, ocupava a 25ª posição no Player of the Year, do Global Poker Index, melhor colocação de um brasileiro na história do principal ranking do pôquer mundial. Nas palestras, é um apologista da optimum play, a solução ou jogada ótima.

Em sua visão, baseada na experiência do pôquer, sempre existe a melhor coisa a fazer em cada etapa e em qualquer situação. A jogada ótima seria a decisão ideal a ser tomada em cada mão — pode significar recuar, blefar, desistir ou jogar aberto.

Cada momento exige uma atitude e um tipo de ação ou reação. O blefe é um recurso bom e legítimo em várias situações e envolve uma leitura rápida e clara do cenário. “O pôquer é uma grande forma de negociação”, diz Mojave, que tem entre seus alunos o craque Neymar. “Em cada mão jogada, você deve negociar melhor: é um jogo de estratégia, não de azar.”

Formado em administração com pós-graduação em finanças, Mojave começou no pôquer em 2004, convidado por um chefe no Bank Boston, onde trabalhava como gerente. Logo passou a participar de campeonatos.

Em 2007, ganhou uma etapa do campeonato brasileiro e, alguns meses depois, assinou um contrato de patrocínio com o site Best Poker. Embora tivesse um plano de carreira no banco, decidiu pedir demissão. Hoje jogador do prestigiado time PokerStars, ele faturou, apenas no primeiro semestre deste ano,
195 mil dólares só com premiações por vitórias.

Ao longo de sua carreira, acumulou mais de 3,5 milhões de reais em prêmios. Divide seu tempo entre torneios, consultorias e eventos para o mercado corporativo, que incluem desde atividades de treinamento, mentoring e coaching até palestras customizadas de acordo com a atividade do cliente.

 

Ricardo Amorim

Ricardo Amorim Preço médio da palestra: R$ 30 mil

Preço médio da palestra: R$ 30 mil (Zé Vicente/VIP)

Se há algo que todo mundo quer saber é quando a economia brasileira vai retomar o eixo do crescimento, voltar a criar empregos e parar de rodopiar rumo ao abismo. No mercado de palestras econômicas, está em alta quem oferece boas respostas para perguntas difíceis como essas.

O consultor e jornalista Ricardo Amorim, 46 anos, mantém-se há uma década entre os mais destacados nesse campo. Sua linguagem é simples e de fácil compreensão.

Quando fala, procura tornar os assuntos palpáveis, mostrar como a macroeconomia afeta o dia a dia de todos. “Minha função é ajudar as pessoas a ajustar a prancha para, se for o caso, surfar um tsunami”, afirma.

Amorim tem um tom de consenso e longa experiência para falar diretamente com o público. Quando trabalhava no mercado financeiro internacional, com atenção aos países emergentes, uma de suas funções era fazer apresentações para clientes.

Depois adquiriu traquejo de televisão frequentando a bancada do programa Manhattan Connection, da GloboNews, a partir de 2002. Alimentado pela visibilidade dada pela TV, atrelou a carreira de consultor com a de palestrante, elevando o valor dos seus raciocínios e opiniões.

Há oito anos, desde que montou seu negócio, a Ricam Consultoria Empresarial, ele procura incluir as apresentações e palestras dentro de um pacote de serviços de consultoria e negociar seus contratos na casa dos seis dígitos. “Uma das coisas legais desse trabalho é dar retorno financeiro para as pessoas”, afirma, citando o exemplo de um médico que seguiu seus conselhos e dobrou o capital na Bolsa de Valores. “Para falar com mais gente, trago o mesmo que faço na consultoria para as palestras.”

Uma missão que ele se atribui é tirar seus ouvintes do ciclo da negatividade e do pessimismo.

Se a crise gera ansiedade pela dificuldade de compreensão dos acontecimentos, ela também cria oportunidades únicas para melhorar seu negócio, afirma Amorim. “Me acusam de ser otimista, mas um bom médico deve enxergar o ponto em que o paciente começa a evoluir para a cura”, diz.

 

Oscar Schmidt

Oscar Schmidt Preço médio da palestra: R$ 40 mil

Preço médio da palestra: R$ 40 mil (Zé Vicente/VIP)

Ex-jogador de basquete de 59 anos, craque da superação, sustenta suas palestras com a longa coleção de vitórias. Na história do esporte será difícil encontrar um atleta mais dedicado aos treinamentos e ao autoaperfeiçoamento do que Oscar.

Além de ser o maior pontuador da história do basquete mundial, com 49 437 pontos, é o maior cestinha de Olimpíadas. De tão preciso nos arremessos foi apelidado de “Mão Santa”.

