Cientista social explica por que cooperativismo no Brasil ainda anda devagar

Além da boa dose de preconceito e desconfiança, a cooperação ainda não é uma característica relevante na cultura brasileira, diz Júlio Aurélio Vianna Lopes, autor do livro “Cooperativismo Contemporâneo – caminho para a sustentabilidade”

Você já ouviu falar do jogo Banco Imobiliário? Dependendo das suas posses e de sua idade (quanto maior ambas, maior a chance), você conhece. Ele atingiu seu auge de popularidade no Brasil nos anos 70 – e existe até hoje, o que o torna um clássico. É o brinquedo mais vendido da história do país. Trata-se de um jogo de tabuleiro em que os participantes compram e vendem imóveis numa cidade fictícia. O singelo objetivo é levar todos os amiguinhos à sarjeta e ficar dono de tudo – não por acaso, o nome do jogo em inglês e em vários dos 37 idiomas em que foi traduzido em mais de cem países é “Monopoly” (monopólio).

Mas o que esse jogo tem a ver com cooperativismo? Absolutamente tudo. Afinal, massacrar todos que estão no seu ramo é o antônimo de cooperação e sinônimo de concentração, ou monopólio.
Evidentemente, a culpa da cultura desse quem-pode-mais-chora-menos no Brasil não é do sucesso de um jogo – mas é o sucesso do jogo que reflete algo que está mais do que arraigado na cultura do país.

Mas se o brasileiro é tão solidário, como tanto se costuma dizer, por que o cooperativismo aqui anda tão devagar e é visto até com uma boa dose de preconceito? “Porque a cooperação, ao contrário do mito de que o brasileiro é cooperativo, ainda não é uma característica relevante na cultura brasileira”, afirma o cientista social Júlio Aurélio Vianna Lopes, especialista em cooperativismo. “As pesquisas de opinião feitas por um órgão especializado, o Latinobarômetro, mostram que o brasileiro, dentre os latino-americanos, é o que desconfia mais, em geral, não só dos governos, como também de seus conterrâneos, inclusive vizinhos”, acrescenta.
Com uma tremenda desigualdade social, deveria ser o contrário. Mas não é.

Um novo jogo onde todos ganham ou todos perdem

Enquanto isso, o cooperativismo está mais do que consolidado e não para de crescer em outros países.

Nos Estados Unidos, a pátria do capitalismo – e do Banco Imobiliário –, as cooperativas têm um peso enorme na economia. Mais da metade dos 2 milhões de fazendeiros norte-americanos faz parte de alguma das quase 3 mil cooperativas agrícolas, que por sua vez dão emprego a mais de 250 mil pessoas. O país tem ainda 900 cooperativas de eletrificação rural, que fornecem energia elétrica em 75% das áreas de plantio.

Existem nos Estados Unidos cooperativas que sequer existem no Brasil. As cooperativas de creches, por exemplo, atendem os filhos de 50 mil famílias. Já as de habitação passam de 6.400 e são responsáveis por 1,5 milhão de moradias. “A cooperativa é uma resposta para as imperfeições do mercado”, afirma um estudo da Universidade de Wisconsin.

Estima-se que 250 milhões de pessoas no mundo sejam membros ou funcionários de uma cooperativa. A Europa, com quase 16 milhões de pessoas ligadas a cooperativas, ultrapassa de longe todo o continente americano, com menos que a metade desse número, segundo a Aliança Cooperativa Internacional. “Nenhum outro tipo de empreendimento dá emprego a tantas pessoas e, ao mesmo tempo, mostra tamanha resiliência a crises como as cooperativas”, afirma um relatório da Aliança. Outro estudo afirma que, após dez anos 44% de cooperativas ainda estavam em operação, em comparação com apenas 20% para as empresas comuns.

Esta resistência tem sido atribuída à forma como as cooperativas sabem como compartilhar riscos e benefícios entre os membros.

Se o Banco Imobiliário vale como símbolo da competição predatória, o jogo Co-opoly – um trocadilho com o Monopoly – mostra que os Estados Unidos não pararam no tempo. É o mesmo jogo, “mas melhor”, elogia o jornal inglês “The Guardian”. Lançado em 2011, o jogo custa em média o equivalente a R$ 120 e nele não há adversários a derrotar.

Nenhum jogador ganha nem perde. Ou ganham todos ou todos perdem. Em vez de o jogador ter uma cartola, como no Banco Imobiliário, cada um é um personagem nada glamoroso, como uma mãe solteira ou um imigrante que precisa mandar dinheiro para a família. E eles têm que se unir.

“Faltam no Brasil políticas públicas adequadas”

Não que o cooperativismo no Brasil seja insignificante. Pelo contrário. Segundo dados da FAO, o órgão da ONU para questões de alimentação, as cooperativas são responsáveis por 37% do PIB agrícola do país.

O problema é que esse número não só poderia ser maior como também obtido com mais lucros e menos sacrifícios para os cooperados. “O que mais prejudica o cooperativismo brasileiro é a falta de políticas públicas adequadas”, afirma Vianna Lopes. “A rigor, sua matriz legislativa – o decreto editado pelo governo ditatorial de 1971 – serviu apenas para controlar, e não disseminar cooperativas entre nós” acrescenta o especialista, autor do livro “Cooperativismo Contemporâneo – caminho para a sustentabilidade”.

Na obra, ele faz uma profunda análise histórica e sociológica do tema e traz informações sobre a situação do cooperativismo em diversos países. O livro mostra a formidável presença das cooperativas em países desenvolvidos.

