Freitas, da FAAP: Venezuela em colapso

Camila Almeida

Esta quarta-feira é mais um dia dos protestos que já duram um mês na Venezuela. Manifestantes contrários ao regime do presidente Nicolás Maduro forçaram o fechamento do metrô na capital Caracas e na cidade de Los Teques, que tiveram o serviço totalmente paralisado. O grupo foi reprimido com gás lacrimogênio e ao menos uma pessoa ficou ferida. Desde o dia primeiro de abril, quando começaram as manifestações, 26 pessoas morreram e mais de 400 ficaram feridas.

A repressão das forças militares lideradas por Maduro tem sido criticada por organismos internacionais. Nesta quarta-feira, a Organização dos Estados Americanos se reúne extraordinariamente para discutir os abusos cometidos no país – e a Venezuela ameaçou deixar a instituição caso continuem a ocorrer reuniões sobre a crise no país sem o consentimento do presidente. Amanhã, deve ser a vez do Parlamento Europeu de falar sobre as mortes provocadas nos protestos.

Para entender melhor o que está por vir no país, EXAME Hoje conversou com Marcus Vinícius de Freitas, professor de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Ele já deu aula em diversos países sobre governança global e comércio exterior, foi associado da Organização dos Estados Americanos e já compôs o time de América Latina da consultoria Ernst & Young, em São Paulo e Chicago. Sobre Venezuela, o especialista é taxativo: Maduro está com dias contados. A população não aguenta mais as prateleiras vazias, o salário deteriorado e a falta de perspectiva de melhora sob o atual governo.

Os protestos na Venezuela tem sofrido severa repressão, e já somam 26 mortes. A população não vai ceder? O que os manifestantes esperam conseguir?

A população quer derrubar o presidente. Maduro nunca conseguiu desenvolver o mesmo carisma que Hugo Chávez e, além disso, não teve a oportunidade de experimentar as mesmas vantagens de quando o petróleo estava com o preço alto. Há uma fadiga em relação a Maduro, e ele não consegue tomar as medidas necessárias para reverter a grave crise econômica – com inflação altíssima e crescimento negativo acentuado há muito tempo. A população olha para duas coisas: para a falta de produtos no mercado e para o valor da moeda completamente deteriorado. E não vê em Maduro a perspectiva de qualquer melhoria. O resultado é a insurreição.  

Alguns líderes de oposição, como o governador do estado de Miranda, Henrique Capriles, se denominam quase como os bastiões da luta contra o regime – mas os protestos já são muito maiores do que a oposição. Caso Maduro caia, essa oposição vai conseguir chegar ao poder?

A oposição não é organizada a ponto de efetuar a troca do poder de maneira inteligente. Em 2005, a oposição não quis participar do processo eleitoral, o que permitiu a Chávez levar todas as cadeiras da Assembleia e a nomear todos os juízes. Isso hoje favorece Maduro porque, apesar de ele ter perdido o controle do legislativo, ele consegue se manter na base do poder judiciário, que faz o que ele quer. A queda do Maduro vai implicar em um governo provisório, que deve convocar eleições gerais. A oposição provavelmente vai ganhar, mas haverá uma frustração muito grande, porque ela não vai conseguir atender às demandas populares. Todo o aparato construído nos últimos 20 anos vai precisar ser desconstruído. Esse processo de reconstrução da máquina pública vai demandar tempo, e a oposição não vai conseguir a popularidade que se esperaria. 

Em momentos anteriores, o governo de Maduro iniciou diálogos com a oposição, intermediados pelo Vaticano. É possível que esse tipo de abertura aconteça novamente?

A intermediação prejudicou o processo de deterioração natural do governo Maduro. A oposição não pode confiar no governo, pelas demonstrações anteriores e pela falta de adoção de medidas importantes, como a libertação de presos políticos capturados pelo estado. A oposição tem que se associar a esses movimentos populares no sentido não se assumir a paternidade completa, mas de ser uma voz para aqueles que estão buscando uma mudança de regime na Venezuela. 

O governo está na mira de organismos internacionais pelos abusos e ameaçou sair da OEA caso o conselho se reúna sem sua autorização. Ameaças como essa têm algum apelo?

Não, nenhum. O resultado é muito pequeno, porque a própria OEA está sob pressão. Isso deveria servir como estímulo para países da organização colocarem mais pressão no governo, inclusive alterando a postura no sentido econômico.

Mas a crise política e econômica na Venezuela já se estende há bastante tempo e, até agora, não se viu iniciativas internacionais nesse sentido…

Infelizmente, o histórico de Cuba fortalece esse tipo de visão. A família Castro está no poder há 50 anos, e os países latinoamericanos simplesmente aceitaram a ideia de ter um ditador à frente da ilha. Isso fortalece Maduro, já que seus companheiros de região não são tão contrários ao regime assim. A expressividade das organizações fica limitada pelo precedente cubano.

O Brasil tem sido muito afetado com a crise na Venezuela, especialmente pelo fluxo muito grande de imigrantes que tem sobrecarregado o sistema de saúde de Roraima. É de se esperar alguma postura do governo brasileiro?

O Brasil já deveria ter tomado uma postura há muito tempo, ainda mais como parceiro comercial da Venezuela. O Brasil deveria ter deixado clara a importância da alternância de poder e ter ajudado a fortalecer as instituições venezuelanas – e não somente a fortalecer Maduro. Democracia não é só voto.

O fim do governo Maduro está próximo?

A instabilidade dele é cada vez maior, é só uma questão de tempo. Aqueles que estão lutando em favor de Maduro vão compreender que o regime chegou ao fim, e que, na verdade, eles estão combatendo seus irmãos venezuelanos que querem o bem do país. O tempo do bolivarianismo do século 21 chegou ao fim.

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