Hindus estão em pé de guerra contra matadores de vacas

Clãs hinduístas radicais acreditam que o governo não protege as vacas, que são consideradas sagradas. Eles pretendem combater as pessoas que matam o animal

Ghaziabad — Convencidos de que as autoridades da Índia não fazem o suficiente para proteger as vacas, clãs hinduístas radicais estão em pé de guerra, e, armados com paus e pistolas, patrulham povoados e estradas para combater os matadores deste animal sagrado para os hindus.

Esses grupos, impulsionadas pelo “amor” que seus milhares de voluntários em todo o país sentem pelas vacas, ganharam relevância na Índia após o recente linchamento de um muçulmano por supostamente matar um desses animais para seu consumo.

“Esse incidente (o linchamento) foi a reação a um outro. Encontraram em sua casa partes de uma vaca sacrificada, por isso que foi atacado. A intenção não era matá-lo, é muito triste que tenha morrido, mas tudo aconteceu por ele ter sacrificado uma vaca”, disse à Agência Efe Rakesh Kumar Sharma, da Gau Raksha Dal (Grupo Protetor da Vaca, em híndi), um dos mais destacados do país.

Com seu enorme bigode branco e vestido na cor açafrão, que significa renúncia e espírito de sacrifício para os hindus, Sharma é o responsável por esta organização em Nova Délhi e no estado de Uttar Pradesh (norte do país), onde aconteceu o linchamento.

“A vaca é nossa mãe e se alguém a captura, nós, como seus filhos, devemos protegê-la”, ressaltou Sharma.

Segundo o devoto hindu, sua organização possui uma ampla rede de informantes, desde donos de mercearia até motoristas de riquixá (táxi de três rodas) e sapateiros, que lhes avisam de qualquer atividade contra as vacas, sobretudo quando as transportam para o matadouro em caminhões.

“Temos que colocar nossas vidas em perigo para detê-los. Você vê meu carro? Uma vez bateram nele com um caminhão (no qual levavam vacas). Inclusive atiraram em nós e jogaram pedras quando tentamos detê-los”, contou Sharma.

O devoto assegurou que após trabalhar “dia e noite durante os últimos cinco anos” salvaram “cerca de dez mil vacas”, animais que levam depois para algum dos “lares” ou Gau Shalas que possuem.

Em Ghaziabad (Uttar Pradesh) possuem um Gau Shala do tamanho de um campo de futebol onde têm mil vacas, em sua maior parte gordas e bem cuidadas, com as tetas cheias de leite, muito diferentes dos raquíticos bovinos que pastam pelas ruas e lixões da Índia.

Para os admiradores da vaca, a necessidade de protegê-la não se baseia só em motivos religiosos (o hinduísmo a considera a mãe do universo e afirma que nela habitam 330 milhões de deuses), mas também pelas múltiplas propriedades medicinais que, afirmam convencidos, têm seu leite, urina e excrementos.

O doutor em medicina tradicional indiana ayurveda, Gyanendra Prakash, também vice-presidente da Plataforma Indiana para a Revolução das Vacas, explicou à Efe emocionado, e rodeado de bovinos, as propriedades benéficas do animal.

“Na Índia há muitas crianças desnutridas. O leite de vaca é equivalente ao leite materno e possui tudo o que um humano necessita”, sentenciou Prakash, contradizendo assim a opinião a esse respeito de organismos como o Unicef e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Extraindo-os de uma bolsa, Prakash mostrou em seguida uma detalhada série de produtos feitos com componentes derivados da vaca – fundamentalmente urina destilada – e que contam com supostas propriedades para curar doenças como artrite, diabete, pressão arterial alta, tuberculose e até câncer.

“Há muitos minerais e enzimas na urina de vaca. (…) Possui tantas qualidades medicinais que nos Estados Unidos já adquiriram quatro patentes feitas com urina de vaca para combater doenças como o câncer”, indicou.

Por isso, o presidente da Plataforma Indiana para a Revolução das Vacas, Radheshyam Tyagi, declarou à Efe que o governo indiano, liderado pelo hinduísta Narendra Modi, “deveria declarar a vaca a mãe do país, para que assim se detenha automaticamente seu massacre”.

Embora o sacrifício de vacas já seja punido na maior parte da Índia com penas de até dez anos de prisão – exceto em seis estados do nordeste do país, em Kerala (sul) e Bengala (leste) -, estes grupos asseguram que a polícia não faz nada para aplicar a lei, por isso que se sentem obrigados a agir por conta própria.

Um dos recrutas mais jovens da Gau Raksha Dal, Bharati Bhusna Bhardwaj, se mostrou contundente a esse respeito.

“Os hindus, especialmente os mais jovens, estão cheios de entusiasmo, apesar de milhares de protetores de vacas terem sido assassinados. Nosso moral ainda está alto, não vamos voltar atrás e continuaremos lutando pela causa: salvar nossa mãe, a vaca”, concluiu. 

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