Estas duas meninas fugiram do país mais fechado do mundo

Duas garotas escaparam do trágico e bizarro regime de Kim Jon-un, líder da Coreia do Norte, e tornaram-se uma das mais importantes vozes contra o brutal ditador

Ler sobre a Coreia do Norte é quase como acompanhar uma história criada por um escritor surrealista. São tramas de natureza bem improvável, embora aconteçam num contexto humano. Como no livro “A Metamorfose”, do tcheco Franz Kafka, em que o protagonista acorda um belo dia transformado numa barata.

Metamorfosear os cidadãos no sentido literal da coisa provavelmente ainda não acontece nesse país do Oriente. Mas não duvide do que o regime de Kim Jong-un é capaz de fazer. Tampouco duvide do que se faz para fugir de lá. São casos como os de Eusun Kim, 29, e Yeonmi Park, 25, que acabam de lançar dois livros denunciando as atrocidades que as fizeram fugir de sua terra natal.

A história atual das Coreias, do Sul e do Norte, ainda é intrinsecamente ligada ao período pós-Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos e a extinta União Soviética disputavam o domínio de alguns países.

Como fizeram com a Alemanha, eles partiram a Coreia ao meio: a do Norte, comunista, a do Sul, capitalista. Só que, apesar da chamada Guerra Fria ter terminado – nem mesmo a União Soviética existe mais -, as Coreias não se reunificaram. No Norte, Kim Jong-un ainda mantém o sistema comunista e lidera uma brutal ditadura que faz de seu país o mais fechado do mundo.

Isso significa que entrar e sair de lá é quase impossível – a não ser que se tenha a autorização do líder. Os poucos turistas e jornalistas que chegam ao país geralmente o fazem escondidos ou estão acompanhando comitivas ciceroneadas pelo governo, cuja programação é seguida à risca.

Estrangeiros veem apenas o que Kim Jong-un quer que seja visto, fazem o que ele quer que seja feito, comem, leem, ouvem e assistem apenas o que é da vontade do grande líder. Não é, ao que tudo indica, diferente com o povo do país. Nesse caso, eles também pensam como são treinados para pensar.

Com tantas barreiras é difícil apurar sobre a realidade norte-coreana. Embora seja impossível checá-las, histórias como as de Eunsun Kim, 29, e Yeonmi Park, 25, configuram um importante (e trágico) documento.

Yeonmi acaba de lançar “In Order to Live”, ainda sem tradução para o português, sobre a sua fuga do regime. Eusun divulgou sua história um pouco antes, em julho, no livro “A Thousand Miles to Freedom”. Há alguns pontos em comum na biografia delas.

Ambas perderam familiares durante a grande fome dos anos 1990 na Coreia do Norte, dizem ter sido escravizadas em campos de concentração do governo, fugiram pela fronteira com a China, onde caíram nas mãos do tráfico humano, passaram pela Mongólia e conseguiram finalmente pedir refúgio na Coreia do Sul, lugar em que vivem hoje.


“Minha história é comum entre as refugiadas, muitas de nós acabam capturadas por traficantes. De todo jeito, ainda tive sorte, pois não fui separada da minha mãe”, disse Eusun para a National Geographic americana.

Já Yeonmi afirma que na tentativa de fuga foi capturada na China e vendida como noiva para um homem. Ela teria passado dois anos se escondendo da polícia chinesa até ser enviada de volta ao regime. Na segunda tentativa de fuga, a que deu certo, ela cruzou a fronteira pelo Deserto de Gobi, na Mongólia. Lá, conseguiu ser resgatada pelo governo da Coreia do Sul.

“Um outro Holocausto está acontecendo e o Ocidente apenas reage como se fosse algo engraçado, uma piada”, disse ela ao The Guardian, referindo-se às incontáveis sátiras que circulam sobre o bizarro Kim Jong-un. “As pessoas falam do corte de cabelo dele, do peso. Esse país realmente é uma piada, mas é uma piada trágica sobre 25 milhões de pessoas”. Recentemente, os atores James Franco e Seth Rogan protagonizaram o filme “A Entrevista”, em que satirizam o país.

Para a Time, Yeonmi disse que mesmo vivendo em outro país ela demorou para entender a sua nova (e almejada) vida. “[…] A liberdade não é simples. Eu tinha 15 anos e sequer possuía linguagem para expressar conceitos como individualidade ou amor por alguém além do líder”. O governo da Coreia do Norte investe na idolatria a Kim Jong-un, basicamente como uma prioridade.

O depoimento de uma outra refugiada disponível na internet revela que todas as famílias recebem panos especiais para limpar os retratos da dinastia que as casas são obrigadas a ter. De tempos em tempos, uma equipe do Estado checa se as fotografias foram realmente limpas.

O pai do atual líder, Kim Jong-il chegou a sequestrar um diretor de cinema sul-coreano e sua mulher, simplesmente porque era louco por filmes e não estava satisfeito com a produção nacional. O regime dos Kim é brutal com todos os coreanos, mas chega a ser pior com crianças e mulheres, consideradas máquinas de fazer filhos. São inúmeras atrocidades e bizarrices, reveladas em alguns documentários disponíveis integralmente no Youtube.

Vale lembrar que se trata de um país que chegou a esse ponto porque ditaduras não obedecem a limites. Vivemos um momento político delicado no Brasil, em que alguns grupos (na minha opinião, de gente desinformada) pedem a volta da ditadura. Se de fato vivêssemos sob uma ditadura, essas pessoas poderiam perder o direito inclusive de manifestar esse desejo.

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