Testamos a pílula russa que promete acabar com a ressaca

Medicamento diz curar o mal-estar causado depois de beber uma garrafa inteira de scotch. Trazemos boas e más notícias. Mas está difícil lembrar das boas...

pílulas

 (Pixabay/Reprodução)

O jornalista americano Mark Rahner, de Seattle, tomou o RU-21 e pisou fundo em seu jaca-acelerador.

Enxugou uma série de martinis com gim e concluiu a reportagem para o vetusto Seattle Times assim, com uma dose de culpa: “Não acordei me sentindo 100%, mas também não vivi o horror gritante que deveria e merecia estar vivendo pelo tanto que bebi”.

Michael Delmare, um ator que trabalhou nos shows de Madonna, também experimentou e disse ao site da rede americana ABC News: “Essa pílula é cool e é chique. Não tenho mais ressacas depois de uma noitada”. (Tudo bem, esse não pareceu dos mais confiáveis…)

Mas as revistas Rolling Stone e GQ publicaram notas empolgadas sobre o produto, e o respeitável jornal inglês The Guardian o saudou bem alegrinho…

Foi assim, sob o impacto desse efeito “corrente”, que ficamos sabendo da existência do suplemento vitamínico RU-21, um remédio que não ousa se dizer remédio, mas que promete ser a alforria do fígado para milhões de hepatossádicos mundo afora.

À venda nos EUA, é fabricado por uma empresa chamada Spirit Sciences USA Inc. (sugestivo: a palavra spirit em inglês também significa “destilado”) e teria sido desenvolvido durante os anos 80 por cientistas soviéticos, a fim de proteger o fígado dos agentes da KGB.

A troco de que os arapongas de Brejnev precisariam de uma droga dessas? Ora, bolas! Para poder sentar numa mesa com um colega da CIA e beber ensandecidamente até que o americano entrasse naquele estágio de repetir que era amigo “pacaramba” do mano Vladimir em questão.

Não estamos inventando, não: essa é a explicação oficial, que segue dizendo que o trabalho científico não tinha dado certo completamente, afinal o RU-21 não impede a embriaguez, apenas a ressaca.

Esse valioso segredo teria caído nas mãos do mundo livre somente em 1999.

O nome, RU-21, faz um trocadilho com o domínio da Rússia na internet, .ru, e com a frase “você tem 21 anos?”, mantra que todo barman é obrigado a repetir para quem compra bebidas alcoólicas nos Estados Unidos, mesmo que o freguês seja o Ronald Reagan (que não conseguiria responder à pergunta, he he).

Tudo indicava estarmos diante de uma tremenda picaretagem, mas um certo espírito de época parecia, tal qual um universo de Paulo Coelho, conspirar a favor da ilusão.

Primeiro tinha vindo o Viagra, alegria para milhares de coraçõezinhos (e outros órgãos) masculinos aflitos. Depois, o Xenical, liberando gordões e belugas para orgias sem culpa nem ganho de peso.

Por que deveríamos duvidar do RU-21?

aparencia-ressaca-cuidados-pessoais-vip

 (Reprodução/)

Bem, como ele espertamente não tem a pretensão de ser chamado de remédio, a Food and Drug Administration, órgão que regulamenta e fiscaliza os medicamentos nos Estados Unidos, permite sua venda livre.

Mal não iria fazer. Encomendei três caixas e convenci um colega a viajar nesse balão.

O RU-21 chegou prometendo cinco coisas na embalagem: 1) bloqueia o acetaldeído; 2) previne ressacas; 3) apóia a saúde do DNA das células; 4) apóia o sistema nervoso central; 5) protege a pele de danos provocados pelo álcool.

Um asterisco alerta: nenhuma dessas afirmações foi atestada pela FDA. Em outras palavras: é tudo brincadeirinha. A história da “saúde do DNA das células” não faz sentido do ponto de vista científico, mas o tal do acetaldeído é bola dentro.

Bem, pode ser… “Se alguém descobrir algo capaz de eliminar o acetaldeído, os efeitos do álcool serão minimizados, sim”, explica o gastro-hepatologista Mario Kondo, professor da Unifesp.

