Jaca, um improvável hit americano

Grande, feia e com cheiro forte, a jaca não é exatamente uma fruta atraente. Podendo pesar mais de 15kg, ela possui uma casca grossa e, muitas vezes, um recheio pegajoso e repleto de sementes que dificultam seu consumo. Ainda assim, no último ano, vem ganhando popularidade nos Estados Unidos como novo hit entre quem busca um estilo de vida saudável. Assim como a couve e a quinoa — alimentos de tendências fitness antecessoras —, a fruta ganhou status nas prateleiras dos supermercados norte-americanos.

Segundo um relatório sobre as tendências em alimentação divulgado em abril pelo Google, a jaca é um dos seis ingredientes de destaque para o ano de 2016. A fruta, chamada jackfruit em inglês, foi considerada uma das “estrelas em ascensão” no documento que mede a popularidade a partir das buscas feitas pelos norte-americanos.

Ela aparece ao lado de itens como o arroz de couve-flor, uma versão esfarelada da hortaliça ideal para evitar carboidratos, e a cúrcuma, uma especiaria integrante do curry que no Brasil virou hit após a apresentadora Bela Gil indicar como um substituto do creme dental. Assim como o boom dos sucos, biscoitos e até pipocas feitas com couve, agora é a vez de a jaca ganhar variações. Embora supermercados como a rede Trader Joe’s tenham investido em outras versões da fruta, como as chips vendidas a 9 dólares o pacote com 60 gramas, a grande favorita parece é uma inusitada alternativa à carne de porco. Isso mesmo.

“A jaca está se tornando extremamente popular”, diz Nicole Sopko, vice-presidente da Upton’s Natural, empresa de alimentos fundada há dez anos em Chicago. Dedica aos produtos veganos, sem nenhum tipo de ingrediente de origem animal, a Upton’s lançou há um ano sua primeira linha à base de jaca, feita sem conservantes, com a fruta cozida e temperada nos sabores churrasco, chilli com limão e curry tailandês.

O pacote de 300 gramas da chamada carne de jaca custa 4,99 dólares – ou 58 reais o quilo, quase o mesmo preço do filé mignon vendido no Brasil. Há ainda uma quarta opção sem sabor, para ser temperada a gosto do cliente em casa. “Mas sozinha ela não tem muito gosto. É como o tofu: precisa adicionar muitos temperos”, diz Nicole, que já vende a carne de jaca em lojas de produtos naturais em praticamente todo o território dos Estados Unidos. “Com o aumento do interesse não vai demorar para vendermos também em supermercados tradicionais”, afirma.

Ao molho barbecue

Com um conceito similar ao da Uptons’, a concorrente The Jackfruit Company oferece a jaca cozida em sabores como churrasco, curry e teryiaki em embalagens que ressaltam o fato de o produto não conter glúten e ser rico em fibras. Já a Native Forrest comercializa a fruta desfiada e enlatada. Em restaurantes e em food trucks, a jaca também começa a ganhar espaço. “É o item mais popular do nosso cardápio”, diz Daniel Strong, proprietário do Chickpea&Olive, um restaurante itinerante em Nova York.

O “pulled BBQ jackfruit” é a versão vegana de um clássico da culinária americana, o sanduíche de carne de porco desfiada. Servido com vegetais em conserva e molho aioli de raiz-forte em um pão de batata, o sanduíche custa 13 dólares. “A textura é muito similar à da carne e a jaca absorve muito bem os sabores”, diz Strong, que vende cerca de 70 sanduíches de jaca por dia. O pulled-pork é uma das receitas mais famosas de jaca, replicada em centenas de sites e canais do Youtube. No Brasil, Bela Gil já ensinou a preparar uma moqueca vegetariana de jaca em seu programa no canal pago GNT.

Ao contrário de outros produtos usados como alternativas para a carne, no entanto, a jaca quase não possui valor proteico. “Ela tem boas vitaminas e nutrientes, mas não é um equivalente a um substituto de proteína”, diz Nyree Zerega, professora de biologia na Universidade Northwestern e diretora do programa de graduação do jardim botânico de Chicago. Há 15 anos, Nyree estuda o gênero Artocarpus, que possui mais de 70 espécies, na sua maioria oriundas do sudeste asiático. A jaca, especificamente, é uma fruta nativa da Índia, onde seu consumo é bastante comum em algumas regiões. “Ela é ingerida como um amido, um vegetal, cozida com curry como parte das refeições”, diz.

Do ponto de visto biológico, a fruta da jaca são as suas sementes. A parte amarelada, que cobre cada uma delas e que chamamos de carne ou polpa, são na verdade as pétalas. A jaca, portanto, é como um aglomerado de frutos coberto por uma casca grossa. A textura de carne desfiada é obtida cozinhando jacas jovens e verdes.

Segundo a pesquisadora, o aumento do interesse pela jaca no último ano pode ser explicado pela facilidade de manejo da fruta, que dá em árvores e não precisa ser replantada a cada ano. Além disso, a abertura de um mercado consumidor nos Estados Unidos pode ajudar pequenos agricultores com uma renda extra, sobretudo em países como a Índia que ainda desperdiça grandes quantidades da fruta. Essa é a estratégia de empresas como a The Jackfruit Company, que garante comprar as frutas apenas de produtores familiares na Índia. Já a Upton’s, por exemplo, usa grandes produtores na Tailândia. “Cada vez mais pessoas buscam por coisas novas, diferentes, e a jaca definitivamente se encaixa nesse cenário. Só espero que essa moda ajude também a economia dos locais aonde ela naturalmente cresce”, diz Nyree. Já sobre a popularização das receitas com jaca, a pesquisadora faz apenas uma ressalva: “O gosto não tem nenhuma semelhança com porco – só quando se coloca muito molho barbecue”.

Sucesso à parte, é difícil mensurar qual será o tamanho do mercado da jaca. Mas o potencial é grande dada a procura do público por produtos considerados mais saudáveis. Segundo a Spins, consultoria de mercado especializada na indústria de produtos naturais, os supermercados desse setor são por si só um segmento de mais de 14 bilhões de dólares. Em 2011, no início da febre das superfrutas, as vendas das cinco mais populares, como açaí e gojiberrie, somavam mais de 205 milhões de dólares ao ano. Para 2016, a Spins citou a jaca em seu relatório de tendências. Vai uma jack fruit com barbecue aí?

(Paula Rothman, de Boston)

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