Islândia decreta: o colapso passou

Liz Alderman

© 2017 New York Times News Service

Nove anos depois que um colapso bancário gigantesco transformou a Islândia um símbolo das crises financeiras globais, o governo declarou que a estabilidade econômica foi restaurada e acabou com as restrições de longa data sobre o fluxo de dinheiro para dentro e para fora do país.

No entanto, mesmo que encerre um capítulo complicado em sua história econômica, a Islândia precisa encarar novos desafios com a recuperação do crescimento – alguns dizem que está acontecendo rápido demais para o bem do país. À medida que a economia se estabiliza, um salto no turismo vem alimentando um boom na construção de moradias, potencialmente trazendo novos riscos de superaquecimento da economia e de inflação.

O crescimento da Islândia – a economia se expandiu 7,2 por cento no ano passado – representa um retorno notável desde 2008, quando os três bancos mais importantes do país quebraram e a moeda e as finanças implodiram. Para evitar um colapso total, o governo impôs controle de capital aos negócios, pensionistas e contribuintes.

“Sem o controle de capital, a Islândia teria sofrido um baque muito mais sério”, afirma Yngvi Kristinsson, economista chefe da Associação dos Serviços Financeiros Islandeses, um consórcio de bancos e seguradoras.

Apesar de não haverem sido testados até a época da quebra, o controle de capitais desempenhou um papel importante para impedir que, em pânico, investidores estrangeiros e outros retirassem seu dinheiro da Islândia e dizimassem a economia ainda mais.

Projetado incialmente para durar seis meses, ele se arrastou por quase uma década enquanto as autoridades financeiras reestruturavam as dívidas e procuravam diversificar a economia, que havia prosperado com a exportação de peixe antes de focar no reino lucrativo, mas perigoso, das finanças internacionais. Durante esse tempo, o governo ficou preso em uma longa disputa com investidores internacionais depois de congelar seus bens no meio da crise.

A Islândia, nação insular nórdica de 330.000 habitantes, vem gradualmente levantando o controle há mais de um ano, e seu fim significa o retorno do país aos mercados financeiros internacionais.

Os países normalmente tentam evitar usar o controle de capital a não ser em circunstâncias desesperadoras, porque as restrições no fluxo livre de fundos podem prejudicar empresas e causar dificuldades para famílias com pouco dinheiro vivo.

O controle de capital atingiu as empresas ao desencorajar investimentos e aumentar o custo dos empréstimos. Seu fim deve ajudar as companhias islandesas que antes não estavam autorizadas a investir em novas operações fora do país.

“Um bom alívio”, diz Georg Ludviksson, executivo chefe e fundador da Meniga, empresa que fornece software para bancos digitais de Reykjavík. A companhia, que tem 80 funcionários, quase não conseguiu os 3,5 milhões de euros, ou 3,7 milhões de dólares, em capital de risco estrangeiro quando foi montada em 2009.

“Foi difícil convencer investidores estrangeiros a colocar dinheiro em um país com controle de capital”, conta Ludviksson. A empresa precisou se candidatar a uma exceção no banco central que “diminuiu nosso ritmo”, afirma ele.

Ainda assim, o controle realmente impediu a quebra financeira generalizada da Islândia e protegeu a economia de uma depreciação severa, explicou o governo em uma declaração antes de acabar com a medida.

Quando a crise de 2008 começou, os ativos combinados dos três maiores bancos da Islândia eram 14 vezes maiores do que o tamanho da produção econômica da nação. No momento em que a indústria entrou em colapso, com uma dívida de 85 bilhões de dólares, os estrangeiros tinham um pedaço muito grande desse valor, e permitir que levassem os ativos embora poderia causar uma grave desvalorização da moeda islandesa, a coroa.

O sucesso do país em projetar sua recuperação contrasta com os esforços da Grécia, que usa o euro e não tem sua própria moeda para gerir.

A Grécia continua com problemas desde que Atenas impôs controle de capital em 2015 quando o país parecia estar no caminho de abandonar o euro. Algumas restrições foram levantadas, mas a maioria deve permanecer por mais algum tempo. A Grécia, que está em seu terceiro programa de resgate financeiro internacional em sete anos, continua a trabalhar com uma dívida gigantesca, e os economistas têm pouca esperança em uma recuperação.

A Islândia, em comparação, não tinha uma dívida nacional enorme, apesar de várias corporações e indivíduos passarem a dever grandes quantias depois da quebra financeira, problema com o qual alguns ainda estão lidando.

As autoridades forçaram os credores a sofrer algumas perdas e, entre outras coisas, os mais importantes executivos de um dos maiores bancos quebrados, o Kaupthing Bank, foram condenados à prisão.

O governo, que trabalha com o Fundo Monetário Internacional, tomou medidas para evitar crises futuras, incluindo o reforço da supervisão regulamentar dos bancos e a contenção dos empréstimos em moeda estrangeira. As autoridades também procuraram suprimir a presença excessiva dos bancos na economia, encorajando o crescimento do turismo, da pesca e das startups de tecnologia e de energias renováveis.

Com a coroa barata, o turismo decolou muito mais rapidamente do que outros empreendimentos novos, já que os visitantes podiam ver a aurora boreal e a paisagem rústica da Islândia com um bom desconto.

Hoje, o turismo se tornou a maior indústria da Islândia, ultrapassando a pesca e os bancos. Com o número de visitantes em quase dois milhões de pessoas por ano, a receita dessa indústria superou os 3 bilhões de dólares em 2015, um terço do que o país ganha com exportações. O turismo também é o maior empregador, representando um décimo de todos os postos de trabalho.

Em geral, a taxa de desemprego caiu para perto de um recorde de 2,6 por cento. Aumentos de salário de dois dígitos estão fazendo crescer a produtividade e podem encorajar a inflação, segundo a Organização para Desenvolvimento e Cooperação Econômica. Muitos islandeses estão colocando seu dinheiro em serviços e novas construções, e os guindastes continuam trabalhando por todo o país.

E esse parece ser o problema – na tentativa de reduzir a dependência do país do sistema financeiro, os islandeses estão se perguntando se não andam plantando suas sementes em outra bolha.

O boom atual é mais saudável do que o crescimento anterior à quebra de 2008, que foi impulsionada pelo fluxo de fundos estrangeiros, explica Asgeir Jonsson, professor de Economia na Universidade da Islândia.

Ainda assim, o crescimento dos últimos seis anos “tem sido liderado principalmente por um só setor da economia”, diz ele.

“A Islândia já se tornou um destino muito caro, mas o setor de turismo continua a aquecer a economia. O que pode ser feito para diminuir esse ritmo, banir novos visitantes? Isso dificilmente vai acontecer”, diz Jonsson.

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