Isso significa, porém, que diminuiriam tanto a ressaca quanto o melhor da festa – a embriaguez. “O acetaldeído é realmente o vilão das doenças do fígado”, prossegue o doutor.

O problema é que, como ele mesmo diz, não há nada na literatura médica que indique que os componentes do RU-21 consigam cumprir tal missão.

Ele é feito de glutamina, ácido fumárico, ácido succínico e nossa boa e velha amiga vitamina C. “Não vejo lógica. Nenhum desses elementos tem desempenho enzimático comprovado na eliminação e absorção dos acetaldeídos.” Tsc, tsc.

Isso não impediu que eu e Selig saíssemos todos lampeiros para uma noitada de quinta-feira no Bar Brahma, no centro de São Paulo. Nos acompanhou na missão, também faceirinho, o repórter fotográfico Marcos Hermes.

Começamos com chopinhos, um carpaccio, frios e queijos para fazer a base. Selig decidiu, arbitrariamente, à la Stalin, que o teste se daria com uma garrafa de scotch. Uma boa vodca russa seria cientificamente mais adequada, mas isso não nos ocorreu na hora.

A garrafa pousou na mesa às 22h02 e fomos enxugando, devagar feito dois Rubinhos. Com 8 minutos, Marcos Hermes já tinha derrubado acidentalmente sua dose.

Mandamos o cara trabalhar e não se meter no fato jornalístico que tinha vindo registrar. Seguimos as instruções da caixinha do RU-21: a cada duas doses, uma pilulinha. Se fosse em outro ambiente, poderiam desconfiar de dois caras metendo comprimidos goela abaixo a toda hora.

Mas ali, ao som de um trio de piano, baixo e bateria tocando standards do jazz, ninguém desconfiou de nada. Às 22h20, eu já estava na terceira dose (Rubinho não é mole, não, o alemão é que é impossível…), um pouco à frente do nosso editor-sênior.

Lá pelas 23h19, ele pronunciou a seguinte frase: “Tirando duas coisas, pode tirar tudo o que é meu”. O contexto é obscuro e o Selig também não se lembra direito por que disse isso, mas vale o registro.

Informado da natureza de nossa missão, o garçom Fabiano Assef suspirou, invejoso: “Rapaz, eu precisava arranjar um emprego desses…”
Selig tomou a dianteira e só consegui chegar junto lá pela sexta dose.

Um pequeno erro de cálculo ao servir me fez ultrapassá-lo: a oitava caiu junto com a sétima no meu copo… A partir daí, os apontamentos no caderninho se tornaram ilegíveis e as memórias, nebulosas. Chegamos juntos ao fim da garrafa, que coisa linda!

E o homem, incansável, ainda partiu para um charutinho. No final, escreveu no meu bloco, sacaneando o cronograma que eu re-gistrara: “00h59 – Dar a b… ouvindo Caravan”. Ah, a delicadeza de Duke Ellington… Era a deixa para dar o fora.

No dia seguinte, a lógica: ela, a ressaca, veio feito um furacão Catarina (leia os detalhes sórdidos nos boxes abaixo) e varreu as esperanças de nossos corações e fígados. Quem mandou deixar para entrevistar o russo que inventou essa porcaria em cima da hora?

No dia seguinte, na minha caixa postal, estava o e-mail de Emil Chiaberi, diretor executivo da Spirit Sciences, explicando um monte de coisas.

A mais importante delas e a única que vale a pena reproduzir aqui: o RU-21 não é uma licença para detonar e na verdade se destina para “pessoas que têm problemas para digerir um ou dois drinques”.

Aaaaaah! Como diria Galvão Bueno, eu já sabiiia! Mas de que outra forma a gente iria arrumar um pretexto tão bom para beber a trabalho?

Caco bêbado

 (Pixabay/Reprodução)

De volta aos 18 aninhos de idade

Qualquer um que tenha razoável experiência no universo “manguaçático” sabe que não adianta apelar pro santo, pra qualquer divindade, Baco, St. Patrick, São Benedito, Mussum… Não, todos sabemos, não há remédio pra ressaca, pelo menos que seja 100% eficiente.

