Vinho brasileiro de R$ 43, eleito o 5º melhor do mundo, é balela

Nossa colunista de vinhos dá cinco razões para você saber que trata-se de uma grande obra de marketing

 (Reprodução/Divulgação)

Sites de algumas das publicações mais sérias do país espalharam pelo Brasil a notícia de que o Casa Perini Moscatel, um espumante brasileiro de 43 reais, era o quinto melhor vinho do planeta.

Eu vou dar uma lista de cinco grandes vinhos, que me vêm à cabeça, e quem achar que o moscatel da Perini é o quinto do mundo me diga, por favor, qual eu tiro fora para que ele entre no lugar: Petrus, Romanée-Conti, Château Margaux, Dom Perignon e Cristal.

É óbvio que um espumante de 43 reais, brasileiro, italiano ou mesmo francês, não pode ser o quinto melhor vinho do mundo!

Faltou aos jornalistas que reproduziram essa notícia bom senso: pararem para pensar e checar a informação. Isso não é verdade.

O pior é que um monte de gente vai comprar esse espumante para, só na hora da virada, descobrir que comprou um vinho doce.

Não que ser doce seja em si um defeito. Tem quem ame. Mas tem quem odeie também. E tem que beba na situação ideal, no fim da refeição. Espumantes com muito açúcar residual são vinhos de sobremesa.

O Casa Perini Moscatel, de fato, pegou o quinto lugar na lista de 2017 do World Ranking of Wines & Spirits.

Espumante_Casa_Perini_Tipo_Asti_Moscatel

 (Reprodução/Divulgação)

Mas essa lista, produzida por uma associação de jornalistas, é apenas uma compilação de concursos internacionais de vinhos do ano anterior. Concursos de prestígio, mas onde só ganha quem se inscreve e onde as medalhas são sempre dadas por categorias.

Em 2016, o Casa Perini Moscatel ganhou uma série de medalhas. Mas concorrendo com vinhos do mesmo estilo e da mesma faixa de preço.

É um vinho bem feito, da Casa Perini, uma ótima vinícola do Vale Trentino, na Serra Gaúcha.

Um moscatel produzido pelo método Asti, tem menos de 8% de álcool. É fresco, frutado, muito bom para acompanhar panetone, por exemplo.

A ideia de existir vinhos que são os melhores do mundo por si só não faz sentido. Existem vinhos mais complexos, estruturados, super equilibrados, que duram décadas (o que não é o caso desse vinho ou de outros tantos que ganham notoriedade de repente porque receberam uma nota alta).

Mas melhor é aquilo que você está com vontade de beber. A seguir uma lista de cinco espumantes que eu considero melhores que o quinto melhor do mundo. Todos são mais caros, mas por R$ 43 fica difícil até ser o melhor do Brasil.


Cave Geisse Blanc de Blanc Brut

Cave Geisse Blanc de Blanc Brut

 (Reprodução/Divulgação)

O chileno Mario Geisse é o cara do espumante brasileiro. Chegou por aqui em 1976 para dirigir a Chandon Brasil quando ninguém falava em espumante nacional.

Reconheceu nas condições climáticas da Serra Gaúcha um ótimo terroir para espumantes. Identificou um lugarejo chamado Pinto Bandeira e comprou terras por lá.

E, ao longo de décadas, tem produzido alguns dos melhores rótulos do gênero no país. Gosto muito do Blanc de Blanc pelo seu frescor.

Feito com 100% de uvas chardonnay, tem aromas cítricos, de  pêssego e alguma mineralidade. Combina muito com o clima do país, especialmente nesta época do ano. Custa R$ 115,00.


Casa Perini Nature

Casa Perini Nature

 (Reprodução/Divulgação)

O melhor espumante deles é o Nature, um vinho de R$ 140 que, no momento, está em promoção no site deles por R$ 125.

Como todo Nature, ele não recebe açúcar no momento de colocar a rolha, o que acontece com a maioria dos espumantes e champanhes. Por isso, é super seco.

Mas a cremosidade e a riqueza de aromas compensam. Só um espumante de muita qualidade pode se dar ao luxo de não ter açúcar acrescentado, porque açúcar corrige defeitos.


Aurora Pinto Bandeira Extra Brut

Espumante-Aurora-Pinto-Bandeira-Extra-Brut

 (Reprodução/)

Há décadas, a Vinícola Aurora tem uma propriedade no distrito de Pinto Bandeira que funcionava como estação experimental para novas tecnologias no cultivo de uvas.

Esse distrito, como disse acima, se apresentou como o terroir mais bacana para espumantes, ou melhor, para a chardonnay e a pinot noir, as uvas mais usadas para produzir espumantes.

Então, de alguns anos para cá, a cooperativa, que é a maior vinícola do país, começou a produzir rótulos no local, um chardonnay, um pinot noir e este espumante feito pelo método tradicional, o mesmo de Champagne.

Além da pinot noir e da chardonnay, tem um pouco de riesling itálico no corte.

Isso faz com que seja fresco, vivaz, apesar dos aromas de frutas secas advindos dos 24 meses sobre as borras. Custa cerca de R$ 90.


Miolo Millesimé Brut D.O. 2012

milesime

 (Reprodução/Divulgação)

Champanhes e espumantes não costumam ter safra. Costumam ser a mistura de vinhos de vários anos.

Muitas casas, no entanto, em anos excepcionais, quando as uvas se desenvolveram de modo ideal, fazem seus espumantes safrados, os vintages ou millesimés.

Este passa 18 meses em contato com as borras das leveduras, um período suficiente para produzir aromas de panificação e frutas secas, mantendo bastante dos aromas de frutas frescas.

Custa R$ 120, mas está em promoção por R$ 100 no site da Miolo.


Peterlongo Elegance Nature

peterlongo-elegance-nature

 (Reprodução/Divulgação)

Com aroma amanteigado, de brioche, o Elegance Nature engana no nariz. A impressão que temos é de que será um vinho com algo de adocicado, mas é “bone dry” (seco até o osso) quando o colocamos na boca.

Como disse antes, só espumantes muito bons podem se dar a esse luxo. Precisa muita qualidade para dispensar o auxílio luxuoso do açúcar.

Em 1913, a Peterlongo já produzia espumantes com uvas finas em Garibaldi, na Serra Gaúcha. Ao que tudo indica, foram os primeiros.

Mas, a partir dos anos 70, a empresa entrou em decadência e se tornou conhecida por seus produtos mais baratos.

Esqueça esse mau momento. Hoje a Peterlongo passa por ótima fase e está investindo bastante em qualidade. O Nature custa cerca de R$ 160.

 

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