Maduro: entre ovos e abutres

Thiago Lavado

É difícil ver alguma notícia positiva na Venezuela nesse 2017, mas uma dose de alívio veio nesta quarta-feira. O país estava à beira da bancarrota, com o vencimento de 3 bilhões de dólares em contratos de dívidas do país. O caos social que se alastra pelo país era a desculpa perfeita para o presidente Nicolás Maduro dar uma banana para os credores.

Em sua conta no Twitter, a e petroleira estatal PDVSA também confirmou o pagamento de 2,55 bilhões de dólares com credores internacionais. Depois desta semana, a Venezuela tem um respiro financeiro, pelo menos até outubro, quando vencem outros 3,5 bilhões de dólares em dívidas.

“Foi uma clara mostra de solvência, responsabilidade e compromisso com a estabilidade financeira”, afirmou o vice-presidente do país, Tareck el Aissami. Evidentemente, não trata-se de nada disso. O fato é que Venezuela tem muito, ou quase tudo, a perder caso seja marcada como um mal pagador.

O calote da dívida é um tema alarmante e recorrente porque o país está quebrado. As reservas financeiras da Venezuela estão nos menores patamares dos últimos 15 anos, em 10,6 bilhões de dólares. Um eventual calote, assunto debatido há anos, colocaria a Venezuela em uma posição crítica: a crise do petróleo, responsável por 95% das exportações do país, prejudicou o orçamento e a dívida já chega a 97% do PIB. A agência Bloomberg estima que as chances de um calote nos próximos 12 meses seja de 53%. A expectativa nos próximos 5 anos é de 90%.

Eis uma faceta pouco falada do governo venezuelano. Apesar da retórica anti-imperialista, o país nunca deixou de pagar seus credores. O custo, claro, é alto para um país à beira da falência. Mas a insolvência seria muito pior. Hoje, 93% da população não tem o suficiente para comprar comida, a inflação cresceu 800% em 2016, e o PIB deve ter recuado pelo menos 10% ano passado, segundo o Fundo Monetário Internacional. Os dados são estimativas de terceiros, já que o Banco Central da Venezuela deixou de divulgar os índices do país no final de 2015. Com o selo de mau pagador, o país teria dificuldade para importar, entre outros produtos, carne, remédios e trigo. As consequências são inimagináveis.

Apesar do cenário calamitoso, o fundo de investimentos de Londres Exotix Partners mantém a recomendação de compra nos títulos de dívida tanto da Venezuela quanto da PDVSA. Analistas da empresa afirmam que a posição precisa ser revisada todos os dias, conforme chegam novas notícias da crise no país. “Por enquanto, a Venezuela tem se mostrado uma boa pagadora, a despeito da situação política interna. Mas é preciso se perguntar o quanto isso pode durar já que devem estar gastando mais na rolagem dos débitos do que em importações”, disse ao New York Times Stuart Culverhouse, diretor da Exotix em Londres.

Um caso interessante mostra como situação venezuelana é caótica: o presidente Nicolás Maduro elogiou e recomendou as leituras de um pouco conhecido economista norte-americano, o professor Michael Hudson, da Universidade do Missouri, especialista em finanças internacionais e conselheiro econômico de países como Grécia, Islândia, Lituânia e China. “Eu não sei se vocês o conhecem, mas recomendo seu trabalho. É um dos grandes economistas americanos”, disse Maduro durante um discurso em Caracas.

Uma semana depois, o professor Hudson, que já se declarou favorável aos “objetivos do Chavismo”, demonstrou não ter o mesmo apreço pelas políticas econômicas de Maduro. Ele afirmou que, embora não seja um especialista em Venezuela, acredita que, desde que o presidente assumiu o poder, o país “entrou em um período de anarquia”. “Se o governo perceber que não pode pagar as dívidas no futuro, deveria parar de fazê-las agora e renegociar os débitos”, afirmou. Não se sabe ao certo de onde o país conseguiu dinheiro para pagar as contas, já que as reservas foram reduzidas em apenas 6 milhões de dólares esta semana.

Futuro econômico

Segundo reportagem da agência Reuters, o Banco Central venezuelano negociou na calada da noite novos empréstimos com companhias de investimento de Nova York para efetuar a rolagem hoje. É como vender o jantar para pagar o almoço.

Para muitos analistas a questão não é se a Venezuela vai quebrar, mas quando isso irá acontecer. Seria necessário que o preço do barril de petróleo chegasse a pelo menos 70 dólares para que houvesse algum sinal de estabilização na economia do país e da PDVSA, um aumento de 27% sobre os preços atuais, que giram em torno de 55 dólares. Mesmo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) organizando um corte na produção global da commodity, é muito improvável que os preços subam além de 65 dólares no próximo ano. A única “saída” para a Venezuela seria torcer por uma escalada dos conflitos armados no Oriente Médio, que poderia inviabilizar a extração e elevar os preços.

A dívida externa venezuelana soma quase 60 bilhões de dólares, a maior desde que Hugo Chávez assumiu o poder há quase 20 anos. E, vale lembrar, seis vezes as reservas do país. Mas isso é só uma parte da história: há ainda empréstimos com companhias internacionais que aumentam o montante. Este ano, os vencimentos chegam a 8,5 bilhões de dólares e mais 7,9 bilhões são esperados para o ano que vem. Rolar essas dívidas pode terminar de consumir as reservas do país.

Seria uma enorme dor de cabeça para qualquer governo, mas Maduro tem problemas maiores com que lidar. O governo enfrenta sete dias seguidos de protestos após o Supremo Tribunal da Venezuela, dominado por ministros chavistas, tomar os poderes do Congresso, de maioria da oposição. Os confrontos com a polícia deixaram quatro mortos, incluindo um garoto de 13 anos, e pelo menos 200 feridos. Há relatos de que Maduro está armando os apoiadores do governo nas ruas. Cerca de 300 pessoas estão presas acusados de serem membros desordeiros da oposição.

Os venezuelanos, basicamente, não aguentam mais. A inflação mensal este ano está em 20%, dizimando o poder de compra das famílias e os salários. Os sinais da deterioração ficam claros nas filas que os cidadãos têm de enfrentar para ter acesso a bens de consumo simples, como alimentos ou produtos de higiene, escassos há meses. Até a gasolina está faltando, já que o país não tem condições de consertar as precárias refinarias de petróleo.

Na terça-feira à noite, um grupo de manifestantes, mesmo sem ter o que comer, recebeu Nicolás Maduro com uma chuva de ovos durante o primeiro discurso público do presidente desde que a recente ondas de protestos começou. Maduro teve de ser retirado às pressas do incidente, que aconteceu em San Félix, no estado de Bolívar, antigo reduto do chavismo. No fim das contas, só quem ganha com a crise sem fim na Venezuela são os fundos abutres internacionais. Mas eles têm em sua defesa um modelo de negócios pra lá de conhecido – quanto pior, melhor.

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