Uso comercial do Haka causa revolta entre povo maori

Parte essencial da cultura e da identidade dos maori, a dança tradicional é vista na mídia como um show pitoresco, sem que as pessoas conheçam suas as raízes

O Haka, famosa dança ritual que virou marca registrada da seleção neozelandesa de rúgbi, faz a alegria da torcida e dos patrocinadores, mas seu uso comercial descontrolado não é visto com bons olhos pelo povo maori, que acusa os ‘All Blacks’ de lucrar com suas tradições.

Publicidade para vender cerveja japonesa, para promover uma inauguração de um shopping ou de uma loja de artigos esportivos na Inglaterra… No clima festivo da Copa do Mundo de Rúgbi, o Haka aparece de tudo quanto é jeito.

Parte essencial da cultura e da identidade dos maori, a dança tradicional é vista na mídia como um show pitoresco, sem que as pessoas conheçam suas as raízes, lamenta o ministro do Desenvolvimento da Nova Zelândia, Te Uruora.

“As pessoas não entendem do que se trata, é uma pena”, concorda Kahu Ropata, conselheiro cultural da tribo maori Ngati Toa, criadora do Haka ‘Kama Te’, o mais usado pelos ‘All Blacks’ antes das partidas.

“O Haka não foi criado para gerar lucro. Deveria se tratado com mais respeito”, critica.

“Usamos o Haka para nos expressar em diversas ocasiões, como, por exemplo, para acolher as pessoas, se despedir dos mortos, celebrar vitórias ou mostrar o nosso orgulho”, descreve o conselheiro cultural.

Assunto sério

A polêmica já existe há muitos anos. Em 2009, a Ngati Toa conseguiu sua primeira vitória nos bastidores, com a decisão das autoridades neozelandesas de restituir à tribo a propriedade intelectual da dança.

Mesmo assim, o ritual continua sendo reproduzido em paródias de gosto às vezes duvidoso, em operações comerciais que não têm nada a ver com o rúgbi.

Por mais que seja detentora dos direitos intelectuais na Nova Zelândia, a tribo não tem controle sobre o uso do haka em outros países.

Pouco antes da Copa do Mundo, uma paródia do ex-jogador inglês Matt Dawson fez sucesso na internet, mas gerou a revolta das tribos maoris.

O assunto é levado muito à sério na Nova Zelândia, onde foi aprovada no ano passado uma lei para que a tribo Ngati Toa seja informada cada vez que o Kama Te será usado.

A federação do país firmou um acordo com a tribo, que recebeu os jogadores para uma cerimônia festiva antes da Copa, perto da capital Wellington.

Provocações

O problema é que a lei não tem vigência além das fronteiras, e o peso da tradição acaba sendo derrubado pelo apetite comercial.

De acordo com Ropata, o governo precisa promover iniciativas para divulgar a essência do Haka no exterior.

Técnico da seleção do País de Gales, o neozelandês Warren Gatland incentivou os jogadores a interagir com os ‘All Blacks’ durante o Haka.

Os galeses responderam ao ritual ao olhar os adversários nos olhos durante dois minutos. Longe de ser um sinal de desrespeito, o gesto condiz com a tradição maori.

“Na verdade, neste contexto, o Haka é uma provocação, à qual se espera uma reposta. Se você não responde, de acordo com a cultura maori, você deixa eles levarem vantagem”, explica o professor neozelandês Timoti Karetu.

Adversária dos ‘All Blacks’ nas quartas de final do Mundial, no próximo sábado, a França já tentou responder à ‘provocação’ várias vezes.

Na final da Copa do Mundo de 2011, na Nova Zelândia, a equipe se posicionou em forma de V, de vitória, durante o Haka, mas acabou amargando o vice-campeonato ao perder por 8 a 7.

No Mundial de 2007, no entanto, a estratégia acabou dando certo. Os ‘Bleus’ deram alguns passos à frente quando o ritual começou, ficando a poucos centímetros dos adversários, e acabaram conseguindo uma grande vitória nas quartas de final, em Cardiff (20-18).

Apesar das críticas pela exploração do Haka com fins comerciais, a tribo Ngapi Toa se orgulha do fato da equipe ter usado o ‘Kama Te’ em todas as partidas da edição atual da competição.

Em jogos de mata-mata, os ‘All Blacks’ preferem outra versão, mais guerreira ‘Kapa o Pango’, que costuma terminar com gesto de degola.

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