“Com 38% de cooperados na população francesa em 2010, as cooperativas integram a maioria do seu setor na economia social”, afirma Vianna Lopes em seu livro.

Na Itália, a porcentagem é ligeiramente maior, 40% de cooperados na população. “Em algumas das regiões mais prósperas, como a Emilia-Romagna, já alcançou 80%”, diz o autor, referindo-se à região do norte do país mundialmente conhecida pelo queijo parmesão, mas também por marcas como Ferrari e Lamborguini. Na Índia, um em quatro trabalhadores pertence a uma cooperativa, um número que ultrapassa a da população brasileira.

“Na América Latina, destacam-se o Uruguai e a Bolívia, nos quais um terço das populações integra cooperativas”, diz Vianna Lopes. “Respectivamente, predominam cooperativas mercantis (onde se coopera para competir por posições de mercado) no Uruguai, e prevalecem cooperativas solidárias na Bolívia (onde a cooperação provê os bens que antes se obtinha, quando possível, somente pela competição) “.

“Cooperativa deslancha onde e quando recebe apoio mínimo”

Formado em direito, José Aurélio Vianna Lopes é pesquisador e autor de 15 livros
Júlio Aurélio Vianna Lopes é um profissional difícil de definir – como costuma acontecer com intelectuais ecléticos e multidisciplinares como ele. Formado em direito, tem mestrado e doutorado em ciência política e pós-doutorado em sociologia. Pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio, ele faz análises e estudos jurídicos usando as ciências política, econômica, ambiental, histórica e psicológica. É autor de 15 livros em variados temas, da Constituição de 1988 a cooperativismo. Nesta entrevista exclusiva à EasyCoop, ele compara o cooperativismo brasileiro com o de outros países.

EasyCoop – Queijo na Itália e azeite na Espanha são predominantemente produzidos por cooperativas. Por que dá certo lá e não aqui?

Júlio Aurélio Vianna Lopes– Porque o modelo cooperativista agrícola brasileiro, impingido pela ditadura militar entre 1969-1971, privilegiou grandes propriedades rurais – no fornecimento de subsídios agropecuários – para monoculturas exportadoras, excluindo pequenos e médios proprietários (com dificuldades de integração às cooperativas de grandes proprietários), bem como o mercado interno do país. No início da segunda década deste século, já se evidenciava até uma tendência à conversão de cooperativas rurais de grande porte em empresas ordinárias – por vezes se reintegrando em outras cooperativas cujas propriedades fossem maiores. Do que resultava uma desaceleração do crescimento, ou mesmo diminuição, da quantidade de cooperativas no setor cooperativista agropecuário, apesar deste continuar ampliando seu faturamento – superior ao de todos os outros setores do cooperativismo brasileiro.

EasyCoop – A América Latina tem exemplos bem-sucedidos de cooperativismo?

Vianna Lopes- Destacam-se o Uruguai e a Bolívia, nos quais um terço das populações integra cooperativas. Em comum, ambos os países tiveram governos que implantaram políticas de apoio a cooperativas que não se limitaram à distribuição de recursos para sua constituição: também estabeleceram regras que as tornaram mais fáceis de constituir e de nelas ingressar, através de programas governamentais que vincularam prestações de assistência médica a familiares e educacional a filhos de membros das cooperativas, junto ao fornecimento de equipamentos para manejo coletivo. Isso mostra que cooperativas deslancham onde e quando recebem apoio mínimo no médio prazo. No Brasil, ainda vejo as lideranças cooperativistas centralizando suas expectativas em políticas distributivistas, sem atentar para a importância equivalente do marco regulatório para as cooperativas. A Argentina seguiu este caminho e até alcançou cerca de 25% da população cooperada, mas, assim que a injeção de recursos diminuiu, o mesmo se deu com as cooperativas, já que as empresas ordinárias continuavam mais acessíveis em termos legais.

EasyCoop – Até que ponto a política prejudica o cooperativismo no Brasil?

Vianna Lopes- O que mais prejudica o cooperativismo brasileiro é a falta de políticas públicas adequadas. O decreto da ditadura em 1971 serviu apenas para controlar e não disseminar cooperativas. Nesse sentido, a mais ampla unidade entre lideranças cooperativistas – solidárias e mercantis – é necessária para a mudança do marco regulatório das cooperativas brasileiras. Apesar de suas diferenças, elas precisam entender que a prática da cooperação é uma característica comum que, malgrado a variedade de formas que assume, as opõe, conjuntamente, à legislação deixada pela ditadura militar.

EasyCoop – Por que o cooperativismo é visto como algo marginal no Brasil?

Vianna Lopes- Porque a cooperação, ao contrário do mito de que o brasileiro é cooperativo e solidário, ainda não é uma característica relevante na cultura brasileira. As pesquisas de opinião feitas por um órgão especializado (Latinobarômetro) mostram que o brasileiro, dentre os latino-americanos, é o que desconfia mais, não só dos governos, como de seus conterrâneos, inclusive vizinhos, em geral. Esta desconfiança cultural generalizada poderia ser enfrentada através de iniciativas que angariassem as religiões – por serem instituições especializadas em valorizar a obrigação, a rigor, natural, da generosidade e reciprocidade – para as ideias cooperativistas. A meu ver, lideranças cooperativistas brasileiras deveriam promover encontros com e entre religiões de modo a que elas conhecessem e aderissem à promoção de cooperativas – sejam elas solidárias ou mercantis – no âmbito de suas atividades especificas (como quermesses católicas, louvores evangélicos ou terreiros espíritas). A adoção de modelos cooperativos está em sintonia com os valores religiosos, os quais seriam veículos excelentes à sua disseminação cultural.

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