Westworld e a violência humana

Rafael Kato

Stephen Hawking, o famoso físico britânico, fez um alerta em 2014: “o desenvolvimento completo da Inteligência Artificial (IA) poderá significar o fim da raça humana”. Ao não depender do lento ciclo de evolução biológica, a IA poderia se desenvolver mais rapidamente, com melhorias exponenciais. A preocupação do físico seria evitar o que o filme O Exterminador do Futuro retratou com sua rebelião das máquinas. No entanto, Westworld, a nova série do canal pago HBO exibida aos domingos, coloca uma questão inversa. No futuro, os vilões continuarão sendo os homens — com toda sua violência e fúria — e não os robôs.

A trama se passa em um parque temático futurista em que ricaços podem ter a experiência do Velho Oeste americano. A diferença é que os anfitriões do parque não são humanos, mas autômatos feitos em impressoras biológicas 3D que simulam pele, órgãos e sangue — tudo para oferecer a experiência mais real possível. A ideia é que o visitante tenha dificuldade em reconhecer quem é real e quem não é. O detalhe importante é que os humanos não são feridos pelos ciborgues de Westworld, embora o contrário não seja verdadeiro. Até por isso, quem visita o parque acaba por escolher entre os roteiros pré-determinados mais violentos — como uma busca ao tesouro ou uma caça ao bandido mais perigoso do lugar —, onde é possível assassinar, estuprar e roubar sem ser punido ou ferido. No parque paga-se para se fazer tudo aquilo que é proibido fazer na vida real.

A série é baseada em um filme dos anos 1970, que teve roteiro e direção de Michael Crichton, o autor de Jurassic Park morto em 2008. O elenco tem nomes de peso como Anthony Hopkins, no papel do dr. Robert Ford, um dos criadores do parque, e Ed Harris, no papel do misterioso Homem de Preto — um homem sanguinário, provavelmente famoso por ações beneficentes no mundo real, mas com passe livre para cometer as maiores atrocidades contra os ciborgues.

No planejamento original do parque, os ciborgues são desligados ou consertados — aqueles que levaram tiros — ao final do dia. Na manhã seguinte, eles retomam suas rotinas habituais para interagir com os visitantes. Só que a história da série começa a mudar a partir do momento em que alguns autômatos passam a lembrar de eventos passados e sair do script programado. O que se segue é puro machine learning: os seres de inteligência artificial começam a aprender um com os outros, a desconfiar dos visitantes e a trabalhar com a hipótese de que são manipulados por um ser exterior ao seu mundo. É o caso dos robôs representados, por exemplo, pelo brasileiro Rodrigo Santoro e pela atriz Evan Rachel Wood.

Conforme os ciborgues se desenvolvem, uma coisa fica clara em sua consciência: os visitantes são opressores sem compaixão e que matam por puro prazer. Isso faz da série uma atração com constantes dilemas morais como nenhuma outra na televisão atualmente. São questões como: não deveriam os humanos se comportarem no parque da mesma maneira que se comportam na vida real? Matar — mesmo que seja um ciborgue — não é errado por definição? Westworld, o parque, funciona como um playground dos mais subterrâneos desejos humanos, onde os princípios morais absolutos não têm vez. Até por essa razão, os diálogos são recheados de citações de peças de Shakespeare, que tão bem descreveu a condição humana. Só que na série é um ciborgue que alerta, em uma passagem retirada de Romeu e Julieta: “estas alegrias violentas têm fins violentos”. É esperar para ver como os ciborgues poderão aprender a revidar.

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