Partido Novo: ideias e personagens que querem vencer em 2018

Emplacar um nome conhecido como presidente é o sonho deste grupo formado por não políticos, cuja proposta é convencer que é, de fato, o novo para 2018

 (Lézio Júnior/Revista VIP)

Em junho deste ano, o americano Francis Fukuyama, professor de ciência política da Universidade Stanford, disse à revista EXAME que as mudanças que a política brasileira exigia não poderiam ser feitas pelos atuais comandantes do país.

“O Brasil precisa de uma nova geração de políticos que não esteja atrelada ao velho jeito de fazer as coisas e empenhada em agir de modo diferente.”

A opinião do autor de O Fim da História e o Último Homem, que poderia soar como um tenebroso clichê, é música para os ouvidos do carioca João Dionísio Amoêdo, fundador do Partido Novo.

É exatamente o que ele vem dizendo incessantemente nos últimos dois anos. Mais: é com o que ele e seu partido vão tentar ganhar sua simpatia e seu voto ano que vem.

Aos 54 anos, engenheiro civil e administrador por formação, Amoêdo combina afabilidade com a boa forma de quem já disputou Ironman e corre maratonas desde 1981.

Criado em uma família de classe média carioca, fez carreira no mercado financeiro. “Tinha uma linha de pensamento sobre em quem votar, mas nunca estava satisfeito. Na maioria das vezes, saía para votar no menos pior”, relembra.

Em 2009, esse jogo começou a virar. “Achei que, como cidadão, deveria fazer alguma coisa. Era preciso ter outros tipos de liderança na área pública. E concluímos: se a gente quer mudar alguma coisa, não tem jeito, vamos fazer essa maluquice que é montar um partido.”

João Dionísio Amoêdo: fundador e possível candidato do Partido Novo

João Dionísio Amoêdo: fundador e possível candidato do Partido Novo (Marcus Steinmeyer/Revista VIP)

A gente, no caso, era um grupo de 181 pessoas que fundou o Partido Novo em dez estados brasileiros em fevereiro de 2011 – o registro oficial do TSE veio em setembro de 2015.

A ideia central é a de um Estado mínimo que pouco interfira na vida e nas finanças das pessoas. Que seja administrado com a eficiência e a correção que a iniciativa privada exige, origem de boa parte do núcleo que fundou o partido.

Nenhum integrante do Novo recebe salário, e o partido ainda pretende devolver o que recebeu do Fundo Partidário até agora, cerca de 2,3 milhões de reais – o dinheiro está aplicado em um Fundo CDI no Banco do Brasil. O modelo é o de um partido político que se sustente com doações de seus 12,5 mil filiados.

Mas, até que isso se consolidasse, a implantação da sigla consumiu mais de 4 milhões de reais do patrimônio da família Amoêdo. A fundo perdido.

Novo famoso

O engenheiro sabe que um dos principais pontos para sua sigla é fazer-se conhecida. E botou seu bloco na rua.

Suas ideias conquistaram o ex-jogador e técnico de vôlei Bernardo Rezende, o Bernardinho. O campeão olímpico é o primeiro e – por enquanto – único nome conhecido nacionalmente filiado e integrado ao Novo que vai disputar as próximas eleições.

Mas houve (e ainda há) muita especulação em torno de outros nomes, como o do apresentador Luciano Huck e o do prefeito de São Paulo João Doria, hoje no PSDB.

Especialmente depois de uma entrevista concedida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à Folha de S. Paulo, em maio, na qual ele afirmou que “o novo” no cenário político é representado por figuras como ambos.

Nenhum dos dois reconhece abertamente que almeja enfrentar as urnas em 2018, menos ainda pelo Novo. Mas, recentemente, Luciano Huck participou de um evento da Fundação Estudar, mantida pelo empresário Jorge Paulo Lemann, em que, segundo a coluna Radar, da revista VEJA, surpreendeu pela desenvoltura com que falava sobre política, particularmente a francesa.

