Livro revela lado obscuro da Copa do Mundo da África do Sul

Livro conta as histórias de corrupção, desperdício e até supostos assassinados políticos que foram silenciados pelo som das vuvuzelas

Johanesburgo – Seis anos depois da Espanha conquistar o título na África do Sul, um livro mostra a Copa do Mundo de 2010 organizada pelo país como pano de fundo para contar as histórias de corrupção, desperdício e até supostos assassinados políticos que foram silenciados pelo som das vuvuzelas.

Três grandes escândalos estão nas páginas de “The Big Fix: How South Africa Stole the 2010 World Cup” (O Grande Arranjo: Como a África do Sul roubou a Copa do Mundo de 2010, em tradução livre): a propina com a qual foi decidida a eleição da sede, os atropelos em torno da construção dos estádios e a manipulação de amistosos de preparação da seleção anfitriã.

“Os testemunhos me permitiram reconstruir como as coisas ocorreram, as sequências dos fatos”, disse à Agência Efe o autor do livro, Ray Hartley, que também usou na história a investigação feita pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e outros materiais publicados para traçar uma crônica do lado obscuro da Copa.

O livro começa em um tribunal vazio de Nova York, no qual começou, em segredo, o processo que foi manchete dos jornais de todo o mundo no dia 27 de maio de 2015, quando a polícia da Suíça prendeu em Zurique vários dirigentes do alto escalão da Fifa.

Entre eles estava o ex-presidente da Concacaf, Jack Warner. O dirigente de Trinidad e Tobago é acusado de ter cobrado 10 milhões de euros em troca de seu voto e de dois de seus aliados para a África do Sul ser eleita sede da Copa do Mundo de 2010.

O tortuoso processo que levou ao pagamento está descrito no livro, que também indica que essa prática era algo comum também em outros Mundiais.

A vitória sul-africana na votação realizada em Zurique, em 2006, foi só o primeiro dos escândalos.

Segundo o livro, o ex-presidente da Fifa Joseph Blatter impôs seu critério e obrigou a construção de novos estádios em Durban e na Cidade do Cabo, em vez de reformar os já existentes, o que encareceu enormemente o custo de infraestruturas agora sem uso.

Traindo suas próprias políticas de desenvolvimento e integração urbana, as autoridades sul-africanas aceitaram construir o novo estádio da Cidade do Cabo em uma área rica e de maioria branca, renunciando à ideia de revitalizar bairros mais pobres, muito mais ligados ao futebol.

“As pessoas que normalmente vão aos estádios na África do Sul não estavam nas partidas do Mundial, porque isso não podia ser permitido. Havia, por outro lado, muitos torcedores brancos de rúgbi, que não tinham ideia do que é o futebol”, diz o autor.

As grandes construtoras da África do Sul foram quem mais se beneficiaram da “febre” dos novos estádios. Segundo a denúncia, elas formaram um cartel para inflacionar os preços e dividir os contratos públicos para realizar as obras das novas estruturas.

Os abusos acabaram resultando, anos depois, em uma grande multa para os responsáveis. Alguns deles pediram perdão à população do país, invocando o espírito do ex-presidente Nelson Mandela.

Antes de a bola rolar, em janeiro de 2009, onde seria a sede de Mbombela, no nordeste do país, o vereador Jimmy Mohlala foi morto após denunciar a corrupção na construção do estádio da cidade.

A parte mais novelesca do livro corresponde, no entanto, à fase de preparação para o Mundial, quando uma organização especializada em manipulações ofereceu à Associação Sul-Africana de Futebol (Safa) fornecer árbitros de graça para os amistosos da seleção local.

A Safa aceitou. Três pênaltis foram marcados na partida entre África do Sul e Colômbia, vencido pelos donos da casa, por 2 a 1. Em outro jogo, triunfo sobre a Guatemala, por 5 a 0, os ‘Bafana Bafana’ foram beneficiados com outros dois pênaltis, segundo o livro. 

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