Berlim luta contra colapso para registro de refugiados

Alemanha: a agência de Migração está transbordada com as milhares de solicitações apresentadas e tem acumulados 355.914 expedientes sem resolver

Berlim – Mais de um milhão de refugiados foram recebidos pela Alemanha neste ano, mas milhares de pessoas ainda não se registraram como solicitantes de asilo, em meio ao colapso administrativo que cerca a incessante chegada de imigrantes e as adversidades do duro inverno alemão.

“Por favor, não filme nosso rosto porque as autoridades de Berlim não querem que sejamos vistos dormindo em condições degradantes”, pediu Omar, um iraniano de 21 anos, coberto no saco de dormir onde passou a noite em frente ao edifício do Escritório de Saúde e Assuntos Sociais (LaGeSo) de Berlim.

As tendas instaladas em um pátio interior do LaGeSo, no coração do populoso bairro de Moabit, se tornaram nos últimos meses um expoente das dificuldades vivenciadas pelas autoridades da capital alemã para realizar o registro dos solicitantes de asilo.

Omar está no local há cinco dias e “outras pessoas há semanas esperando sua vez”, explicou em inglês, e nem sequer tem uma ideia de quando será atendido, já que é um homem jovem e a preferência é dada para as famílias sírias com filhos.

“Não, não é permitida a entrada de câmeras. Pode filmar de trás da cerca, mas sem que se reconheçam os rostos”, pediu, com cortesia, Georg Hammerlich, um voluntário do LaGeSo.

A situação nas tendas do centro de registro costuma ser de calma, apesar das dezenas de pessoas que passam a noite em sacos de dormir no exterior e das várias famílias com crianças pequenas que cumprem os trâmites em seu interior.

É uma calma “forçada”, admitiu Hammerlich, após o caos administrativo provocado pela renúncia do responsável do LaGeSo, Franz Allert, pressionado pelo prefeito-governador de Berlim, o social-democrata Michael Müller.

Allert jogou a toalha depois que o prefeito exigiu que deixasse o cargo por considerá-lo responsável pela situação vivida nas últimas semanas, com centenas de pessoas esperando sua vez e incidentes – em algumas ocasiões, violentos – entre os solicitantes.

O bom funcionamento do LaGeSo não apenas depende do registro dos solicitantes e que esses consigam um alojamento, mas também que recebam atendimento médico e o chamado “dinheiro de bolso” que é concedido enquanto têm seus casos avaliados e são admitidos ou não como asilados.

A saída de Allert derivou uma discussão dentro da coalizão da cidade-estado, já que os integrantes do governo de Müller – a União Democrata-Cristã (CDU) presidida pela chanceler alemã, Angela Merkel – classificaram como “execução pública” o que foi uma “renúncia induzida”.

Müller se comprometeu a melhorar a situação e, de fato, na manhã seguinte já eram percebidos os primeiros sintomas nessa direção, com mais rapidez nos trâmites e a habilitação de duas outras tendas, “com aquecimento”, segundo um voluntário, para que os esperam a vez.

A Alemanha já recebeu mais de um milhão de refugiados em 2015, número que multiplica por quatro os chegados em 2014 e por três os de 1992, até então o ano recorde na recepção de solicitantes de asilo pelo país, no momento derivado da crise dos Bálcãs.

O governo de Merkel aprovou na quinta-feira passada a criação de uma carteira para todos os refugiados e solicitantes de asilo, para tentar unificar o processo entre as diferentes administrações, evitar fraudes e contar com informação fidedigna sobre as pessoas que há no país.

“Muitos mecanismos estão sendo articulados. Mas até que comecemos a ver seus resultados, se passarão algumas semanas”, afirmou o voluntário.

Enquanto o processo de registro não for agilizado, os problemas não desaparecerão com a rapidez que todos os envolvidos desejam.

A Agência Federal para a Migração e os Refugiados (BAMF) está transbordada com as centenas de milhares de solicitações apresentadas e tem acumulados 355.914 expedientes sem resolver, segundo dados divulgados pela entidade há uma semana.

“Estamos às vésperas do Natal e nós, vizinhos, não temos por que conviver com isto todos os dias”, lamentava uma cidadã, que olhava para os solicitantes de asilo acampados em sacos de dormir em frente ao LaGeSo enquanto seguia para um mercado em busca de árvores de natal. 

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