Ele chegou a sugerir que o Brasil adotasse um cronograma eleitoral semelhante ao do país europeu, em que o presidente é escolhido uma semana antes dos demais parlamentares, numa eleição à parte – ideia, aliás, bem recebida nos bastidores do evento.

Único (até agora) nome conhecido nacionalmente a integrar o novo, bernardinho virou uma espécie de porta-voz do partido. vai sair candidato, mas não se sabe ainda a qual cargo

Único (até agora) nome conhecido nacionalmente a integrar o novo, bernardinho virou uma espécie de porta-voz do partido. vai sair candidato, mas não se sabe ainda a qual cargo (Lézio Júnior/Revista VIP)

Verdade que Huck já esteve conversando com o partido de Amoêdo. “Contei a ele do Novo e ele se interessou em saber um pouco mais. O Luciano gostou das ideias, mas acho que a política não é a pauta principal dele”, desconversa o engenheiro, garantindo que não chegou a fazer um convite ao apresentador.

Já os boatos em relação ao prefeito paulistano João Doria surgiram quando ele substituiu Soninha Francine por seu amigo Filipe Tomazelli Sabará, filiado ao Novo, na Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social.

“Tive um ou dois contatos com ele”, revela Amoêdo, quando pergunto se Doria seria um bom nome para disputar a Presidência pelo partido. “Parece uma pessoa muito alinhada com as ideias do Novo, e vem fazendo um bom trabalho em São Paulo. Mas ainda é cedo e ele me pareceu uma pessoa muito próxima do PSDB. A gente está vendo a importância que ele vem ganhando dentro do partido”, diz.

Por outro lado, firme e forte em suas convicções em relação ao Novo, Bernardinho tornou-se uma espécie de porta-voz do partido e tem viajado pelo país para divulgá-lo. No entanto, não deve ser o nome do Novo para a Presidência 2018.

A imprensa política divide-se: publicou que o técnico seria candidato ao governo do Rio e também que sairia para o Senado – oficialmente, o Novo diz que não há definição sobre a candidatura.

Em tom irônico diante das especulações políticas, a empresária e ex-jogadora Fernanda Venturini, mulher de Bernardinho, contou ao jornal O Globo em junho como previa uma carreira como primeira-dama da nação.

“A gente está empolgado com o Partido Novo. Mas quando falam sobre ele ser governador, até presidente, eu acho precipitado. Eu acho que não ia durar uma semana como primeira-dama: se sacasse que tinha corrupção, roubalheira, já ia comprar briga.” O verbo sacar, ao que tudo indica, foi usado sem duplo sentido.

É bom para o moral

O Partido Novo ocupa, sem muito alarde arquitetônico, um andar em um prédio comercial no sofisticado bairro do Itaim Bibi, em São Paulo.

Quando conversamos, em junho, na sala de reuniões do escritório, João Amoêdo ainda era o titular da presidência do partido, que ele deixou no mês seguinte e hoje é ocupada por Moisés Jardim. Dentre as novidades da casa está a resolução de que candidatos não podem ter cargo de direção no Novo, e ele, ao que parece, tem pretensões eleitorais.

Como o jumento e o cavalinho, as ideias liberais nunca andam só. Quando saem para passear, em alguma esquina acabam esbarrando em posturas conservadoras nas questões comportamentais.

Amoêdo acredita que discussões típicas do nosso tempo, como a da violência de gênero, por exemplo, são em parte reflexo de um Estado que supervaloriza certas polêmicas para poder aparecer como juiz do processo.

“Em vez de cuidar da violência como um todo, o Estado quer cuidar da violência contra a mulher, contra o gay, enquanto o número de assassinatos continua explodindo no país”, compara. “Homem e mulher, por exemplo: por que a necessidade de se criar essa pauta se a gente tem problemas que estão na faixa superior para serem resolvidos?”, questiona.

Ele também não enxerga relação entre criminalidade e pobreza. “Acho que é questão de índole, de impunidade, de uma atuação lenta da Justiça. Hoje existe uma tendência em alguns segmentos da sociedade de tentar justificar o crime com questões sociais, quando a grande maioria não é isso”, argumenta.