Foi daí que minha frustração com esse remédio russo não veio apenas do fato de eu ter ficado um dia inteiro zumbi, como não ficava desde os 18 anos.

E, pior, zumbi com uma fenomenal azia soviética.

No dia seguinte ao desse bem-intencionado mergulho no jornalismo investigativo, que eu e o Pedro empreendemos em respeito ao sofrido povo dos bares tupis, fui acometido de uma depressão de dimensões siberianas, que quase me levou ao analista.

Isso porque – meio vesgo, com os olhos embotados, um vulcão no esôfago e um tremor de britadeira nas pernas – constatei que quatro décadas de vida, duas delas dedicadas socialmente aos segredos de Dioniso, não serviram pra evitar que eu me sentisse um otáriopor acreditar em milagres.

Me engana que eu golfo

Outras receitas para ressaca que não funcionam

Rassol

É uma receita tradicional russa: água de repolho fervido com sal. Existe até uma versão enlatada, cujo slogan é “Volte à vida”.

Bebe-se gelada e é incrementada com água gaseificada, suco de beterraba e algumas ervas. Mas sem tirar o repolho, que é pra manter o gás…

Sob’r-K

É outro pseudo-remédio maluco vendido nos EUA. Tem um carbono ativado que, dizem, age como absorvente nos intestinos, por onde a maior parte do álcool é absorvida pelo corpo.

Não dá para confiar: afinal, seu fabricante, traíra, fatura vendendo kits de bafômetros.

Fatias de limão

Dizem os ingleses que é uma terapia “holística” para a ressaca: você pega as fatias e esfrega nos sovacos. Não faz sentido? Quando você está de ressaca, nada faz sentido mesmo.
Prairie oyster

Um clássico. A chamada “ostra da pradaria” mistura claras batidas com um pouco de conhaque, molho inglês, Tabasco e vinagre branco, um pouquinho de suco de tomate, sal e pimenta.

Mexa e taque a gema em cima, com o cuidado de não quebrá-la.

Vire tudo no estilo caubói. (Deve funcionar: você vomita em seguida e elimina boa parte do álcool que estava no seu estômago.)

Tinha que ser russo.

Alcoolismo com razões históricas

• Há cerca de mil anos, o príncipe Vladimir, da Rússia, decidiu converter o país a uma religião monoteísta. Balançou entre o islamismo e o cristianismo, mas decidiu mandar Alá tomar Parati com o seguinte raciocínio: “Que a Rússia daqui em diante viva em orgia e bebedeira – algo de que não conseguimos nos privar”.

• A primeira campanha contra o álcool na Rússia foi lançada pelo czar Nicolau 2o em 1914. Deu no que deu: revolução comunista. E o pior é que em 1916, um ano antes da casa cair, o povo já estava recorrendo a substitutos barra-pesada: vagabundo ficava bebum com solvente!

• Em 1987, foi a vez de Gorbachev fracassar contra a vodca. Na Rússia é assim: sempre que um regime resolve que o povo tem de aturá-lo de cara limpa, vai pro saco.

• Segundo as estatísticas oficiais, os russos têm um consumo per capita de álcool menor que o da Alemanha, o da França e os dos países escandinavos. Mas quem é que acredita em estatísticas oficiais russas?

Raul, amigo das horas incertas

Acordei às 7h da manhã ainda com o cérebro Gagarin, em órbita. Salvou-me aquela sabedoria que só se adquire com o tempo: 36 anos de idade e 20 de convivência com ela, a ressaca, servem para alguma coisa nessa hora. Logo vi que, sem recorrer a meu velho amigo Raul, o dia seria longo e sofrido como um discurso do Fidel Castro.

Fui ao banheiro e convoquei o roqueiro baiano sem recorrer a sessão espírita, usando apenas um dedo amigo, o indicador. Com muita serenidade.

Voltei para a cama e consegui dormir até as 9h30. Não vou mentir dizendo que acordei 100%, mas deu para chegar à redação em horário razoável e passar o dia todo exercitando o nobre esporte da compaixão: era só olhar a cara do pobre Seligman, sofrendo feito um Cristo de Mel Gibson.

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