Até meia-noite, tudo em aberto

Sérgio Teixeira Jr., de Nova York

Os primeiros resultados e projeções indicam uma disputa acirrada entre Hillary Clinton e Donald Trump na eleição presidencial americana. À meia-noite (horário de Brasília), Hillary Clinton tinha conquistado 97 votos do colégio eleitoral, contra 84 de Trump, segundo a projeção da rede CNN, de um total de 270 votos necessários para conquistar a Casa Branca. Mas as vitórias de ambos foram em estados considerados garantidos para um ou outro lado. Entre os números mais aguardados no início da noite estava os de Flórida, Ohio e Carolina do Norte, três dos estados fieis da balança que juntos respondem por 62 votos no colégio eleitoral. A votação para presidente dos Estados Unidos é indireta: cada Estado tem um determinado número de representantes no Colégio Eleitoral, e o candidato com a maioria do voto popular leva a totalidade dos delegados do respectivo estado. Os eleitores ainda estão votando no Oeste do país, e uma projeção confiável sobre o resultado pode levar horas.

Os dois candidatos estão reunidos com suas famílias e assessores acompanhando o resultado da eleição. Ambos estão em Manhattan, a menos de duas quadras de distância um do outro: Hillary no hotel Peninsula e Trump no prédio que leva seu nome. Anonimamente, um alto assessor de Trump disse à rede CNN que uma vitória do republicano seria “um milagre”, mas a declaração foi dada no início da noite, quando uma porcentagem minúscula dos votos havia sido contada. Com 91% dos votos apurados na Flórida, o desempenho de Hillary Clinton no estado estava aquém do esperado.

A votação – que não é obrigatória nos Estados Unidos e tradicionalmente acontece num dia de semana — ocorreu sem maiores incidentes. Apoiadores de Trump e o próprio candidato vinham falando havia semanas que o processo eleitoral estava “viciado” e que manteriam vigilância redobrada. Em Nevada, estado onde fica a cidade de Las Vegas, a campanha de Trump entrou na Justiça para contestar a ampliação do horário de funcionamento das seções eleitorais em um dos condados do Estado. Las Vegas tem a maior população de origem latina de Nevada, e longas filas foram registradas na sexta-feira (alguns estados permitem o voto antecipado). Segundo os advogados de Trump, os votos deveriam ser desconsiderados pois foram depositados fora do horário publicado de abertura das seções eleitorais. A Justiça derrubou o pedido da campanha de Trump horas depois.

Divisor de águas

A campanha presidencial de 2016 será lembrada como uma das mais surreais da história dos Estados Unidos – e seus efeitos serão sentidos por muito

tempo. A maior surpresa, é claro, foi a ascensão de Donald Trump, empresário nova-iorquino do setor imobiliário sem experiência política que venceu as primárias do Partido Republicano com um discurso antiglobalização e antiimigração. O descontentamento da principal base de apoio de Trump — homens brancos sem educação superior que viram seus empregos na manufatura migrarem para o exterior – não será resolvido por Hillary Clinton, e provavelmente nem o próprio Trump seria capaz de cumprir o que prometeu, que é essencialmente dar marcha-a-ré na integração comercial do mundo.

Como os políticos vão se moldar a essa nova força será uma das questões decisivas do futuro próximo. Outra questão essencial será uma reconfiguração radical do mapa eleitoral americano. Estados tradicionalmente democratas, como os do cinturão industrial do Meio-Oeste, penderam para o Partido Republicano, graças ao discurso protecionista de Trump. Já Estados do sul, tradicionalmente republicanos, estão cada vez mais se voltando para os democratas, graças em parte ao aumento da participação dos eleitores latinos. O impacto da população de origem hispânica pode ser decisiva na Flórida, um estado essencial para as esperanças de vitória de qualquer presidenciável americano e sem o qual Trump virtualmente não tem chances de chegar à Casa Branca. Os primeiros dados indicam que, além do grande número de votos antecipados, houve grande comparecimento da população não-branca do estado, que conta com uma proporção importante de latinos e descendentes.

O impacto das mudanças demográficas é sempre acompanhado com muita atenção nas eleições americanas e serve como o ponto de partida para o ciclo eleitoral seguinte. Mas outro dado fundamental da eleição de 2016 é a percepção dos eleitores em relação aos dois candidatos majoritários. Os primeiros resultados das pesquisas de opinião realizadas nesta terça reforçaram o que os americanos vêm expressando há tempos: tanto Hillary Clinton como Donald Trump têm altas taxas de rejeição. Somente quatro entre cada dez eleitores se disseram animados ou otimistas em relação à perspectiva de Trump ou Hillary na Presidência. A polarização extrema da campanha e as invectivas de Trump contra a política tradicional e as instituições do país – além do próprio sucesso do empresário e do socialista Bernie Sanders, nas primárias democratas — mostram que os americanos estão frustrados e ansiosos. A tarefa de unir o país e construir pontes com os adversários será mais complicada do que nunca para o próximo presidente.

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