Embora não seja candidato oficial a nada em 2018, o prefeito paulistano parece estar em franca campanha país afora. E o novo é sua cara

Embora não seja candidato oficial a nada em 2018, o prefeito paulistano parece estar em franca campanha país afora. E o novo é sua cara (Lézio Júnior/Revista VIP)

Quando o tópico é consumo de drogas ou aborto, a discussão é mais livre. “Nas questões que abrangem aspectos morais e religiosos, a gente não gostaria que o partido impusesse uma decisão sobre a opinião das pessoas”, sintetiza.

Antes de achar que o Novo pode estar em algum momento abraçado ao que há de mais velho na política brasileira em termos de ideias, Amoêdo joga uma luz nessas trevas ideológicas. “Algumas questões nós já consideramos referendadas. Do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, o partido já se posicionou a favor.”

É como aquela velha banda punk do Rio Grande do Sul já dizia: seja punk, mas não seja burro.

Um museu de grandes novidades

A sedução pelo Novo é recente, mas o encantamento pelo novo é bastante antigo. Nas artes, na vida e na política.

Às vésperas do centenário da Revolução Russa, vale lembrar do poeta Vladimir Maiakóvski, que, apenas quatro anos depois dos bolcheviques terem tomado o poder, escreveu corajosamente: “Dai-nos, camaradas, uma arte nova/ – nova – / que arranque a República da escória” (alguém há de lembrar que ele também escreveu “odeio a morte e seu mortiço/ adoro aquilo que é vida” em 1924 e se matou seis anos depois, mas esse é outro problema).

Getúlio Vargas fundou em 1937 o Estado Novo. O movimento mais interessante do nosso audiovisual foi batizado na década de 50 de Cinema Novo. Cazuza celebrou a Nova República no palco do primeiro Rock in Rio, em janeiro de 1985, quando da eleição indireta de Tancredo Neves. Fernando Collor de Mello foi eleito diretamente em 1989 pelo Partido da Reconstrução Nacional, como artífice de um Brasil novo.

Ou seja, no fundo não há nada de muito inédito no novo. O que há são tempos mais propícios para ele despontar, e o Brasil pós-Lava Jato é certamente um deles.

“A visão que se constrói de que há um grande problema e que todos estão mergulhados nele faz com que ressurja a esperança quando alguém chega prometendo fazer diferente”, analisa Iolete Ribeiro da Silva, secretária da Região Norte no Conselho Federal de Psicologia (CFP).

Segundo ela, o encantamento pelo novo é a oportunidade cômoda de crer na mudança sem precisar se responsabilizar por ela. Cômodo ou não, certamente poucas vezes houve terreno tão fértil para o novo, e, com ele, o Novo, como aqui e agora.

Uma pesquisa da empresa Ideia Big Data encomendada pelo movimento Agora! informou, em julho passado, que 79% dos eleitores desejam ver novos nomes na eleição de 2018. O cenário que se desenha por aqui não é diferente do visto recentemente em países como França e Espanha.

Lá, os partidos tradicionais vêm perdendo força e novas siglas conseguem eleger seus nomes não só para as cadeiras do Parlamento, como para a própria Presidência – caso recente de Emmanuel Macron, um desconhecido que lançou um novo movimento político, o En Marche!, e terminou, aos 39 anos, virando o mais jovem eleito presidente francês.

Emmanuel Macron: o mais jovem presidente da França

Emmanuel Macron: o mais jovem presidente da França (Jose Jimenez/Getty Images)

Por aqui, até quem já não consegue mais disfarçar as marcas da vida anda apelando para uma boa maquiagem. Os pequenos PTN e PTdoB passaram a se chamar, respectivamente, Podemos e Avante. E até o combalido Partido Progressista tem projeto para se chamar apenas Progressistas em 2018.

Mas é inegável que, entre as novidades de 2018, a principal expectativa é em torno da performance do partido de João Amoêdo.

