A duvidosa retomada japonesa

David Cohen

O mundo está tão repleto de incertezas que até as notícias boas têm de ser interpretadas com cautela. Esta é a principal lição do surpreendente crescimento da economia japonesa no último trimestre.

Os números – ainda sujeitos a revisão – anunciados pelo governo japonês são extraordinários: esperava-se um crescimento anualizado de 0,8%, veio um de 2,2%. Em um país já rico, cuja economia patina há duas décadas com níveis de crescimento pífio (menos de 1% ao ano, em média), parece um sinal claro de que as reformas do primeiro-ministro Shinzo Abe estão surtindo efeito.

Um olhar mais atento, porém, sugere que o resultado positivo pode não ser sustentável. Quase todo o crescimento (1,8%) se deveu à balança comercial. A recuperação americana e a estabilização da queda na economia chinesa deram um impulso às exportações, enquanto as importações ficaram no mesmo patamar. Mas ninguém pode garantir que essas condições se mantenham.

Um Brasil de sinal trocado

Sob alguns aspectos, o Japão é o espelho invertido do Brasil. Aqui, o governo trabalha para conter a inflação; lá, para criar inflação. O Brasil é um dos símbolos dos países emergentes, o Japão luta para não se tornar um país submergente.

Uma parte da solução, em ambos os casos, é exportar. Embora a cesta de produtos seja muito diferente, tanto o Japão como o Brasil dependem da demanda dos Estados Unidos e da China.

Até onde se pode contar com os Estados Unidos é uma incógnita. A eleição de Donald Trump para a presidência americana traz sinais contraditórios. De um lado, seu discurso protecionista sugere problemas: Trump acusou o Japão de manter o iene artificialmente desvalorizado e, se ele agir para privilegiar os produtos americanos no mercado interno, as companhias japonesas podem sofrer (assim como as do mundo inteiro).

De outro lado, ele prometeu grandes investimentos em infra-estrutura. Se conseguir vencer a resistência do Congresso americano para implementar esses projetos, pode dar mais ímpeto às importações. É por isso que as bolsas, após um primeiro baque com a escolha de Trump, subiram.

Ninguém sabe, no entanto, para onde o governo Trump de fato vai apontar. Por isso é tão importante poder contar com a outra perna do desenvolvimento, o mercado interno.

O desafio do mercado interno

É nesse ponto que os números japoneses desapontam. Os gastos com consumo doméstico subiram apenas 0,1%. Os investimentos de empresas privadas não cresceram. “A economia não está tão forte quanto os 2,2% fazem crer”, disse Hidenobu Tokuda, um economista do instituto de pesquisas Mizuho, à revista Fortune.

Desde que tomou posse, há quase quatro anos, o primeiro-ministro Shinzo Abe vem tentando despertar o “espírito animal” das empresas e o espírito consumista dos cidadãos – até aqui, com sucessos ocasionais que logo regridem. Foi assim com os cortes de impostos de 2009 e com a gratificação concedida a idosos, este ano, que não se converteu em consumo significativo.

Em setembro, o Banco do Japão avançou em seu pacote de estímulo à economia, cortando os dividendos de seus títulos de 10 anos para 0% e prometendo elevar a inflação para 2% – na prática, isso significa uma taxa de juros negativa. Se o dinheiro vai perder valor, a lógica sugere que é melhor gastar mais cedo do que mais tarde. Mas os japoneses têm resistido a essa lógica.

Segundo Mari Iwashita, economista da firma de investimentos SMBC em Tóquio, “a incerteza sobre o futuro é a causa subjacente” à resistência ao consumo.

Por isso as autoridades japonesas estão engajadas em uma política que, no Brasil, parece piada: pedir que as pessoas trabalhem menos e tentar um acordo com as empresas para elevar os salários de seus funcionários.

Segundo Haruhiko Kuroda, presidente do Banco do Japão, as negociações entre companhias e sindicatos são cruciais para o país atingir sua meta de 2% de inflação, que estimularia os gastos e ajudaria a criar um ciclo virtuoso na economia. Por isso ele pediu às empresas de Nagoia – sede da montadora Toyota – que ajudem a elevar os salários.

O governo e empresários também estão discutindo planos para deixar os trabalhadores encerrarem o expediente às 15 horas na última sexta-feira de cada mês, para encorajá-los a consumir mais. A proposta poderia entrar em vigor a partir de fevereiro.

O argumento por trás dessa proposta é que os japoneses trabalham tanto que quase não têm tempo para fazer compras. Assim, um fim de semana de mau tempo – no trimestre passado, o país foi atingido por tufões – pode prejudicar o consumo.

Mais do que apenas mexer com o relógio, a dificuldade é mudar a cultura prevalente num país em que as pessoas literalmente morrem de trabalhar. No mês passado, o governo japonês divulgou seu primeiro relatório sobre a morte por overdose de trabalho, um fenômeno conhecido há três décadas como karoshi. Segundo o relatório, mais de um quinto das empresas reconhecem que seus funcionários trabalham horas demais: quase 11% afirmaram que tinham empregados com mais de 80 horas extras no mês, e quase 12% afirmaram que havia gente com mais de 100 horas extras por mês.

A situação pode ser ainda pior. Das 10.000 procuradas pelo governo, só 1.743 responderam o questionário. Cerca de 21% dos japoneses trabalham mais de 49 horas por semana. No ano passado, o número de pedidos de indenização por karoshi atingiu o recorde de 1.456 – e ainda há muitos casos não identificados, segundo advogados trabalhistas.

Além da ética de trabalho japonesa, a população está diminuindo e o país resiste a aceitar imigrantes, o que leva a mais pressão para cumprir jornadas maiores. O caso mais recente foi de uma jovem funcionária da agência de publicidade Dentsu, que se suicidou depois de contabilizar 105 horas extras mensais.

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