Viajar de trem pela Itália: conforto e beleza inesquecíveis

Confira o roteiro precioso para quem quer curtir uma viagem inesquecível pela "bota" com comodidade e muitas vistas incríveis

Trem italiano

 (Pixabay/Reprodução)

Tudo bem que belos cenários passando em borrão pela janela não são exclusividade italiana, mas expresso perfeito no trem em movimento… só na Itália. 

Essa é uma particularidade das ferrovias italianas que eu descobri viajando sozinha de trem pelo norte do país.

Um roteirão de turista com brechas flexíveis de horários e destinos, usando um só passe de trem, o rail pass.

Esses passes unificam o sistema de centenas de companhias e estão disponíveis em várias modalidades.

O Global Pass, da Eurail, por exemplo, permite uma viagem entre 28 países do continente por até dois meses seguidos.

O produto era tão companheiro de viagem de mochileiros quanto os guias de papel da Lonely Planet até a década de 1990.

Nas parou de fazer sentido quando as companhias ferroviárias locais passaram a vender passagens promocionais com reserva prévia, pela internet.

Além da concorrência das companhias aéreas de baixo custo e das inúmeras condicionantes de horário, bagagem e destinos das empresas aéreas.

Quem é organizado ou viaja com pacotes fechados, economiza mais comprando passagens antecipadas direto com as ferroviárias, como a italiana Trenitalia.

Mas para quem vai pular de um trem para outro com liberdade de horários e possibilidades, o rail pass ainda é a melhor opção.

Era esse o meu caso.

Viajando sozinha e com chance de mudar roteiros ao sabor do acaso e da vontade que der na telha, estar presa a reservas prévias e calendários engessados não era opção.

Flexibilidade, afinal, é parte da graça de viajar de trem.

 

Tempos de budget

O bucólico e o medieval: o roteiro italiano é um desbunde visual, do litoral ao interior do país (Imagem: Divulgação) O bucólico e o medieval: o roteiro italiano é um
desbunde visual, do litoral ao interior do país (Imagem: Divulgação)

O bucólico e o medieval: o roteiro italiano é um<br / (/)

Há todo um romantismo em torno das viagens ferroviárias.

Talvez seja o vento agitando o tecido do trench coat enquanto você ouve o apito da locomotiva chegando na plataforma, ou a eterna possibilidade de viver um Antes do Amanhecer, o clássico moderno do diretor Richard Linklater.

Romantismo à parte, viajar de trem é uma arte ameaçada por companhias aéreas budget como Ryanair e EasyJet, que ganharam  grupos volumosos de turistas barulhentos.

Mas perrengue aeroviário hoje só é justificado por grandes distâncias.

Quando se trata de conforto e praticidade, trem é imbatível.

Primeiro porque você não precisa chegar duas horas antes, pegar a fila do check-in, a fila (mais uma) do portão de embarque, a fila (outra) para sentar ou a fila (talvez não a última) para sair da aeronave. 

Para o consultor de viagens Ricardo Freire, “o trem é a expressão máxima da civilização europeia: eficiente, charmoso, democrático, tradicional mas em permanente modernização”.

E o escritor inglês Paul Theroux, sumidade da viagem de trem no mundo (atravessou Américas, Europa, Ásia e África sobre trilhos, escrevendo uma porção de livros), sentencia:

“Tudo é possível num trem: uma grande refeição, a binge, um jogo de cartas, uma intriga, uma boa noite de sono e diálogos de estranhos saídos de contos russos”.

 

O rail pass é a melhor forma de explorar um país mantendo controle sobre o roteiro

Trem italiano

 (Pixabay/Reprodução)

Existe um calendário de chegadas e saídas e tudo que você precisa fazer é estar na plataforma certa, na hora certa, com sua bagagem.

Falando nela, o limite de bagagem em trem é o limite do seu bom senso: a não ser que você seja um cavalheiro do século 18 viajando com um valete, ninguém vai carregar suas tralhas vagão acima.

Seja elegante e leve apenas o que puder carregar e acomodar na cabine.

 

Vicissitudes ferroviárias italianas

Nunca viajei de trem na Suíça, mas posso imaginar que é muito funcional e agradável.

Sei que nos EUA as passagens da Amtrak são excessivamente caras.

E sei que na Índia o sistema de trens e passagens pode beirar o incompreensível. 

A Itália tem suas particularidades complicatórias para todas as coisas cotidianas.

Exemplo? Um café nunca é só café, mas um ristretto, corretto, marocchino e afins.

Visitantes podem ficar confusos.

Algo parecido acontece em viagens de trem.

Há estradas de ferro cobrindo todo o país, ligando pequenas e grandes cidades, e os italianos usam o sistema com desenvoltura.

Mas para o turista, a dificuldade de conseguir informação e a variedade de companhias e modalidades atrapalha.

É melhor contar com o detalhado site da Eurail em inglês do que tentar informações direto nas stazioni.

Da romântica Veneza aos campos milaneses, viajar sobre trilhos é o um barato inolvidável (Imagem: Divulgação) Da romântica Veneza aos campos milaneses, viajar sobre trilhos é o um barato inolvidável (Imagem: Divulgação)

Da romântica Veneza aos campos milaneses, viajar sobre trilhos é o um barato inolvidável (Imagem: Divulgação) (/)

Todas as cidades italianas são bem supridas de estações centrais.

Quem chega em Milão de trem pela Milano Centrale já fica perto da Galeria Vitorio Emanuele, da Corso Magenta e até do bairro cool de Porta Romana.