“O perfil do Partido Novo tende a crescer em situações polarizadas, porque tem nomes experientes do mercado financeiro, e isso pesa em contextos nos quais a principal crítica ao Estado é a má gestão”, analisa Jacqueline Quaresemin, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e especialista em opinião pública.

“Se o Novo explorar o vácuo causado pelo desencantamento da política e se afastar minimamente do conservadorismo ‘bélico’, tende a crescer em um determinado segmento da população economicamente ativa”, projeta a professora.

“Um fato positivo é que o Novo é um partido liberal, e não há uma sigla que defenda essa agenda de fato no Brasil possivelmente desde o Império. Ao mesmo tempo, por ser um partido ideológico, há um tanto de ingenuidade no que defendem, como, por exemplo, ir contra a profissionalização da política”, avalia Glauco Peres da Silva, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo.

Para o acadêmico, outra novidade que o partido propõe pode ser um tiro no pé. “Abrir mão do dinheiro do Fundo Partidário me parece uma estratégia suicida, em boa medida porque seus competidores, os partidos do mesmo tamanho, estarão saindo na frente com muito mais dinheiro. A não ser que o Novo esteja mirando numa estratégia de 20, 30 anos e não pretenda eleger ninguém agora”, analisa Silva.

Amoêdo garante que manter distância do Fundo é essencial para a sobrevivência do partido. “Se uma revista não tiver boas entrevistas, o sujeito não compra, não tem publicidade e ela fecha. Uma das garantias de que o Novo vai manter suas convicções é o fato de não usar dinheiro público. Assim, se ele se desvirtuar, os filiados vão embora, quem vota nele deixa de votar e o partido acaba”, conclui.

Os 300 de Brasília

O Novo já tem certa história. Em 2016, concentrou suas primeiras campanhas em cinco capitais e elegeu quatro vereadores, em Porto Alegre, Rio, São Paulo e Belo Horizonte – só em Curitiba eles não venceram.

“O Brasil é enorme, e ser liberal em um contexto é diferente de sê-lo em outro. É como nos Estados Unidos: um democrata no Texas não é o mesmo que um democrata em Nova York”, contextualiza o professor da USP.

“O Novo pode ter muita dificuldade para entrar em algumas regiões do país, quando terá de se adaptar ou ficará restrito a determinados centros.” Ou seja, quando entrar na política real em nível nacional, o partido terá de botar seu discurso em prática – e aí está seu principal desafio.

“Política passa por fazer acordo, e você faz acordo com quem discorda. A questão é que tipo de acordo o Novo estará disposto a fazer sem mudar seus princípios”, aponta Silva.

Recentemente, Luciano Huck participou de um evento da Fundação Estudar e surpreendeu pela desenvoltura com que falava sobre política, particularmente a francesa

Recentemente, Luciano Huck participou de um evento da Fundação Estudar e surpreendeu pela desenvoltura com que falava sobre política, particularmente a francesa (Lézio Júnior/Revista VIP)

Outra novidade implantada em 2016, o processo seletivo para candidatos está na terceira etapa, avaliando com testes e entrevistas os postulantes a postulantes pelo partido à Câmara e ao Senado.

“Deveremos ter cerca de 300 candidatos aprovados em provavelmente 16 estados, além de candidatos aos governos de quatro a sete estados e a deputados estaduais nesses locais. E o Novo também terá uma candidatura à Presidência da República”, assegura Amoêdo.

“A gente não tem um nome dos sonhos, mas o perfil seria o de alguém alinhado com as ideias do Novo, que seja um líder, com capacidade de montar equipe e melhorar o país.”

O nome perfeito não apareceu ainda. Mas, como já dizia aquela bela e triste canção de Stephen Stills dos anos 70, se você não pode estar com quem ama, ame quem está com você. “Provavelmente, se decidir me candidatar, apresentarei ao Diretório um pedido de pré-candidatura à Presidência”, conta o fundador do Partido Novo.

Amoêdo presidente, você leu primeiro aqui.

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