A partida em que a seleção do Brasil venceu a dos Estados Unidos, em 1987, na final dos Jogos Panamericanos de Indianápolis, é frequentemente exibida em suas palestras motivacionais.

Foi uma vitória aparentemente impossível — e a primeira derrota da seleção americana no seu solo. “O meu exemplo é de sacrifício extenuante, de treinar muito e de acreditar que tudo pode ser possível”, afirma Oscar. “O exemplo do esporte é muito forte, serve para qualquer atividade.”

Como orador, Oscar estimula seus ouvintes a atingir o máximo de excelência e a não se contentar com os aparentes limites. A coerência entre vida e discurso turbina sua credibilidade. Nos últimos anos, em mais uma prova de superação, Oscar enfrentou um tumor no cérebro e passou por duas cirurgias e muitas sessões de quimioterapia. Chegou a pensar que a morte estava próxima. Hoje, está forte como um touro.

Ele começou sua nova carreira em 2003, assim que abandonou as quadras. “No início era só um famoso que fazia palestras”, lembra. Começou com duas, uma longa chamada Lições de Vida, e outra mais curta, Trajetória.

Nessa época, tinha dificuldades com a organização das ideias e a estruturação do discurso. Para resolver o problema, contou com o apoio do consultor especializado João Cordeiro, que o ajudou a dar forma a outras três palestras. “Hoje tenho 12, montadas com começo, meio e fim, mas só quero fazer seis, é o suficiente”, afirma.

Oscar fala das bases da liderança e dos seus cinco valores fundamentais: a visão, a capacidade de decisão, o time, a obstinação e a paixão. Ele consegue transmitir o clima de uma final de basquete nos palcos onde pisa. Seus discursos têm humor e emoção. Hoje, ganha mais dinheiro do que como jogador. “Sempre tento melhorar minha fala, tirar vícios de linguagem e aperfeiçoar a postura no palco”, afirma. “Minha missão como palestrante é fazer com que meu público se sinta bem e recompensado por ter estado na minha apresentação. E saia dali querendo fazer mais.”

 

Carlos Wizard

Carlos Wizard Preço médio da palestra: Não divulgado

Preço médio da palestra: Não divulgado (Zé Vicente/)

No mundo do empreendedorismo, o palestrante mais popular e motivador da atualidade é o empresário de 60 anos. Bilionário e religioso, o mórmon Carlos Wizard começou a dar aulas particulares de inglês em casa, junto com a mulher.

Foi o primeiro passo para a construção de um império de escolas com seu nome, vendido em 2013 para a multinacional da educação Pearson PLC por 2 bilhões de dólares. De lá para cá, fez novas aquisições e multiplicou sua fortuna.

Nascido em Curitiba, filho de um motorista de caminhão e uma cozinheira, Carlos aprendeu inglês com missionários e, aos 17 anos, com 100 dólares no bolso, foi para Utah, sede da Igreja Mórmon, nos Estados Unidos. Antes de voltar para o Brasil, aos 21, passou dois anos na Europa em missões assistenciais. “Quando apresento meus temas às plateias, relato as experiências que passei, os desafios que enfrentei e como fiz para superá-los”, conta.

Wizard acredita que o empreendedorismo é o melhor caminho para quem quer mudar sua condição social e financeira. Da mesma forma que fez com os filhos, em suas palestras ele procura mostrar o valor da preparação acadêmica, autossuficiência, integridade, importância da família e fé. “Costumo dizer que o sucesso acontece quando a preparação encontra a oportunidade.”

Não dar ouvidos a pessoas negativas é um dos principais conselhos do empresário, que ensina sete lições para quem quer vencer. Desapegar-se de algum passado frustrante é a primeira delas. Depois vem o aumento da autoestima com a constante busca da renovação pessoal. O terceiro passo é estabelecer uma meta financeira e persegui-la incansavelmente, e o quarto, montar um negócio capaz de atender o mercado em larga escala.

Além disso, é necessário formar um time campeão, porque ninguém faz nada grande sozinho, e saber poupar, que é mais importante do que saber ganhar. Em sétimo lugar, Wizard aconselha a buscar sua origem divina. “Quando a pessoa leva uma vida de fé, adquire um grau de inteligência superior”, acredita.

O empresário faz pelo menos uma palestra por mês no Brasil e, em geral, mais uma no exterior, em países como Estados Unidos e China. Além de fluente em inglês e espanhol, ele também começa a fazer apresentações em mandarim.

Um dos desafios que Wizard procura superar é o de sair do senso comum, já que o número de palestrantes que tratam de empreendedorismo não para de crescer. “Mas também há palestrantes que aparecem com fórmulas mágicas para quem quer alcançar o sucesso sem nunca ter estado à frente de uma empresa”, afirma.

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