Se seu hotel for bem localizado, é possível até evitar o táxi e caminhar até lá.

Já o Aeroporto Internacional Malpensa fica a uma hora do centro da cidade, e é tão interessante quanto qualquer aeroporto grande do mundo, ou seja: nada. 

Outro exemplo: a chegada em Veneza na Stazione Santa Lucia.

Venezia_Santa_Lucia_Train_Station_R01

 (Wikipedia Commons/Reprodução)

É mais ou menos como chegar no Rio de Janeiro pelo Aeroporto Santos Dumont: perto de tudo e sobre a água do mar.

A paisagem na janela é um dos motivos para dar preferência a viajar de trem de dia.

Uma boa noite de sono numa cabine é impensável: o trem faz barulho, diminui, para e retoma a velocidade várias vezes durante a noite.

Por isso as longas viagens  entre países (Milão a Lisboa: 36 horas) só fazem sentido se você é um entusiasta do formato.

Eu diria que o ideal é uma viagem de até quatro horas.

Você está indo de Turim para a Calábria? Avião. Milão a Veneza? Trem.

Outra coisa é que, na grande maioria dos países europeus, quem tem um rail pass não precisa reservar a viagem:

Você chega no horário certo, sobe no trem certo, mostra seu tíquete para o condutor quando (e no caso de) ele pedir e vai tranquilo.

Já na Itália, a reserva é obrigatória em algumas linhas e custa entre 4 e 22 euros.

O aplicativo da Eurail (gratuito, para iOS e Android) funciona off-line e indica quais são as linhas que exigem reserva de assento.

Quem quiser pagar em dinheiro deve fazer a tal reserva até dez minutos antes do embarque direto num guichê na estação.

Mas não conte com isso: você pode ter que encarar uma fila, e (dica!) toda fila na Itália demora a andar.

(Imagem: DIvulgação) (Imagem: Divulgação)

(Imagem: Divulgação) (/)

Procure uma máquina de autoatendimento e use o cartão de crédito.

Você também pode usar o site da Trenitalia, em italiano ou em inglês.

Guarde o email de confirmação no celular e mostre direto para o condutor dentro do trem quando ele pedir para confirmar; é o suficiente.

Uma lei determina que maiores de 25 anos só podem comprar passes de primeira classe. 

Trechos longos entre países, por exemplo, podem ser feitos em cabines fechadas.

A escolha pela primeira classe, geralmente usada por executivos, tem motivo: é mais confortável, com poltronas largas e muito espaço para pernas e bagagens.

O serviço também é melhor, com revistas e jornais do dia, refeições e vinhos disponíveis, às vezes com cardápio harmonizado.

Mais importante: é na primeira classe que está meu expresso tirado na hora pelo elegante funcionário da Trenitalia vestindo uniforme azul-marinho.

Em algumas ferrovias há wi-fi cortesia funcionando.

5 (Imagem: Divulgação)

(Imagem: Divulgação) (/)

Último toque: não esqueça de validar seu tíquete.

Um funcionário da companhia ferroviária na estação tem que preencher seu rail pass com número de passaporte e datas de começo e de fim da sua viagem, mais um carimbo oficial.

Em cada trecho de trem quando o condutor checar sua reserva, ele também vai observar se seu passe está validado.

Um passe não validado vai  fazer você passar o carão de descer na próxima estação e pagar uma multa – true story, no caso dos meus amigos em viagem entre Roma e Florença, a mordida foi de 50 euros cada um.

De resto, é fé em Deus e pé no trilho.

 

Comboio do prazer

O que é: um rail pass é um tíquete de trem que funciona por um período específico, em uma determinada quantidade de países.

Os tipos:

  • Global Pass – 28 países a partir de 239 euros
  • Select Pass – até quatro países vizinhos a partir de 92 euros
  • Regional Pass – até dois países a partir de 105 euros
  • One Country Pass – um país a partir de 59 euros

Como comprar: no site da Eurail, que tem todas as informações em português.

 

Dicas: para viagens na Itália, além do rail pass você terá que pagar as reservas de cada trecho (entre 4 e 22 euros).

Os trens na Itália são em geral confortáveis e silenciosos, mas, se possível, escolha os mais modernos.

Você pode fazer isso lendo os detalhes de cada rota no site da Trenitalia.

 

Cinco paradas obrigatórias

Onde beber, comer e se hospedar no roteiro.

Al Mercá, Veneza: O menor bar de Veneza fica ao lado do mercado do Rialto, e oferece pequenos bocados feitos com opções superfrescas para comer junto de excelentes vinhos e cervejas. Veja mais no Facebook.

Bar Luce, Milão: Você vai se sentir como se estivesse dentro de um dos filmes do Wes Anderson. Inspirado nos cafés milaneses dos anos 1950, com direito a máquina de pinball e muita fórmica. Veja mais no Facebook.

G-Rough Hotel, Roma: Com apenas dez suítes, fica logo atrás da Piazza Navona. Janelas imensas com vistas dignas de cartão-postal, pisos com ladrilhos, tetos com afrescos e peças de design italiano de babar. Veja mais no site.

BSJ (Borgo San Jacopo), Florença: De propriedade do designer Salvatore Ferragamo, tem cozinha inventiva e colorida, para fugir da segurança da clássica bisteca florentina. No verão, reserve mesa no terraço. Veja mais no site.

Hotel Lingotto, Turim: A antiga fábrica da Fiat, orgulho da cidade, foi restaurada para abrigar um complexo comercial com um shopping center, galeria de arte e hotel. Logo na frente fica a primeira unidade da rede Eataly. Veja mais no site.

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